Nº 10116 de junho de 202141:31resposta a ouvintes
O Estado Novo acabou com o analfabetismo?
O episódio debate a polémica levantada por Nuno Palma sobre o desempenho económico e social do Estado Novo, defendendo que houve convergência com a Europa, redução do analfabetismo infantil e da mortalidade. Rui Ramos argumenta que estes dados são consensuais entre historiadores mas não legitimam a ditadura. Na segunda parte, responde-se a uma pergunta sobre porque razão as ruínas antigas ficam soterradas.
Ideias principais
- O Estado Novo conseguiu convergir com a Europa entre 1960 e 1973 a um ritmo nunca antes nem depois alcançado, segundo dados validados pela OCDE e aceites pelos historiadores.
- O analfabetismo infantil foi extinto durante o Estado Novo, com a taxa geral de analfabetismo a cair de 60% em 1930 para 25% em 1970, embora permanecesse elevada comparativamente à Europa.
- A ditadura necessitava de resultados económicos e sociais para se legitimar perante a população, uma vez que não podia justificar-se pelas liberdades que suprimia, semelhante ao que acontece hoje na China.
- O desenvolvimento económico não desculpa nem justifica a censura, as prisões políticas e a privação de liberdades que caracterizaram o regime salazarista, sendo essencial não falsificar a história para defender a democracia.
- As ruínas antigas ficam soterradas devido ao colapso dos edifícios abandonados, acumulação de sedimentos naturais, vegetação e construções posteriores por cima, processo acelerado pela queda das ordens políticas que mantinham essas civilizações.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre duas questões distintas: a primeira, de natureza polémica e historiográfica, trata do legado socioeconómico do Estado Novo; a segunda, mais curiosa e especulativa, aborda a razão pela qual os vestígios de civilizações antigas ficam soterrados debaixo do solo.
A primeira parte do episódio parte de uma comunicação do historiador económico Nuno Palma, proferida num colóquio do Movimento Europa e Liberdade, que gerou controvérsia pública e acusações de branqueamento do fascismo por parte de deputados do Partido Socialista. Nuno Palma afirmara essencialmente três coisas sobre o Estado Novo, para além de o classificar como regime indefensável: que Portugal convergiu com a Europa em termos de produto interno bruto per capita, que o regime combateu o analfabetismo com eficácia, e que reduziu acentuadamente a mortalidade infantil. Rui Ramos confirma peremptoriamente que estas afirmações são verdadeiras e que correspondem ao que os historiadores têm dito há muito tempo, apoiados em estatísticas validadas pela OCDE e compiladas, por exemplo, na obra de referência de António Barreto, publicada em 1995. A taxa de analfabetismo geral baixou de 60% em 1930 para 25% em 1970, e o analfabetismo infantil foi praticamente eliminado graças à escolarização das crianças, algo que nenhum regime anterior tinha conseguido. A mortalidade infantil caiu de 143 por mil nascimentos em 1930 para 55 em 1970, e a esperança de vida subiu de 45 para 65 anos no mesmo período.
Os apresentadores explicam que esta ideia - a de que o Estado Novo terá querido manter o país pobre e subdesenvolvido - é um mito que resulta, em parte, da propaganda da oposição ao regime, absorvida acriticamente após o 25 de Abril. A ditadura, argumentam, precisava precisamente de resultados económicos e sociais para se legitimar perante a população, já que não podia apelar à liberdade. Nos anos 60 e inícios dos anos 70, Portugal convergiu com a Europa a um ritmo sem precedentes, beneficiando de uma conjuntura internacional favorável, mas também de escolhas políticas deliberadas: a integração na EFTA em 1960 e o acordo com a Comunidade Económica Europeia em 1972 são exemplos de uma abertura ao exterior que contradiz o mito do isolacionismo salazarista. Ao contrário das ditaduras comunistas, o crescimento português assentou numa economia de mercado aberta, em que foram os cidadãos - poupando, investindo e aumentando a produtividade - a motor do desenvolvimento. O regime evitou igualmente ruturas financeiras, consciente de que uma crise económica poderia significar o seu colapso. Tudo isto, sublinham os apresentadores com clareza, não justifica nem desculpa a censura, as prisões políticas e a supressão de direitos e liberdades. Não é necessário falsificar a história para defender a democracia.
A segunda parte do episódio responde a uma pergunta de um ouvinte sobre a razão pela qual os vestígios arqueológicos de antigas civilizações aparecem soterrados. Rui Ramos explica o processo com detalhe: quando uma construção é abandonada, o telhado colapsa, as paredes tombam, forma-se entulho, crescem plantas e árvores que ao morrer criam solo orgânico, acumulam-se sedimentos trazidos por rios ou ventos, e assim as estruturas vão sendo progressivamente enterradas. Mas a pergunta mais profunda é por que razão essas cidades foram abandonadas. A resposta remete para a fragilidade da ordem política: quando o poder que sustenta uma civilização desaparece - seja por invasão, migração de povos ou colapso do Estado -, desaparecem também as instituições, as redes de abastecimento, a segurança e a manutenção das infraestruturas. O exemplo de Conímbriga, abandonada por volta de 465 d.C. provavelmente após um ataque dos suevos, ilustra como uma cidade com dez mil habitantes, aquedutos e termas pode ser reduzida a ruínas soterradas. O episódio conclui com a reflexão de que a permanência dos monumentos e das cidades depende menos da solidez dos materiais do que da continuidade da ordem humana que os sustenta.
Personagens
- Nuno Palma
- Salazar
- António Barreto
- Silva Lopes
- Medina Carreira
- Marcelo Caetano
- Deng Xiaoping
- Alan Weisman
Lugares/Países
- Portugal
- Europa
- Espanha
- Itália
- China
- Inglaterra
- Egito
- Roma
- Grécia
- Coreia do Norte
- Coreia do Sul
- Rússia
- América
Épocas
- Estado Novo
- Primeira República
- Anos 50 e 60
- Anos 70
- Século XIX
- Século XX
- Século XXI
- Antiguidade
- Idade Média
- Século XVI
Temas
- economia
- ditadura
- democracia
- desenvolvimento
- educação
- analfabetismo
- saúde pública
- integração europeia
- arqueologia
- civilização
- ruínas
- comércio
- liberdades
- censura
- repressão política
Eventos
- 25 de Abril de 1974
- Revolução de 1974
- Crise do petróleo de 1973
- Erupção de Pompeia
- Acidente de Chernobyl
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Colonial
Livros citados
- A Situação Social em Portugal
- The World Without Us