Nº 30330 de abril de 202546:32efeméride
O dia em que Adolf Hitler se suicidou
Este episódio marca os 80 anos do suicídio de Adolf Hitler no Führerbunker em Berlim, a 30 de abril de 1945. Rui Ramos desmonta as teorias da conspiração sobre a sua morte, explicando como a União Soviética, apesar de ter todas as provas da morte de Hitler, criou deliberadamente dúvidas por razões de propaganda política durante a Guerra Fria. O episódio explora também as razões ideológicas e psicológicas que levaram Hitler a escolher o suicídio em vez da rendição, procurando encenar uma morte heróica que criasse um mito para futuros movimentos nazis.
Ideias principais
- A União Soviética possuía provas irrefutáveis da morte de Hitler (incluindo restos mortais e testemunhos de colaboradores capturados), mas criou deliberadamente teorias da conspiração para propaganda anti-ocidental durante a Guerra Fria.
- Hitler não estava louco ou desligado da realidade no bunker, mas representava conscientemente otimismo em público enquanto sabia em privado que a guerra estava perdida, mantendo assim o seu poder sobre os colaboradores até ao fim.
- A decisão de Hitler de permanecer em Berlim e suicidar-se foi uma encenação calculada inspirada nas óperas de Wagner, procurando criar um mito heroico que pudesse inspirar futuras tentativas de estabelecer um império nazi.
- O mito positivo que Hitler tentou criar não resultou devido ao horror do Holocausto, que mesmo muitos simpatizantes nazis não conseguiram aceitar ou defender, como demonstram as reacções às confissões de Adolf Eichmann na Argentina.
- Tanto as democracias liberais como as ditaduras comunistas usaram o nazismo como arma de propaganda durante a Guerra Fria, tornando Hitler numa figura do mal absoluto sem possibilidade de reabilitação histórica, ao contrário do que aconteceu com Napoleão no século XIX.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma data precisa - 30 de abril de 1945, data em que se assinalam oitenta anos da morte de Adolf Hitler - para responderem a duas perguntas: Hitler morreu mesmo nesse dia, sem qualquer dúvida? E poderia ter acabado de outra forma, rendendo-se aos aliados ou aos soviéticos?
Quanto à primeira pergunta, os apresentadores explicam que a resposta é inequívoca. Os serviços de espionagem britânicos encomendaram em 1945 uma investigação ao historiador Hugh Trevor-Roper, que entrevistou testemunhas presentes no bunker e consultou os seus diários, concluindo num relatório - publicado em livro em 1947 com o título *The Last Days of Hitler* - que Hitler se suicidou com um tiro na cabeça e Eva Braun com cianeto, sendo os corpos cremados no exterior. Os soviéticos, por seu lado, tinham igualmente todas as certezas: ocuparam Berlim, desenterraram os restos mortais, identificaram Hitler pela dentadura comparando-a com radiografias da sua clínica dentária, e interrogaram exaustivamente os colaboradores capturados. No entanto, em junho de 1945, o general Zhukov declarou publicamente não saber o que acontecera a Hitler, chegando a admitir que poderia estar vivo. A partir daí, autoridades soviéticas insinuaram que os aliados ocidentais estariam a proteger Hitler. Rui Ramos explica que esta desinformação foi deliberada: Stalin pretendia apresentar a União Soviética como a única força genuinamente antinazista, apagando o facto de ter iniciado a guerra como aliado de Hitler na invasão da Polónia em 1939, e visava desacreditar as democracias liberais perante os grandes partidos comunistas de França e Itália, que reclamavam ser os únicos garantes contra o regresso do fascismo. As teorias da conspiração sobre a fuga de Hitler não nasceram espontaneamente: foram instrumentalizadas pela propaganda soviética com um propósito político muito preciso.
Quanto à segunda pergunta - se Hitler poderia ter-se rendido -, os apresentadores descartam essa hipótese por razões práticas e ideológicas. Praticamente, Hitler sabia que seria julgado e condenado à morte, como viria a acontecer aos outros dirigentes nazis em Nuremberga. Ideologicamente, tinha exigido resistência até à morte a soldados e civis, e as SS ainda executavam alegados desertores nos últimos dias da guerra. Goebbels e a mulher chegaram ao extremo de matar os próprios seis filhos para não sobreviverem ao regime. Além disso, Hitler tinha ainda a opção de se retirar para o reduto alpino da Baviera e resistir mais alguns meses - os nazis controlavam ainda territórios vastos, da Noruega à Croácia, e dispunham de milhões de soldados. Mas Hitler escolheu Berlim deliberadamente, porque queria morrer numa grande batalha final, à maneira dos heróis wagnerianos, construindo um mito que pudesse inspirar uma futura tentativa de ressurgimento nazi. Albert Speer, que esteve no bunker em abril de 1945, testemunhou que Hitler não estava demente: distinguia claramente o que dizia em privado, reconhecendo a derrota, do que afirmava em reunião, mantendo uma fachada de otimismo para conservar a sua autoridade.
O episódio conclui com uma reflexão sobre por que razão esse mito não resultou. Hitler não previu que o Holocausto se tornaria o elemento definitivamente disqualificador do nazismo. Os apresentadores evocam o livro de Bettina Stangneth sobre Adolf Eichmann na Argentina, onde este, ao contrário do que esperavam os simpatizantes nazis que o procuraram, confirmou orgulhosamente o extermínio de seis milhões de judeus - chocando até esses simpatizantes. O extermínio industrial de uma população inteira revelou-se impossível de romantizar ou de integrar num mito heroico. Acresce que, durante a Guerra Fria, tanto o bloco ocidental como o soviético usaram o nazismo como arma retórica um contra o outro, tornando impossível qualquer reabilitação de Hitler à maneira como Napoleão foi reabilitado no século XIX. Hitler conseguiu sair de cena como quis, mas o mito positivo que ambicionava nunca se formou.
Personagens
- Adolf Hitler
- Eva Braun
- Benito Mussolini
- Hugh Trevor-Roper
- Josef Stalin
- Georgy Zhukov
- Franklin D. Roosevelt
- Winston Churchill
- Josef Goebbels
- Albert Speer
- Adolf Eichmann
- Hannah Arendt
- Francisco Franco
- Juan Perón
- Napoleão Bonaparte
- Napoleão III
- Richard Wagner
Lugares/Países
- Alemanha
- União Soviética
- Itália
- Reino Unido
- Estados Unidos
- França
- Polónia
- Berlim
- Argentina
- Espanha
- Suíça
- Noruega
- Dinamarca
- Checoslováquia
- Letónia
- Holanda
- Croácia
- Grécia
- Creta
- Baviera
- Ruhr
- Ucrânia
- Bielorússia
Épocas
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- anos 1930
- anos 1940
- anos 1950
- século XIX
Temas
- guerra
- suicídio
- propaganda
- teorias da conspiração
- nazismo
- fascismo
- comunismo
- Holocausto
- antissemitismo
- totalitarismo
- resistência
- ocupação militar
- crimes de guerra
- ideologia
Eventos
- Suicídio de Adolf Hitler
- Queda de Berlim
- Execução de Benito Mussolini
- Julgamentos de Nuremberg
- Pacto Nazi-Soviético
- Invasão da Polónia
- Ofensiva das Ardenas
- Holocausto
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
Livros recomendados
- The Last Days of Hitler - Hugh Trevor-Roper
- O Pacto Nazi-Soviético - Manuel Fonseca
Livros citados
- The Last Days of Hitler - Hugh Trevor-Roper
- Eichmann Before Jerusalem - Bettina Stangneth
- O Pacto Nazi-Soviético - Manuel Fonseca