Nº 1018 de setembro de 201941:05análise histórica
O castelo de Guimarães e o primeiro banco nacional
Episódio gravado em Guimarães explora a mitologia da fundação de Portugal, centrando-se na Batalha de São Mamede (1128) e na construção da memória nacional no século XIX. Rui Ramos desmistifica a violência doméstica atribuída a D. Afonso Henriques, explicando-a como violência política típica da época. A conversa aborda ainda a reconstrução do património histórico no Estado Novo e a criação do primeiro banco português após a Revolução de 1820, revelando a dependência histórica da banca face ao Estado.
Ideias principais
- A Batalha de São Mamede só foi valorizada como momento fundacional no século XIX, quando Alexandre Herculano criticou a lenda providencialista da Batalha de Ourique, preferindo uma narrativa política e secular da fundação da nacionalidade.
- O confronto entre D. Afonso Henriques e D. Teresa não foi violência doméstica mas política típica medieval, onde facções nobres disputavam o poder através de membros das famílias reais, únicos detentores de legitimidade para governar.
- O Castelo de Guimarães e outros monumentos nacionais foram largamente reconstruídos no Estado Novo para corresponder à imagem idealizada de um passado medieval, criando 'locais de memória' onde os cidadãos pudessem sentir continuidade histórica com a nação.
- O Banco de Lisboa, criado em 1821 pelas Cortes Constituintes, foi uma parceria público-privada destinada a dar credibilidade à emissão monetária e combater a inflação causada pela impressão descontrolada de papel-moeda pelo Estado.
- A banca portuguesa esteve desde a origem profundamente dependente do Estado, com a maioria dos investimentos em dívida pública, levando a crises sistémicas como a de 1876 quando o Estado enfrentava dificuldades financeiras.
Resumo do episódio
Este episódio especial do programa «E o Resto é História» foi gravado ao vivo em Guimarães, no Centro Cultural Vila Flor, no âmbito de um encontro organizado pela Caixa Geral de Depósitos. A ocasião levou Rui Ramos e João Miguel Tavares a explorar dois temas aparentemente distintos mas unidos por um fio comum: a forma como a memória histórica é construída, reinventada e legitimada ao longo do tempo.
O episódio abre com a mitologia fundacional de Guimarães, conhecida como o berço da nação portuguesa. Os apresentadores questionam desde logo se a fundação de Portugal terá mesmo assentado num episódio de violência entre mãe e filho - a Batalha de São Mamede de 1128, em que D. Afonso Henriques se opôs à sua mãe, a rainha D. Teresa. Rui Ramos esclarece que esta batalha só se tornou o momento fundador por excelência a partir do século XIX, quando Alexandre Herculano, na sua «História de Portugal», criticou a lenda alternativa - a Batalha de Ourique, onde D. Afonso Henriques teria recebido uma visão de Cristo. Herculano recusou aceitar esta narrativa providencialista por falta de documentação, valorizando em contrapartida a dimensão política e humana do processo de independência. O confronto entre D. Afonso Henriques e D. Teresa é interpretado não como violência doméstica, mas como luta política: a única forma de fazer política na Idade Média era congregar forças em torno de alguém com sangue real e legitimidade dinástica, e foi exatamente isso que grupos de nobres do Entre-Douro-e-Minho fizeram ao apoiar o futuro rei.
A conversa avança depois para o estado actual do castelo de Guimarães, que os apresentadores usam como exemplo paradigmático da construção moderna da memória histórica. O castelo chegou ao século XVII em estado de ruína avançada, foi durante muito tempo uma pedreira de onde se retiravam materiais para outras construções, e só foi classificado como monumento nacional no início do século XX. A sua reconstituição tal como hoje existe - com as famosas ameias pontiagudas - data do Estado Novo, sendo reinaugurado em 1940 nas comemorações do oitavo centenário da fundação da nacionalidade. O mesmo processo ocorreu com o Castelo de São Jorge em Lisboa e com os Jerónimos. Rui Ramos contextualiza este fenómeno: quando os Estados europeus passaram a fundar a sua legitimidade na ideia de nação, precisaram de «lugares de memória» - espaços físicos onde os cidadãos pudessem sentir uma ligação tangível ao passado. Isso implicou restaurar e, inevitavelmente, reinventar monumentos que o tempo e o uso tinham degradado. Os apresentadores concluem que isso não deve causar angústia: o passado é sempre uma construção de cada geração, uma valorização do que faz sentido para o presente.
A segunda metade do episódio é dedicada ao nascimento da banca em Portugal, a propósito de uma pergunta enviada por um ouvinte. O primeiro banco português com esse nome foi o Banco de Lisboa, criado por lei em dezembro de 1821, logo a seguir à Revolução Liberal de 1820. A sua criação respondeu a uma necessidade urgente do Estado: exausto pelas Guerras Peninsulares e incapaz de controlar a inflação gerada pela emissão descontrolada de papel-moeda, o Estado precisava de uma instituição que conferisse credibilidade à emissão monetária. O Banco de Lisboa funcionou como uma parceria público-privada - criado por lei mas gerido por cerca de quinze negociantes privados, considerados mais confiáveis do que um ministro desesperado para pagar o exército. O banco acabaria por falir em 1846, fundindo-se com a Companhia de Confiança Nacional para dar origem ao Banco de Portugal.
Os apresentadores percorrem ainda a história bancária do século XIX, marcada pela proliferação de bancos no Norte do país associados às remessas dos emigrantes no Brasil, e pela crise de 1876, quando a quebra do câmbio brasileiro e a especulação com dívida espanhola conduziram à falência generalizada dessas instituições. Por fim, a conversa termina com uma reflexão sobre como as pessoas guardavam riqueza antes da banca moderna: em propriedade, em moeda metálica e, muito frequentemente, em joias - as lavradeiras minhotas carregadas de ouro aos domingos exibiam literalmente a sua conta bancária -, uma prática que se revelaria vital ainda no século XX, quando famílias arruinadas pela inflação pós
Personagens
- D. Afonso Henriques
- D. Teresa
- Afonso VI de Leão e Castela
- D. Urraca de Leão e Castela
- Afonso de Aragão
- Alexandre Herculano
- José Mattoso
- Afonso IV
- D. Pedro I
- D. Afonso V
- Oliveira Martins
- Camilo Castelo Branco
- Alexandre Dumas
- Raul Brandão
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- França
- Brasil
- Egito
- Alemanha
- Itália
Épocas
- século XII
- Idade Média
- século XIV
- século XV
- século XVII
- século XIX
- século XX
- Estado Novo
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- pós-guerra
Temas
- fundação da nacionalidade
- monarquia
- guerra
- política
- economia
- banca
- património
- memória histórica
- nacionalismo
- inflação
- imigração
- dívida pública
- reconquista cristã
Eventos
- Batalha de São Mamede
- Batalha de Ourique
- Revolução de 1820
- invasões francesas
- guerra peninsular
- incêndio da Catedral de Notre-Dame
- comemorações do oitavo centenário da Fundação da Nacionalidade
Guerras e conflitos
- Batalha de São Mamede
- Batalha de Ourique
- invasões francesas
- guerra peninsular
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
Livros citados
- História de Portugal (Alexandre Herculano)
- Os Lusíadas