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Nº 29212 de fevereiro de 202542:26análise histórica

O Canal do Panamá e a invenção de um novo país

O episódio analisa a construção do Canal do Panamá (1904-1914) como obra de engenharia monumental e instrumento geopolítico. Aborda o fracasso francês da década de 1880, marcado por 20 mil mortes e o escândalo de corrupção que abalou França, e o sucesso americano sob Theodore Roosevelt, que incluiu a criação do próprio país do Panamá em 1903. A narrativa conecta-se com a actualidade através das declarações de Donald Trump sobre recuperar o controlo do canal.

Ideias principais

  1. A construção de canais no século XVIII e XIX foi uma 'mania' de engenharia comparável à dos caminhos de ferro, com Inglaterra a desenvolver extensa rede de canais para transporte de carvão e outras cargas pesadas.
  2. O fracasso francês no Panamá (1880-1889) deveu-se à tentativa de replicar o modelo do Suez com canal ao nível do mar, ignorando o relevo acidentado e as doenças tropicais que mataram 200 pessoas por dia nos piores períodos.
  3. Os americanos tiveram sucesso porque adoptaram um plano diferente com lago artificial e comportas, implementaram medidas sanitárias contra mosquitos da malária e febre amarela, e contaram com financiamento governamental robusto.
  4. O Panamá como país independente foi essencialmente criado pelos Estados Unidos em 1903 através da compra à Colômbia por 25 milhões de dólares, aproveitando movimentos separatistas locais preexistentes para garantir controlo do canal.
  5. A questão da soberania do canal permanece controversa desde a devolução por Jimmy Carter em 1999, com sectores americanos a considerarem erro estratégico abdicar do controlo de infraestrutura vital para a segurança naval dos EUA.

Resumo do episódio

O episódio 292 de *E o Resto é História* tem como ponto de partida as declarações recentes de Donald Trump sobre o desejo de recuperar o controlo norte-americano sobre o Canal do Panamá. Aproveitando este pretexto geopolítico, Rui Ramos e João Miguel Tavares percorrem a história desta obra extraordinária de engenharia - 82 quilómetros que ligam o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico - desde as suas origens coloniais até à actualidade, passando pela criação do próprio país que lhe dá nome.

Os apresentadores começam por contextualizar o fenómeno dos canais artificiais na história ocidental, explicando que, antes do advento do caminho de ferro, estas vias aquáticas eram a solução privilegiada para o transporte de grandes cargas a longa distância. A Inglaterra do século XVIII é o exemplo mais emblemático, com uma densa rede de canais construída sobretudo para escoar carvão. Rui Ramos revela inclusivamente que também em Portugal, no final do século XVIII e início do XIX, se discutiram projectos de canais para ligar o interior do Alentejo ao Tejo e ao Sado - planos que nunca chegaram a concretizar-se. À escala global, o impulso para abrir passagens entre oceanos tinha raízes antigas: Vasco Núñez de Balboa, ao atravessar o Istmo do Panamá em 1513, já havia equacionado a possibilidade de um canal, e os espanhóis mantiveram esse projecto em mente durante séculos, sobretudo para facilitar o transporte da prata peruana. A corrida ao ouro californiana de 1849 e, decisivamente, a inauguração do Canal de Suez em 1869 reacenderam o interesse por uma ligação entre os dois oceanos americanos.

Foi precisamente a equipa francesa responsável pelo Canal de Suez, liderada por Ferdinand de Lesseps, que tentou replicar o feito no Panamá a partir de 1880. O fracasso foi retumbante. Os franceses insistiram num canal ao nível do mar, ignorando o relevo acidentado do Istmo, e subestimaram radicalmente as condições naturais da floresta panamenha: chuvas quase permanentes, terreno montanhoso e, acima de tudo, mosquitos transmissores de malária e febre amarela. A mortalidade chegou a atingir 200 mortos por dia, e estima-se que mais de 20 mil trabalhadores, na sua maioria recrutados nas ilhas das Caraíbas, tenham perecido. Em 1889, a companhia declarou falência, arrastando consigo um vasto escândalo de corrupção política em França - o chamado «escândalo do Panamá» -, que durante décadas tornou a palavra sinónimo de corrupção naquele país.

A oportunidade americana surgiu com Theodore Roosevelt, presidente entre 1901 e 1909, que entendia o canal como uma necessidade estratégica para que a marinha dos Estados Unidos pudesse operar simultaneamente em dois oceanos. Os americanos compraram os direitos de concessão à empresa francesa falida por 40 milhões de dólares e procederam com uma abordagem radicalmente diferente: em vez de um canal ao nível do mar, construíram um lago artificial a 26 metros de altitude, com um sistema de comportas para elevar e baixar os navios, e lançaram uma campanha sanitária sistemática de combate aos mosquitos. O resultado foi uma obra concluída em 1914, com uma mortalidade muito inferior à da tentativa francesa, ainda que os acidentes de trabalho continuassem a cobrar vítimas.

A dimensão política da construção foi igualmente decisiva. O território onde o canal foi erguido pertencia à Colômbia, mas o Istmo do Panamá tinha uma longa tradição separatista, com múltiplas revoltas ao longo do século XIX. Quando o Senado colombiano rejeitou o tratado de concessão negociado com os americanos, estes apoiaram a independência panamenha, reconhecida em 1903, e pagaram à Colômbia 25 milhões de dólares pela sua aquiescência. Nascia assim um novo Estado - de dimensão comparável à de Portugal, mas com apenas 260 mil habitantes na época - construído, em boa medida, em torno do canal. Os Estados Unidos exerceram durante décadas um controlo directo sobre a zona do canal, e só em 1977, sob a presidência de Jimmy Carter, prometeram a sua devolução ao Panamá, concretizada em 1999. Esta decisão permanece contestada por quem considera o canal essencial à segurança americana, discussão que as declarações de Trump vieram renovar. O epis

Personagens

  • Donald Trump
  • Theodore Roosevelt
  • Vasco Núñez de Balboa
  • Ferdinand de Lesseps
  • Jimmy Carter
  • Manuel Noriega
  • Gamal Abdel Nasser

Lugares/Países

  • Estados Unidos
  • Panamá
  • Colômbia
  • França
  • Inglaterra
  • Egito
  • Nicarágua
  • México
  • Peru
  • Espanha
  • Holanda
  • Veneza
  • Portugal
  • Índia
  • Califórnia
  • Cuba
  • Caraíbas
  • América do Sul
  • América do Norte
  • Europa
  • Ásia
  • África

Épocas

  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • década de 1880
  • década de 1890
  • 1904-1914
  • Estado Novo

Temas

  • engenharia
  • imperialismo
  • colonialismo
  • economia
  • transporte
  • comércio
  • guerra
  • diplomacia
  • corrupção
  • independência
  • doença
  • saúde pública
  • investimento financeiro

Eventos

  • Corrida ao ouro na Califórnia
  • Escândalo do Panamá
  • Watergate
  • Guerra Civil Colombiana (1899-1902)
  • Independência do Panamá (1903)
  • Ataque a Pearl Harbor
  • Segunda Guerra Mundial
  • Invasão do Panamá (1989)
  • Nacionalização do Canal do Suez (1956)

Guerras e conflitos

  • Guerra hispano-americana (1898)
  • Guerra Civil Colombiana (1899-1902)
  • Segunda Guerra Mundial
  • Invasão do Panamá (1989)
  • Crise do Suez (1956)