Nº 26217 de julho de 202437:56efeméride
O dia em que tentaram assassinar Adolf Hitler
O episódio analisa o atentado falhado contra Adolf Hitler a 20 de julho de 1944, perpetrado pelo coronel Klaus von Stauffenberg na Toca do Lobo. Rui Ramos explica porque falhou tanto o atentado (uma mesa de carvalho protegeu Hitler) como o golpe de Estado planeado pela elite militar aristocrática alemã, que hesitou quando percebeu que Hitler tinha sobrevivido. A discussão compara a situação alemã com a queda de Mussolini em Itália (1943) e reflecte sobre as consequências da sobrevivência de Hitler: mais nove meses de guerra, milhões de mortos e a continuação do Holocausto.
Ideias principais
- O atentado de 20 de julho de 1944 não era apenas uma tentativa de assassinato, mas parte de um golpe de Estado planeado pela aristocracia militar prussiana para derrubar o regime nazi e negociar a paz com os Aliados.
- A estrutura do regime nazi diferia radicalmente do fascismo italiano: Hitler não tinha ninguém acima dele (ao contrário de Mussolini com o rei), nenhum órgão colectivo que o pudesse questionar, e os nazis estavam todos comprometidos com o genocídio, tornando impossível qualquer dissidência interna.
- A elite militar alemã tinha conspirado contra Hitler várias vezes desde 1938, mas cada vitória inicial (Checoslováquia, França, Rússia) reforçava a autoridade do Führer e desarmava os conspiradores, que só recuperavam coragem quando as coisas corriam mal.
- O fracasso do golpe deveu-se não só à sobrevivência de Hitler (protegido por uma mesa de carvalho), mas sobretudo à recusa dos generais em avançar sem confirmação da sua morte, revelando que faltava determinação à conspiração mesmo entre os seus participantes.
- Apesar do fracasso, o sacrifício de Stauffenberg tornou-se fundamental para a construção da República Federal Alemã após 1949, provando que nem todos os alemães tinham sido nazis e que as grandes famílias históricas da Alemanha se tinham oposto a Hitler, permitindo uma ligação entre a nova democracia e a história alemã pré-nazi.
Resumo do episódio
O episódio debruça-se sobre a tentativa de assassinato de Adolf Hitler, a 20 de julho de 1944, e sobre o golpe de Estado que lhe estava associado. A pergunta de partida é aparentemente simples: o que correu mal? Mas Rui Ramos e João Miguel Tavares utilizam-na para desenvolver uma análise mais ampla sobre a natureza do regime nazi, as limitações dos seus opositores internos e as consequências históricas do fracasso da conspiração.
Para contextualizar o ambiente político e militar em que o atentado ocorreu, os apresentadores estabelecem um paralelo com a Itália de 1943. Nesse ano, perante uma situação militar igualmente desesperada, a elite fascista italiana conseguiu destituir Mussolini através do Grande Conselho do Fascismo, com o rei a confirmar a demissão. Este desfecho foi possível porque o regime fascista italiano preservava instituições que permitiam colocar em causa a autoridade do Duce - a monarquia, um órgão colegial de dirigentes e um Mussolini que, ao contrário de Hitler, admitia as suas dúvidas junto dos próximos. Na Alemanha nada disso existia. Hitler concentrava em si todos os poderes desde 1934, não tolerava dissidência interna e os dirigentes nazis estavam profundamente comprometidos com o extermínio dos judeus, o que os tornava incapazes de qualquer dissociação do regime: ou sobreviviam com Hitler, ou não sobreviviam.
A oposição a Hitler provinha não dos nazis, mas de uma elite militar aristocrática com raízes no antigo reino da Prússia. Estes oficiais tinham inicialmente acolhido o nazismo como instrumento de restauração da grandeza alemã após a humilhação de Versalhes, mas foram acumulando reservas à medida que Hitler assumia riscos militares que consideravam desproporcionados. Paradoxalmente, cada nova vitória de Hitler - na Checoslováquia, na Polónia, em França, na Rússia - desmobilizava temporariamente os conspiradores. Só a partir de 1943, com a maré da guerra a virar-se, as tentativas de atentado se multiplicaram, sem nunca chegarem a concretizar-se por falta de acesso físico ao Führer.
O coronel Klaus von Stauffenberg, com 36 anos, aristócrata, católico praticante e profundamente horrorizado com o extermínio dos judeus de que testemunhara os sinais na frente de leste, tornou-se simultaneamente o cérebro do golpe e o seu executante. Como chefe do estado-maior do exército de reserva, tinha acesso regular às reuniões com Hitler, o que nenhum outro conspirador conseguia. O plano era matar Hitler, declarar falsamente que tinham sido os próprios dirigentes nazis os responsáveis, e usar o exército de reserva - mobilizando a chamada Operação Valkyria, formalmente concebida para suprimir uma eventual revolta dos milhões de trabalhadores forçados estrangeiros na Alemanha - para tomar o controlo do país e negociar com os Aliados uma saída da guerra.
No entanto, uma combinação de factores impediu o êxito do atentado: a pasta com a bomba foi inadvertidamente deslocada para o outro lado da perna de uma sólida mesa de carvalho; Stauffenberg, mutilado em combate, só conseguiu armar uma das duas bombas de que dispunha; e a reunião decorreu num barracão de madeira em vez de num bunker de cimento, o que dispersou a onda de choque. Hitler sobreviveu. Quando Stauffenberg chegou a Berlim convicto de que o Führer estava morto e tentou desencadear o golpe, os generais que deviam aderir, a começar pelo próprio Fromm, recusaram agir sem confirmação da morte. Com Hitler a aparecer na rádio ainda nessa noite, o golpe desmoronou. Fromm mandou fuzilar Stauffenberg e os seus colaboradores próximos na madrugada seguinte, numa tentativa de encobrir o seu próprio envolvimento. A repressão que se seguiu vitimou aproximadamente cinco mil pessoas.
Personagens
- Adolf Hitler
- Klaus von Stauffenberg
- Benito Mussolini
- Heinrich Himmler
- Hermann Göring
- Friedrich Fromm
- Erwin Rommel
- Paul von Hindenburg
- Frederico II da Prússia
- Joseph Stalin
Lugares/Países
- Alemanha
- Itália
- Prússia
- França
- Polónia
- Checoslováquia
- Rússia
- União Soviética
- Ucrânia
- Bielorrússia
- Hungria
- Sicília
- Norte da África
- Normandia
- Berlim
- Munique
Épocas
- Segunda Guerra Mundial
- século XVIII
- anos 30
- 1943-1945
Temas
- guerra
- golpe de Estado
- resistência
- nazismo
- fascismo
- genocídio
- Holocausto
- militarismo
- aristocracia
- atentado
- execução
- conspiração
Eventos
- Atentado de 20 de julho de 1944
- Operação Valquíria
- Desembarque na Normandia
- Tratado de Versalhes
- Queda de Mussolini
- Invasão da Polónia
- Invasão da França
- Invasão da Rússia
- Ocupação da Checoslováquia
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Primeira Guerra Mundial