Nº 29029 de janeiro de 202538:43efeméride
O campo de Auschwitz foi libertado há 80 anos
O episódio comemora os 80 anos da libertação de Auschwitz-Birkenau pelas tropas soviéticas a 27 de janeiro de 1945. Rui Ramos e João Miguel Tavares discutem não tanto o Holocausto em si, mas o que aconteceu aos sobreviventes após a libertação, como a notícia foi recebida pela opinião pública mundial, e como Auschwitz se tornou o símbolo icónico do extermínio nazi. Exploram as diferenças entre o destino dos judeus da Europa Ocidental e Oriental, o papel dos julgamentos de Nuremberg, e a lenta formação da memória coletiva do Holocausto.
Ideias principais
- A libertação de Auschwitz não foi inicialmente uma grande notícia; a atenção mediática centrou-se nos campos libertados pelos americanos e britânicos na Alemanha (Dachau, Buchenwald, Bergen-Belsen), onde as imagens dos cadáveres eram mais dramáticas porque os nazis não tiveram tempo de os destruir.
- Os sobreviventes judeus da Europa Oriental enfrentaram um destino muito pior que os da Europa Ocidental: regressaram a comunidades completamente destruídas, sofreram pogrómos (como em Kielce em 1946), e 95% dos refugiados em 1946 só queriam emigrar para a Palestina.
- As potências aliadas, incluindo os soviéticos, tinham relutância em enfatizar a dimensão especificamente judaica do extermínio durante a guerra, temendo alimentar a propaganda nazi de que lutavam 'pelos judeus', e diluíam as vítimas como 'vítimas do fascismo'.
- A memória pública do Holocausto e a centralidade de Auschwitz só se consolidaram gradualmente: com o julgamento de Nuremberg (1945-46), o julgamento de Eichmann (1961-62), e sobretudo com obras como a série 'Holocaust' (1978) e o documentário 'Shoah' (1985).
- Primo Levi escreveu 'Se Isto é um Homem' em 1947 mas nenhuma editora importante o quis publicar porque 'as pessoas queriam esquecer'; o livro só vendeu mil exemplares e só se tornou best-seller nos anos 1970-80, confirmando o pesadelo recorrente de Levi de que ninguém acreditaria no que viveu.
Resumo do episódio
O episódio 290 de *E o Resto é História* assinala os 80 anos da libertação do complexo de campos de Auschwitz-Birkenau, ocorrida a 27 de janeiro de 1945, quando o Exército Vermelho entrou no campo após uma batalha que custou a vida a cerca de 200 soldados soviéticos. Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se, contudo, a explorar não o que se passou dentro de Auschwitz, mas sim o que aconteceu a seguir: qual foi o destino dos sobreviventes e como é que o mundo foi tomando consciência do extermínio dos judeus.
Quando as tropas soviéticas chegaram, encontraram apenas cerca de sete mil prisioneiros, os mais doentes e debilitados, pois os restantes tinham sido forçados a marchas de evacuação para outros campos. Muitos morreram durante essas deslocações; outros, já libertados, não resistiram ao estado de fraqueza em que se encontravam. Entre os sobreviventes estavam figuras como o químico italiano Primo Levi e Otto Frank, pai de Anne Frank. O percurso de Primo Levi ilustra bem o calvário pós-libertação: passou meses num campo de refugiados na Bielorrússia e só regressou a Itália em outubro de 1945, depois de uma viagem errática por meia Europa destruída. Os judeus da Europa Ocidental conseguiram, em geral, reintegrar-se nas suas sociedades de origem. O mesmo não sucedeu com os judeus do Leste, que regressavam a comunidades completamente dizimadas e a populações locais hostis, por vezes motivadas pelo interesse em conservar bens expropriados. O pogrom de Kielce, na Polónia, em julho de 1946, onde foram assassinados dezenas de sobreviventes judeus, é o exemplo mais simbólico desta violência persistente. A consequência foi que a maioria dos sobreviventes se recusou a regressar e acabou concentrada em campos de refugiados na zona americana da Alemanha, de onde 95 por cento aspirava emigrar para o mandato britânico da Palestina. A Grã-Bretanha, porém, restringia essa imigração, o que obrigou dezenas de milhares a fazê-lo clandestinamente. Já os prisioneiros de guerra soviéticos libertados foram tratados pelas autoridades comunistas como traidores por se terem deixado capturar, sendo enviados para o Gulag siberiano.
No que respeita ao impacto público, os apresentadores sublinham que a libertação de Auschwitz não constituiu, no imediato, um acontecimento de grande ressonância mediática. O jornal soviético *Pravda* noticiou-a de forma discreta, sem mencionar os judeus, diluindo o extermínio na categoria genérica de "vítimas do fascismo". A verdadeira onda de choque na opinião pública ocidental veio com a libertação, pelos americanos e britânicos, dos campos de Buchenwald, Bergen-Belsen e Dachau, na Alemanha, onde os nazis não tiveram tempo de destruir as provas. As imagens de pilhas de cadáveres e de prisioneiros esqueléticos foram filmadas por ordem do general Eisenhower e exibidas nas salas de cinema de todo o mundo ocidental. Paradoxalmente, as imagens que ficaram na memória coletiva como representativas do Holocausto são, na sua maioria, imagens desses campos alemães e não de Auschwitz.
Quanto ao conhecimento prévio do extermínio, os apresentadores esclarecem que a perseguição aos judeus era pública, mas o caráter sistemático e industrial da "solução final" estava envolto em silêncio oficial. Apesar de rumores, relatórios de resistentes polacos e até notícias do *New York Times* em 1942 e 1944, governos aliados e opinião pública ocidental não dispunham de uma perceção clara do que se passava. Tanto os Aliados como a União Soviética tendiam a diluir a dimensão especificamente judaica das atrocidades por razões distintas: os soviéticos por ideologia, os ocidentais também para não alimentar a propaganda nazi de que a guerra era uma "guerra dos judeus".
Rui Ramos situa a viragem decisiva na consciência pública nos julgamentos de Nuremberga de 1945-46, onde o próprio comandante de Auschwitz, Rudolf Höss, confirmou o assassínio de cerca de um milhão de pessoas. Mas a sedimentação cultural desta memória foi lenta. O livro de Primo Levi *Se Isto é um Homem*, recusado pela Einaudi em
Personagens
- Heinrich Himmler
- Primo Levi
- Otto Frank
- Anne Frank
- Dwight D. Eisenhower
- Adolf Eichmann
- Evgeny Yevtushenko
- Claude Lanzmann
- Miklós Horthy
Lugares/Países
- Polónia
- Alemanha
- União Soviética
- Rússia
- Itália
- Holanda
- França
- Hungria
- Roménia
- Bielorrússia
- Ucrânia
- Áustria
- Estados Unidos
- Inglaterra
- Israel
- Palestina
- Suíça
Épocas
- Segunda Guerra Mundial
- pós-guerra
- anos 1940
- anos 1950
- anos 1960
- anos 1970
- anos 1980
Temas
- Holocausto
- genocídio
- campos de concentração
- campos de extermínio
- antissemitismo
- refugiados
- memória histórica
- crimes de guerra
- crimes contra a humanidade
- propaganda
- resistência
- tribunal internacional
- censura
- comunismo
Eventos
- libertação de Auschwitz
- solução final
- Conferência de Wannsee
- Noite dos Cristais
- julgamento de Nuremberg
- julgamento de Eichmann
- massacre de Babi Yar
- pogromo de Kielce
- estabelecimento do Estado de Israel
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
Livros citados
- Se Isto é um Homem
- Diário de Anne Frank