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Nº 32209 de setembro de 202559:39análise histórica

O dia em que o companheiro Vasco perdeu a força

O episódio analisa a ascensão e queda de Vasco Gonçalves, primeiro-ministro de quatro governos provisórios entre 1974 e 1975, figura central do chamado "Gonçalvismo" e o líder mais próximo do PCP que Portugal teve após o 25 de Abril. Rui Ramos traça o perfil deste coronel aparentemente moderado que se revelou um revolucionário radical, defensor de um estatismo de tipo soviético, e explica como o próprio PCP acabou por abandoná-lo quando a sua rigidez ideológica e falta de habilidade política o tornaram num obstáculo à manutenção da influência comunista no processo revolucionário.

Ideias principais

  1. Vasco Gonçalves era visto inicialmente como o moderado da esquerda militar por ser mais velho e sem historial político conhecido, mas revelou-se o mais radical e ideologicamente alinhado com o PCP.
  2. O primeiro-ministro dos governos provisórios não tinha o poder de um primeiro-ministro actual, funcionando mais como coordenador de um parlamento de militares e partidos, sem controlo sobre as Forças Armadas ou decisões-chave como as nacionalizações.
  3. O PCP investiu em Vasco Gonçalves como figura pública da revolução, construindo a imagem de um homem puro e idealista sem habilidade política, mas essa mesma falta de "ronha" (flexibilidade) levou ao seu isolamento e queda.
  4. As eleições de 25 de Abril de 1975 mostraram que o projecto revolucionário era minoritário (12% para o PCP), mas Vasco Gonçalves desvalorizou o resultado democrático numa visão leninista de que "a vanguarda tem de ir à frente" do povo.
  5. Álvaro Cunhal abandonou Vasco Gonçalves em Agosto de 1975 por este ser demasiado sectário e incapaz de manter alianças necessárias, provando que a solução gonçalvista só podia ser imposta pela força, incompatível com o pluralismo democrático.

Resumo do episódio

Este episódio de "E o Resto é História" é dedicado a Vasco Gonçalves, o coronel que foi primeiro-ministro dos segundo, terceiro, quarto e quinto governos provisórios portugueses, entre julho de 1974 e setembro de 1975, e ao fenómeno político que ficou conhecido como Gonçalvismo. A pergunta de partida é aparentemente paradoxal: se o 25 de Novembro de 1975 é o momento que marca o fim do processo revolucionário mais radical, porque razão Vasco Gonçalves já tinha sido afastado do cargo dois meses antes?

Rui Ramos começa por traçar o perfil do homem antes de este se tornar figura pública. Nascido em 1921, Vasco Gonçalves era um oficial de engenharia, professor na Academia Militar, com uma carreira inteiramente sem sobressaltos e sem qualquer registo de ativismo político visível antes do 25 de Abril. Tinha participado numa única reunião do Movimento das Forças Armadas em dezembro de 1973, recusando mesmo presidir a essa reunião, e o seu papel na conspiração resumiu-se ao de intermediário entre os capitães e o general Costa Gomes. Quando foi nomeado primeiro-ministro em julho de 1974, substituindo o civil Adelino da Palma Carlos, era considerado o elemento mais moderado da esquerda militar, em grande parte por ser significativamente mais velho do que os jovens capitães e majores que tinham feito a revolução. O general Spínola ficou até satisfeito com a escolha, por o julgar mais sensato do que Melo Antunes. Apenas uma jornalista, Maria João Avilés, na primeira entrevista que lhe fez, ficou com a impressão de um homem ideologicamente rígido e determinado.

Os apresentadores sublinham que o cargo de primeiro-ministro nos governos provisórios não se assemelhava ao que existe hoje. O governo era uma espécie de parlamento de partidos e facções militares sem unidade de pensamento, e o primeiro-ministro funcionava mais como coordenador do que como dirigente. O verdadeiro centro do poder residia noutros órgãos: primeiro na Junta de Salvação Nacional presidida por Spínola, depois no Conselho da Revolução sob Costa Gomes, e nas Forças Armadas operacionais comandadas por Otelo Saraiva de Carvalho através do COPCON. As próprias nacionalizações da banca, em março de 1975, foram decisão do Conselho da Revolução, sem passarem pelo governo.

