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Nº 8127 de janeiro de 202159:03efeméride

O assalto ao paquete Santa Maria, 60 anos depois

O episódio comemora os 60 anos do assalto ao paquete Santa Maria (22 de janeiro de 1961), operação espetacular de resistência à ditadura liderada por Henrique Galvão que teve grande impacto mediático mas fracassou nos objetivos práticos. Rui Ramos analisa a chegada de ex-salazaristas como Galvão e Humberto Delgado à oposição, as divisões internas do movimento anti-regime, e a resiliência do Estado Novo. Na segunda parte, responde à pergunta de um ouvinte sobre o destino da aristocracia francesa pós-1789, mostrando como nobres sobreviveram e se adaptaram através de sucessivos regimes.

Ideias principais

  1. O assalto ao Santa Maria foi um golpe publicitário internacional mas operacionalmente falhado, não conseguindo derrubar a ditadura nem promover insurreições coloniais, e o regime salazarista superou facilmente 1961 apesar dos múltiplos desafios.
  2. A chegada de ex-salazaristas como Galvão e Delgado à oposição trouxe uma nova dinâmica de ação direta, mas as divisões internas - entre anticomunistas e comunistas, entre aventureiros e velha guarda republicana - impediram uma frente unida eficaz.
  3. A pressão internacional americana sobre Portugal em 1961, inicialmente forte com Kennedy, rapidamente se desvaneceu face às prioridades da Guerra Fria (Cuba, Vietname, descolonização africana pró-soviética), permitindo ao regime recuperar apoio externo.
  4. A aristocracia francesa não foi eliminada pela Revolução de 1789: muitos nobres lideraram a própria revolução, outros sobreviveram através de exílios e retornos estratégicos, e figuras como Talleyrand serviram todos os regimes sucessivos - monarquia, república, império, restauração.
  5. As revoluções não substituem completamente as elites mas transformam-nas: a antiga nobreza baseada em linhagem foi parcialmente substituída por uma nova elite baseada no mérito e competência, embora a aristocracia tradicional mantivesse influência simbólica e prática ao longo do século XIX.

Resumo do episódio

## O assalto ao paquete Santa Maria, 60 anos depois

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares revisitam um dos episódios mais espetaculares da resistência à ditadura salazarista: o assalto ao paquete Santa Maria, ocorrido na madrugada de 22 de janeiro de 1961. Um comando de 23 homens - 12 portugueses e 11 espanhóis - liderado por Henrique Galvão tomou de assalto o navio, que transportava mais de 600 passageiros com destino a Miami. A operação, batizada de Dulcinea, resultou na morte de um tripulante e em dois feridos, e o navio só seria entregue às autoridades brasileiras em fevereiro, após Galvão e os seus companheiros obterem asilo político junto do recém-empossado presidente Jânio Quadros.

Para contextualizar o episódio, Rui Ramos explica que o assalto ao Santa Maria foi produto de dois fenómenos convergentes. Por um lado, a chegada à oposição de figuras como Henrique Galvão e o general Humberto Delgado - homens que tinham sido parte do próprio regime salazarista e que, ao contrário dos velhos republicanos ou dos jovens comunistas que dominavam até então a oposição, eram homens de ação com conhecimento interno das divisões do regime. Galvão, nascido em 1895, tinha tido uma carreira notável dentro do Estado Novo: chefe de gabinete do ministério das colónias, inspector da administração colonial, deputado, organizador das exposições coloniais dos anos 30 e presidente da Emissora Nacional. Só no fim dos anos 40 começou a criticar a administração colonial, foi preso em 1952, voltou a ser condenado por distribuir um jornal clandestino a partir da Penitenciária de Lisboa e, em 1959, fugiu para a América Latina. Por outro lado, a chegada ao poder de John Kennedy introduziu uma nova pressão internacional sobre Portugal, tornando os Estados Unidos menos tolerantes com ditaduras coloniais, o que deixou nervosas as chefias militares portuguesas integradas na NATO.

