Nº 13509 de fevereiro de 202242:36efeméride
O cerco de Leninegrado e o jubileu de Isabel II
O episódio aborda dois temas distintos: o cerco de Leningrado (1941-1944), um dos episódios mais brutais da Segunda Guerra Mundial que causou a morte de cerca de um milhão de civis por fome e bombardeamentos, e o jubileu de platina de Isabel II, celebrando 70 anos de reinado. Rui Ramos explica que o cerco não teve a mesma importância militar de Stalingrado, mas representou um drama humanitário sem paralelo, com degradação social extrema e casos de canibalismo. A segunda parte analisa como Isabel II manteve a monarquia relevante através de viagens, aproximação à sociedade e representação de valores de dever e continuidade numa era de mudança acelerada.
Ideias principais
- O cerco de Leningrado foi essencialmente um bloqueio causador de fome massiva (meio milhão de mortos no inverno 1941-42) e não uma batalha de conquista urbana como Stalingrado, porque Hitler queria evitar combates casa-a-casa onde perderia a vantagem das suas unidades blindadas.
- A brutalidade do cerco incluiu temperaturas de -30°C, colapso dos sistemas de água e electricidade, rações de 250g de pão por dia (700 calorias), mortes súbitas nas ruas por inanição, canibalismo documentado e degradação moral extrema da sociedade.
- Stalin recompensou os heróis do cerco com repressão: em 1949-50 prendeu cerca de 2000 pessoas ligadas à administração da cidade, executou 23 dirigentes principais e fechou o Museu do Cerco, suspeitando de ambições políticas locais.
- Isabel II manteve a monarquia britânica relevante durante 70 anos de mudanças radicais não apesar da tradição, mas precisamente por representar continuidade, dever e estabilidade moral numa sociedade cada vez mais focada no prazer individual e na descontinuidade.
- A visita de Isabel II a Portugal durante o Estado Novo foi aproveitada por Salazar para legitimação internacional do regime, ilustrando como a monarquia britânica também serviu propósitos diplomáticos e de soft power ao longo do seu reinado.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* aborda dois temas distintos: o cerco de Leningrado durante a Segunda Guerra Mundial e o jubileu de platina da rainha Isabel II. Rui Ramos e João Miguel Tavares começam pelo primeiro tema, contextualizando-o numa reflexão mais ampla sobre a história dos cercos militares, para depois passarem à figura da monarca britânica.
O historiador Rui Ramos explica que os cercos a cidades foram uma constante nas guerras medievais, mas que a evolução do armamento e da organização militar tornou essa táctica obsoleta na era moderna. Os exércitos contemporâneos dependem de linhas de abastecimento contínuas, e concentrar tropas atrás de muros passou a significar oferecer um alvo fixo ao inimigo. Por isso, a Segunda Guerra Mundial é pobre em cercos de cidades - sendo Leningrado uma das raras excepções. Os alemães, com a Operação Barbarossa, pretendiam essencialmente destruir formações militares soviéticas em campo aberto e assegurar o controlo das regiões produtoras de recursos energéticos e agrícolas. Hitler, consciente do fracasso de Napoleão em Moscovo, pretendia evitar a conquista de grandes cidades; o plano para Leningrado era bloquear, bombardear e deixar a fome fazer o seu trabalho.
Situada num istmo entre o lago Ladoga e o mar Báltico, Leningrado viu o seu acesso por terra cortado pelos alemães a sul e pelos finlandeses a norte em setembro de 1941. Entre as forças sitiantes contavam-se também cerca de 50 mil voluntários espanhóis da Divisão Azul, enviados por Franco. O lago Ladoga tornou-se a única via de abastecimento, usada de barco no verão e de camião sobre o gelo no inverno, impedindo o bloqueio total. Ainda assim, as consequências para os três milhões de habitantes foram devastadoras. As rações chegaram a 250 gramas de pão por dia para adultos trabalhadores e metade para as crianças, o equivalente a cerca de 700 calorias diárias. No inverno de 1941-1942, morreram mais de 100 mil pessoas por mês, quase exclusivamente de fome - meio milhão de civis só nesse período. Havia cadáveres por enterrar nos cemitérios, canibalismo documentado, roubos e assassínios por cartões de racionamento. O diário de Tânia Savícheva, uma menina de 11 anos que foi registando a morte de toda a família entre dezembro de 1941 e maio de 1942, é evocado como um dos documentos mais impressionantes da guerra. Para elevar o moral, a propaganda soviética organizou a transmissão da Sinfonia n.º 7 de Shostakovich, composta durante o cerco e estreada em Leningrado em agosto de 1942 pelos músicos sobreviventes da Orquestra da Rádio. O cerco só terminou a 27 de janeiro de 1944, após 900 dias. O epílogo histórico é amargo: em 1950, Stalin mandou fuzilar os principais dirigentes da cidade que lideraram a resistência, acusados de conspiração, e o Museu do Cerco foi encerrado e destruído.
A segunda parte do episódio debruça-se sobre os 70 anos do reinado de Isabel II, cujo aniversário de ascensão ao trono se assinalava nessa altura. Os apresentadores sublinham que a rainha não nasceu destinada ao trono - chegou lá por via da abdicação do tio Eduardo VIII em 1936 - e que o seu reinado atravessou transformações históricas sem precedentes. Comparam-no ao de Luís XIV e ao do imperador japonês Hirohito, mas salientam que nenhum desses monarcas enfrentou mudanças sociais tão aceleradas. A estratégia da monarquia britânica passou por duas linhas: aproximar a instituição da nova realidade através de viagens pelo mundo e pela Commonwealth, e apresentar a família real como uma família normal, com recurso a documentários e à exposição mediática. Esta segunda via revelou-se um fio de dois gumes, alimentando o fascínio popular mas também os escândalos em torno de figuras como a princesa Margarida e, mais tarde, Diana. Rui Ramos defende que a longevidade da monarquia britânica se explica sobretudo pelo papel de âncora estabilizadora que Isabel II soube encarnar - um símbolo de dever, continuidade e serviço público numa sociedade cada vez mais orientada para o prazer individual e a mudança.
Personagens
- Adolf Hitler
- Napoleão Bonaparte
- Joseph Stalin
- Dmitry Shostakovich
- Tânia Savicheva
- Sergei Yarov
- Alexei Kuznetsov
- Isabel II
- Eduardo VIII
- Jorge VI
- Winston Churchill
- Filipe de Laszlo
- D. Carlos I
- Harold Macmillan
- António de Oliveira Salazar
- Princesa Margarida
- Princesa Diana
- Luís XIV
- Hirohito
- Francisco Franco
Lugares/Países
- União Soviética
- Alemanha Nazi
- Rússia
- Finlândia
- Espanha
- Reino Unido
- Grã-Bretanha
- França
- Japão
- Portugal
- Canadá
- Austrália
- Nova Zelândia
- Inglaterra
- Escócia
- País de Gales
- Irlanda do Norte
Épocas
- Segunda Guerra Mundial
- 1941-1944
- século XIX
- século XX
- Idade Média
- Cruzadas
- século XI
- século XIII
- anos 1960
- anos 1980
- anos 1990
Temas
- guerra
- cerco militar
- fome
- canibalismo
- resistência
- propaganda
- repressão política
- monarquia
- tradição
- continuidade institucional
- família real
- celebridades
- Commonwealth
Eventos
- Cerco de Leningrado
- Operação Barbarossa
- Batalha de Stalingrado
- Batalha de Briansk
- Cerco de Sebastopol
- Campanha de Napoleão na Rússia 1812
- Abdicação de Eduardo VIII
- Coroação de Isabel II
- Bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki
- Jubileu de Platina de Isabel II
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Invasão alemã da União Soviética
- Guerra soviético-finlandesa
- Cruzadas
- Guerras Napoleónicas
Livros citados
- Leningrado 1941-1942, A Moral numa Cidade Sobre Cerco