Após a saída de Spínola em setembro de 1974, a esquerda militar fragmenta-se e Vasco Gonçalves emerge como rosto do grupo alinhado com o Partido Comunista Português. Rui Ramos discute se ele foi ou não militante do PCP, concluindo que provavelmente era um "companheiro de estrada", alguém com uma cultura marxista profunda e em plena sintonia ideológica com o partido, sem que se possa confirmar uma militância orgânica formal. O seu projeto político, como revelam frases dos seus discursos, era um estatismo disciplinado e militarizado, incompatível com o pluralismo e com a integração europeia a que o país estava destinado.

As eleições de abril de 1975, em que o PCP obteve apenas 12% dos votos, expuseram o carácter minoritário desse projeto. A partir daí, Vasco Gonçalves tornou-se alvo dos adversários, que cunharam o termo "Gonçalvismo" de forma pejorativa, usando os seus discursos improvisados e gestuais para o retratar como símbolo do caos revolucionário. Ao mesmo tempo, Álvaro Cunhal percebeu que Gonçalves se havia tornado um fardo: incompatibilizara-se com Melo Antunes, com Otelo e com o Partido Socialista, isolando o próprio PCP. Numa reunião do Comité Central em agosto de 1975, Cunhal criticou implicitamente os gonçalvistas por excesso de sectarismo e falta de habilidade política. O quinto governo provisório, formado apenas com apoiantes de Gonçalves, era já um governo condenado à nascença, como o próprio Costa Gomes deixou entender na tomada de posse. Afastado do governo em setembro e depois do Conselho da Revolução, Vasco Gonçalves desapareceu da vida pública, sobrevivendo ainda trinta anos até à sua morte em 2005, mas sem regressar à política. Rui Ramos conclui que, por mais que Gonçalves se apresentasse como um sonhador idealista,

Personagens

  • Vasco Gonçalves
  • Álvaro Cunhal
  • Mário Soares
  • António de Spínola
  • Costa Gomes
  • Otelo Saraiva de Carvalho
  • Melo Antunes
  • Vitor Alves
  • Adelino da Palma Carlos
  • Rosa Coutinho
  • Eurico Corvacho
  • Maria João Avilés
  • Alves Redol
  • Humberto Delgado
  • Varela Gomes
  • José Saramago
  • Maria Manuel Cruzeiro

Lugares/Países

  • Portugal
  • União Soviética
  • Guiné
  • Moçambique
  • Angola
  • Índia
  • Europa Ocidental
  • Europa Oriental
  • Alemanha

Épocas

  • Revolução de Abril de 1974
  • PREC (Processo Revolucionário em Curso)
  • Verão Quente de 1975
  • Estado Novo
  • Segunda Guerra Mundial
  • anos 1940
  • anos 1950
  • anos 1960
  • anos 1970

Temas

  • revolução
  • comunismo
  • ditadura militar
  • descolonização
  • nacionalizações
  • democracia
  • eleições
  • socialismo
  • esquerda militar
  • poder militar
  • guerra fria
  • movimentos políticos

Eventos

  • 25 de Abril de 1974
  • 28 de Setembro de 1974
  • 11 de Março de 1975
  • Eleições de 25 de Abril de 1975
  • 19 de Julho de 1975 (Comício da Fonte Luminosa)
  • 25 de Novembro de 1975
  • Golpe da Sé (1959)
  • Golpe de Beja (1962)
  • Campanha de Humberto Delgado (1958)
  • Corrida de touros do Campo Pequeno (26 de setembro de 1974)
  • Ocupação do Jornal República
  • Documento dos Nove (agosto de 1975)
  • Assembleia do MFA de Tancos (setembro de 1975)
  • Comício de Almada (18 de agosto de 1975)

Guerras e conflitos

  • Guerra Colonial Portuguesa
  • Segunda Guerra Mundial

Livros citados

  • Companheiro Vasco (1977)