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Nº 18601 de fevereiro de 202355:50efeméride

O assassinato de Ghandi e a tragédia do Vietname

Episódio duplo que comemora duas efemérides asiáticas: os 75 anos do assassinato de Gandhi (30 janeiro 1948) e os 55 anos da ofensiva do Tet no Vietname (31 janeiro 1968). Analisa a estratégia de resistência não-violenta de Gandhi, as tensões entre hindus e muçulmanos que levaram ao seu assassinato, e explica como uma vitória militar americana no Vietname se transformou numa derrota política que mudou o rumo da guerra.

Ideias principais

  1. Gandhi não foi apenas um líder independentista mas quis criar uma civilização indiana culturalmente independente do Ocidente, inspirando-se paradoxalmente em Tolstói e sendo por isso visto por alguns britânicos como um 'advogado de Londres a fingir de faquir indiano'
  2. O assassinato de Gandhi por um nacionalista hindu radical deveu-se à sua postura conciliadora com os muçulmanos durante a partilha da Índia, revelando tensões profundas dentro do próprio movimento nacionalista indiano
  3. A ofensiva do Tet em 1968 foi um desastre militar para o Vietname do Norte (40 mil mortos vs 16 mil americanos em todo o ano) mas tornou-se numa vitória política ao revelar à opinião pública americana que a guerra seria indefinida
  4. A Guerra do Vietname não foi um conflito entre americanos e vietnamitas mas uma guerra civil vietnamita com intervenção externa de ambos os lados, em que o Vietname do Sul tinha um milhão de homens em armas e resistiu activamente ao comunismo
  5. A liberdade jornalística sem censura na cobertura televisiva do Vietname, mostrando diariamente mortos e feridos americanos, nunca mais se repetiu em conflitos posteriores e foi determinante para a perda de apoio público à guerra

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares abordam dois temas distintos, separados por duas décadas e unidos pela geografia asiática: o assassinato de Mahatma Gandhi, em janeiro de 1948, e a ofensiva do Tet, em janeiro de 1968, durante a Guerra do Vietname. Em ambos os casos, o fio condutor é o paradoxo entre a aparência e a realidade - um homem de paz morto pelos seus, uma derrota militar que se transformou em vitória política.

A primeira parte é dedicada a Gandhi. Os apresentadores sublinham que a imagem icónica do líder indiano - magro, enrolado no pano tradicional, descalço - não foi sempre assim. Antes de se transformar no Mahatma, Gandhi foi um jovem advogado formado em Londres, impecavelmente vestido à moda ocidental. A sua transformação gradual, a partir dos anos 1920, foi também uma declaração ideológica: Gandhi não queria apenas a independência política da Índia, mas a sua independência cultural face ao Ocidente. Rui Ramos destaca que esta posição, paradoxalmente, granjeou a Gandhi enorme popularidade no próprio Ocidente, onde muita gente, traumatizada pela Primeira Guerra Mundial, buscava noutras civilizações uma alternativa espiritual. Uma das influências centrais do pensamento gandhiano terá sido, curiosamente, o escritor russo Tolstói, com quem Gandhi se correspondeu e que o terá aproximado de textos da tradição hindu.

A estratégia da não-violência funcionou em parte porque o adversário era o Reino Unido, um Estado que, mesmo nas colónias, mantinha mecanismos de Estado de direito - tribunais, imprensa relativamente livre, oposição parlamentar em Londres. Como nota George Orwell, citado no episódio, a mesma estratégia teria sido imediatamente esmagada por uma ditadura como a soviética ou a nazi. Mas Gandhi também acumulou inimigos dentro do próprio movimento independentista indiano. Figuras como Subhash Chandra Bose defendiam uma via violenta e chegaram a colaborar com a Alemanha nazi e o Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Foi precisamente de um sector do nacionalismo hindu que saiu o seu assassino: alguém que considerava Gandhi excessivamente favorável aos muçulmanos, numa altura em que a partição da Índia tinha gerado enormes tensões comunais. O assassinato foi aproveitado por Nehru para marginalizar politicamente esse nacionalismo hindu radical - uma marginalização que, como os apresentadores observam, parece hoje estar a ser revertida.

A segunda parte do episódio centra-se na Guerra do Vietname e na ofensiva do Tet. Rui Ramos começa por desfazer o equívoco mais comum sobre o conflito: não se tratou de uma guerra entre os Estados Unidos e o Vietname, mas de uma guerra em que os americanos apoiavam a República do Vietname do Sul contra a invasão encoberta conduzida pelo regime comunista do Norte. Os Vietcongues, frequentemente apresentados como uma insurreição espontânea da população sulista, eram na realidade, em grande medida, militares infiltrados pelo Norte. A estratégia comunista baseava-se precisamente em evitar uma invasão convencional - como acontecera na Coreia - para não dar pretexto a uma intervenção internacional em larga escala.

A ofensiva do Tet, lançada em janeiro de 1968, foi uma aposta de tudo ou nada: cerca de 80 mil homens atacaram simultaneamente cidades, bases militares e até a embaixada americana em Saigão. Militarmente, foi um desastre para o Norte: estima-se que cerca de 40 mil soldados comunistas terão morrido, e toda a sua logística no Sul foi destruída. Porém, o choque psicológico nos Estados Unidos foi avassalador. A população americana via diariamente na televisão - numa guerra com uma liberdade de cobertura jornalística nunca mais repetida - imagens de combates violentos e de baixas elevadas. A constatação de que, após três anos e meio milhão de soldados no terreno, o inimigo conseguia ainda montar uma ofensiva daquela dimensão, destruiu o consenso político em torno da guerra. O presidente Johnson desistiu de se recandidatar e o general Westmoreland pediu mais 400 mil homens - um pedido politicamente impossível de satisfazer.

Personagens

  • Mohandas Gandhi
  • Mahatma Gandhi
  • Liev Tolstói
  • Florbela Espanca
  • Winston Churchill
  • George Orwell
  • Subhash Chandra Bose
  • Adolf Hitler
  • Heinrich Himmler
  • Jawaharlal Nehru
  • Ngo Dinh Diem
  • Lyndon Johnson
  • John F. Kennedy
  • Richard Nixon
  • Jane Fonda
  • William Westmoreland
  • Le Duan
  • Atatürk

Lugares/Países

  • Índia
  • Reino Unido
  • Grã-Bretanha
  • Londres
  • Rússia
  • União Soviética
  • Alemanha
  • Japão
  • Portugal
  • Estados Unidos
  • Vietname
  • Vietname do Norte
  • Vietname do Sul
  • Hanói
  • Saigão
  • Birmânia
  • Laos
  • Camboja
  • Coreia
  • Coreia do Norte
  • Coreia do Sul
  • China
  • Turquia
  • Tailândia
  • Indonésia
  • Filipinas
  • Indochina
  • França
  • Pequim
  • Paris
  • Europa
  • Ásia
  • Ocidente
  • Sudeste Asiático

Épocas

  • século XIX
  • década de 1890
  • década de 1920
  • década de 1930
  • anos 20
  • anos 30
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • década de 1950
  • década de 1960
  • anos 60

Temas

  • independência
  • colonialismo
  • imperialismo
  • nacionalismo
  • não-violência
  • pacifismo
  • resistência
  • guerra
  • comunismo
  • ditadura
  • democracia
  • religião
  • hinduísmo
  • catolicismo
  • budismo
  • guerra civil
  • guerrilha
  • propaganda
  • terrorismo
  • assassinato político
  • partilha territorial
  • Guerra Fria
  • intervencionismo
  • teoria dos dominós

Eventos

  • assassinato de Gandhi
  • independência da Índia
  • partilha da Índia
  • movimento Quit India
  • ofensiva do Tet
  • Guerra do Vietname
  • Guerra da Coreia
  • invasão japonesa da Birmânia
  • massacre de Hué
  • cerco de Khe Sanh
  • acordos de Paris de 1973
  • queda de Saigão
  • boat people

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra do Vietname
  • Guerra da Coreia
  • Guerra do Afeganistão
  • Guerra do Iraque

Livros citados

  • Dias da Birmânia