O plano original era ambicioso e, em última análise, irrealista: tomar o paquete, ocupar a ilha espanhola de Fernando Pó e, a partir daí, provocar uma insurreição em Luanda. Desde o início, porém, as coisas correram mal. A embaixada portuguesa em Caracas já sabia do plano. Durante o assalto, a confusão sobre o comando levou à morte acidental de um piloto, o que obrigou a uma paragem nas ilhas britânicas de Santa Lúcia para desembarcar os feridos - expondo imediatamente a localização do navio. O plano B dividiu o comando: os espanhóis queriam rumara à Guiné-Conacri com apoio soviético, mas Galvão, anticomunista convicto, recusou e impôs o destino do Brasil. A entrega do navio e a concessão de asilo político foram negociadas com Jânio Quadros. O grande trunfo da operação foi mediático: as imagens deram a volta ao mundo e os governos britânico e americano recusaram-se a tratar o caso como pirataria, classificando-o como ato político, o que impediu qualquer intervenção naval contra o navio.

Contudo, Rui Ramos sublinha que o impacto real foi muito limitado. O Santa Maria regressou a Lisboa em fevereiro, Salazar pronunciou o seu célebre agradecimento aos portugueses, e a ditadura sobreviveu ao episódio, à revolta das chefias militares em abril de 1961, ao início da guerra em Angola e à invasão de Goa pela Índia em dezembro do mesmo ano. A oposição estava profundamente dividida: os comunistas desconfiavam de Galvão por ser anticomunista e temiam que a violência - havia um morto - prejudicasse a causa. Humberto Delgado e Galvão acabaram por se separar, cada um a planear golpes de forma independente, como o sequestro de um avião da TAP em novembro de 1961, em que lançaram panfletos sobre Lisboa sem aterrar. A atenção internacional desvaneceu-se rapidamente, absorvida pela Guerra Fria, Cuba e o Vietname, e o governo americano foi tornando-se progressivamente mais compreensivo com Lisboa. Humberto Delgado seria assassinado pela PIDE em 1965; Galvão morreria no exílio em São Paulo em 1970. O salazarismo resistiria até 1974.

Personagens

  • Henrique Galvão
  • Humberto Delgado
  • Salazar
  • Franco
  • Álvaro Cunhal
  • Mário Soares
  • John F. Kennedy
  • Hermínio da Palma Inácio
  • Jânio Quadros
  • Luís XVI
  • Maria Antonieta
  • Duque de Orléans
  • Robespierre
  • Danton
  • Mirabeau
  • Lafayette
  • Napoleão Bonaparte
  • Talleyrand
  • Metternich
  • Luís Filipe de Orléans
  • Conde de Provence

Lugares/Países

  • Portugal
  • Espanha
  • Estados Unidos
  • Brasil
  • Angola
  • Venezuela
  • Argentina
  • Marrocos
  • França
  • Inglaterra
  • Áustria
  • Guiné-Conacri
  • Goa
  • Cuba
  • Vietname

Épocas

  • Estado Novo
  • século XX
  • anos 60
  • Primeira República
  • 28 de Maio de 1926
  • Revolução Francesa
  • século XIX
  • Antigo Regime
  • Terror jacobino
  • Império napoleónico
  • Restauração

Temas

  • resistência à ditadura
  • colonialismo
  • conspiração política
  • exílio político
  • guerra colonial
  • oposição política
  • comunismo
  • anticomunismo
  • diplomacia internacional
  • aristocracia
  • revolução
  • classes sociais
  • mérito versus linhagem

Eventos

  • Assalto ao paquete Santa Maria
  • Operação Dulcineia
  • 28 de Maio de 1926
  • Eleições presidenciais de 1958
  • Guerra em Angola
  • Invasão de Goa
  • Assalto ao quartel de Beja
  • Assalto ao banco da Figueira da Foz
  • Sequestro de avião da TAP
  • Revolução Francesa de 1789
  • Terror jacobino
  • Restauração da monarquia francesa
  • Revolução de 1830

Guerras e conflitos

  • Guerra Colonial Portuguesa
  • Guerra Fria
  • Guerras napoleónicas

Livros citados

  • A Minha Luta Contra o Salazarismo e o Comunismo em Portugal