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Nº 18525 de janeiro de 20231h01efeméride

O dia em que Hitler ascendeu (legalmente) ao poder

Episódio analisa a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha em Janeiro de 1933, desmentindo o mito de que foi puramente democrática. Rui Ramos explica como a nomeação de Hitler como chanceler resultou de intrigas políticas, subestimação generalizada e contingências históricas, num contexto de crise económica profunda e instabilidade da República de Weimar. O episódio mostra como Hitler não era inevitável e que ninguém, em 1933, imaginava o que viria a seguir.

Ideias principais

  1. A ascensão de Hitler não foi inevitável: dependeu de acasos, intrigas entre Papen e Schleicher, e da subestimação generalizada do líder nazi por parte de todas as forças políticas alemãs.
  2. A República de Weimar sofria de uma tripla fragilidade: nasceu de uma derrota militar, foi devastada primeiro pela hiperinflação (1923) que destruiu a classe média, depois pelo desemprego massivo (1929-1933) que atingiu a classe trabalhadora.
  3. Hitler nunca obteve maioria absoluta em eleições livres: o máximo foi 43% em Março de 1933, já no poder e com intimidação, mostrando que a ditadura não resultou de apoio popular esmagador mas de manobras políticas.
  4. Em 1933-1934, Hitler foi visto como um mal menor controlável: Papen julgava manipulá-lo, os comunistas pensavam que 'quanto pior melhor', e até após a 'noite das facas longas' (1934) parecia caminhar para um acordo com o establishment, como Mussolini na Itália.
  5. A incapacidade de imaginar o pior foi determinante: ninguém conseguiu antecipar que aquele demagogo antissemita se tornaria o genocida da Segunda Guerra Mundial, mostrando como a falta de imaginação histórica permite catástrofes.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre um dos momentos mais decisivos do século XX: a nomeação de Adolf Hitler como chanceler da Alemanha, a 30 de janeiro de 1933, pelo presidente Paul von Hindenburg, e o subsequente incêndio do Reichstag, a 27 de fevereiro do mesmo ano, que abriu caminho à concentração de poderes nas mãos do líder nazi. A pergunta de partida, sugerida por um ouvinte, é aparentemente simples mas historicamente complexa: foi mesmo legal e democrática a ascensão de Hitler ao poder? E como é que Hindenburg, que alegadamente o detestava, acabou por ser o seu principal patrocinador?

Para responder, Rui Ramos começa por contextualizar a situação da Alemanha da República de Weimar. Nascida da derrota na Primeira Guerra Mundial, a república carregava desde a origem o estigma da humilhação: perda de territórios, limitações militares severas e obrigação de pagar reparações de guerra. A isto somou-se a hiperinflação da década de 1920, que destruiu as poupanças da classe média, e depois a grande crise de 1929, que gerou um desemprego massivo afetando agora a classe trabalhadora. A vida política era igualmente violenta e instável, marcada por partidos com milícias paramilitares que se enfrentavam nas ruas, numa espécie de guerra civil latente. Este era o terreno, mas os apresentadores sublinham que seria errado concluir que Hitler estava destinado ao poder: o fruto, como Rui Ramos diz, estava mais alto e mais verde do que parece à distância.

O Partido Nacional Socialista tinha tido apenas 2,6% dos votos em 1928, disparando para 37,3% em julho de 1932 - mas já em novembro desse ano recuava para 33,1%, com sinais de que a sua base eleitoral era volátil e podia continuar a encolher. Hitler nunca obteve uma maioria absoluta no parlamento e, dentro do próprio partido, começava a ser contestado pela sua intransigência em não aceitar qualquer cargo que não fosse o de chanceler. O cenário mais provável, segundo os analistas da época, era uma ditadura presidencial apoiada no exército e na figura imponente de Hindenburg, e não uma ditadura nazi.

O que precipitou a nomeação de Hitler foi um jogo de intrigas palacianas no círculo íntimo de Hindenburg. Dois homens disputavam a influência sobre o presidente: o general Kurt von Schleicher, defensor de uma ditadura presidencial apoiada no exército, e o aristocrata Franz von Papen, que preferia restaurar um governo parlamentar com apoio nazi. Von Papen abordou Hitler com a oferta de vários ministérios, mas Hitler só aceitaria ser ele próprio o chefe do governo. Von Papen cedeu - mais motivado pelo desejo de bloquear Schleicher do que por convicção -, ficando como vice-chanceler e convencendo Hindenburg de que Hitler seria facilmente controlável. O exército, por seu turno, informou Hindenburg de que não teria capacidade para combater simultaneamente uma insurreição nazi e uma insurreição comunista, pelo que era necessário escolher um lado.

Toda a gente subestimou Hitler. Von Papen pensava que o manipularia; os sociais-democratas e os comunistas esperavam que ele se revelasse um fantoche do sistema e perdesse apoio; muitos judeus acreditavam que o antissemitismo era retórica de oposição que se dissiparia com a responsabilidade do governo. O incêndio do Reichstag, atribuído pelo governo nazi a um militante comunista holandês, foi explorado para decretar restrições às liberdades públicas, prender deputados adversários e, a 23 de março de 1933, obter do próprio parlamento - através de intimidação e prisões - uma lei de plenos poderes por quatro anos. A ditadura foi, em boa medida, aprovada pelos próprios mecanismos da democracia que destruiu.

Personagens

  • Adolf Hitler
  • Paul von Hindenburg
  • Franz von Papen
  • Kurt von Schleicher
  • Benito Mussolini
  • Vladimir Lenin
  • Werner von Blomberg

Lugares/Países

  • Alemanha
  • Polónia
  • Dinamarca
  • Bélgica
  • França
  • Rússia
  • Itália
  • Estados Unidos
  • Europa

Épocas

  • Primeira Guerra Mundial
  • República de Weimar
  • década de 1920
  • década de 1930
  • entre-guerras

Temas

  • ditadura
  • democracia
  • fascismo
  • nazismo
  • comunismo
  • extremismo político
  • crise económica
  • violência política
  • antissemitismo
  • militarismo
  • inflação
  • desemprego

Eventos

  • ascensão de Hitler ao poder
  • incêndio do Reichstag
  • noite das facas longas
  • crise de Wall Street
  • proclamação da República de Weimar
  • Tratado de Versalhes

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial