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Nº 21416 de agosto de 202359:25efeméride

O dia em que Churchill alertou para o perigo nazi

O episódio analisa o discurso pioneiro de Churchill em agosto de 1933 alertando para o perigo nazi, quando quase ninguém levava Hitler a sério. Explora as razões da subestimação generalizada do nazismo - desde o trauma pacifista pós-Primeira Guerra até à proliferação de ditaduras na Europa - e porque Churchill estava isolado nesta posição. Na segunda parte, aborda o assassinato de Aldo Moro em 1978 pelas Brigadas Vermelhas, no contexto do eurocomunismo e do terrorismo de extrema-esquerda italiano.

Ideias principais

  1. Churchill alertou em 1933 para o rearmamento alemão quando estava politicamente isolado e afastado do governo, sendo visto pelos seus pares conservadores como oportunista e belicista.
  2. A subestimação generalizada de Hitler deveu-se ao trauma pacifista pós-Primeira Guerra Mundial, à proliferação de ditaduras na Europa que tornavam o nazismo apenas 'mais uma', e à esperança de que Hitler se moderaria no poder.
  3. O horror à guerra era tão profundo que estudantes de Oxford juraram não combater pelo rei, o Partido Trabalhista adoptou o desarmamento unilateral, e qualquer discurso sobre rearmamento era considerado politicamente suicida.
  4. Chamberlain seguiu discretamente uma política de rearmamento enquanto evitava confronto público, e foi ele quem em 1940 apoiou Churchill para primeiro-ministro, reconhecendo que tinha razão - um papel que a história raramente lhe reconhece.
  5. Aldo Moro foi assassinado pelas Brigadas Vermelhas não por ser democrata-cristão, mas por representar o 'compromisso histórico' com o Partido Comunista Italiano, uma aliança que a extrema-esquerda via como traição à revolução.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre duas questões históricas distintas, unidas pelo tema da incompreensão política perante ameaças iminentes.

A primeira parte centra-se num discurso proferido por Winston Churchill no Parlamento britânico em agosto de 1933, no qual alertou para o perigo do rearmamento alemão sob Adolf Hitler. Nessa altura, Churchill era uma figura politicamente marginalizada, afastada do governo e vista por muitos como uma carreira em declínio. A questão de partida é simples mas provocatória: porque foi Churchill praticamente o único a perceber a ameaça nazi tão cedo, e porque é que quase ninguém quis ouvi-lo?

Os apresentadores identificam várias razões para esta cegueira colectiva. Em primeiro lugar, a Europa de 1933 estava repleta de ditaduras, pelo que o regime de Hitler não parecia particularmente singular. Em segundo lugar, o principal terror das democracias ocidentais era o comunismo soviético, não o fascismo, que protegia a propriedade privada e respeitava instituições como a Igreja e a monarquia. A ditadura de Mussolini era o modelo de referência, e Hitler era visto como algo análogo, e portanto tolerável. Acreditava-se ainda que o antissemitismo era uma pose demagógica e que Hitler se moderaria no poder, impressão reforçada quando, em 1934, eliminou a ala radical das SA e pareceu aproximar-se dos militares conservadores. A Alemanha era também um país enfraquecido pelo Tratado de Versalhes, desarmado e economicamente debilitado pela Grande Depressão, pelo que a ideia de uma ameaça militar iminente parecia pouco realista. Por fim, e talvez mais decisivo, havia o profundo pacifismo das opiniões públicas britânica e francesa, marcadas pela memória traumática da Primeira Guerra Mundial. O Partido Trabalhista chegou mesmo a adoptar o desarmamento unilateral como política oficial, e os conservadores de Baldwin e Chamberlain convenceram-se de que seguir Churchill implicaria perder eleições. A liderança conservadora reconhecia a lucidez de Churchill mas considerava-a politicamente suicida, situação ilustrada pela derrota dos conservadores numa eleição parcial em Fulham perante um candidato pacifista. Rui Ramos defende ainda que Chamberlain não merece o papel de vilão que a história lhe atribuiu: rearmou a Inglaterra discretamente e, quando percebeu que a guerra era inevitável, apoiou Churchill, sendo em grande medida responsável pela sua chegada ao poder em 1940.

A segunda parte do episódio aborda o assassínio de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas em maio de 1978, a pedido de um ouvinte. Os apresentadores contextualizam a figura de Moro como uma das personalidades centrais da Democracia Cristã italiana, partido que dominou a política do país durante décadas em oposição ao poderoso Partido Comunista Italiano. Moro representava a ala esquerda da Democracia Cristã e foi o principal defensor do chamado "compromisso histórico", uma aproximação entre democratas-cristãos e comunistas para governar conjuntamente a Itália numa época de grave crise económica, inflação e agitação social. Esta posição era, paradoxalmente, contestada em todas as frentes: pela direita da Democracia Cristã, pelos Estados Unidos, pela própria União Soviética e, de forma mais violenta, pela extrema-esquerda que via nesse entendimento uma traição à revolução. As Brigadas Vermelhas, grupo terrorista fundado em 1970 em meios universitários, raptaram Moro em plena Roma, matando os seus cinco guarda-costas, e mantiveram-no cativo durante 55 dias antes de o executar. Rui Ramos rejeita as teorias da conspiração que atribuem o rapto a manipulações externas, argumentando que as Brigadas Vermelhas actuaram coerentemente com a sua ideologia: impedir um acordo que tornasse impossível a revolução em Itália. O corpo de Moro foi encontrado na bagageira de um automóvel estacionado a igual distância entre as sedes da Democracia Cristã e do Partido Comunista, numa encenação simbólica do que pretendiam destruir.

Personagens

  • Winston Churchill
  • Adolf Hitler
  • Benito Mussolini
  • Joseph Stalin
  • Ramsay MacDonald
  • Stanley Baldwin
  • Neville Chamberlain
  • Mahatma Gandhi
  • Randolph Churchill
  • Duke of Marlborough
  • Aldo Moro
  • Enrico Berlinguer
  • Salvador Allende
  • Papa Paulo VI
  • Bettino Craxi
  • Júlio Andreotti
  • Charlot (Charlie Chaplin)

Lugares/Países

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Épocas

  • Anos 30 (século XX)
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  • Anos 70 (século XX)
  • Guerra Fria

Temas

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  • Diplomacia
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  • Pacifismo
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  • Economia
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  • Estado Social
  • Extremismo político
  • Partidos políticos

Eventos

  • Tratado de Versalhes
  • Ascensão de Hitler ao poder (1933)
  • Noite das Facas Longas (1934)
  • Anexação da Áustria
  • Invasão da Polónia
  • Acordos de Munique
  • Queda da França
  • Blitz
  • Maio de 68
  • Crise do petróleo
  • Rapto de Aldo Moro (1978)
  • Processos de Moscovo

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Civil de Espanha
  • Guerra Fria

Livros citados

  • No Oeste Nada de Novo