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Nº 20621 de junho de 202345:34efeméride

O génio de Orwell e as Províncias Ultramarinas

O episódio divide-se em duas partes: primeiro analisa os 120 anos do nascimento de George Orwell, explorando a sua lucidez como espírito livre capaz de denunciar o totalitarismo a partir da esquerda, recusando submeter a verdade à propaganda política; depois examina a criação das Províncias Ultramarinas em 1953, contextualizando a mudança de nomenclatura colonial portuguesa como resposta às pressões internacionais da ONU, embora a integração económica e política nunca tenha sido completa.

Ideias principais

  1. George Orwell foi um espírito verdadeiramente livre porque recusou submeter a verdade às causas políticas, denunciando o totalitarismo comunista a partir de uma posição de esquerda quando isso era impopular no meio intelectual dos anos 1930-40.
  2. A experiência de Orwell na Guerra Civil Espanhola revelou-lhe que os comunistas estavam mais interessados em eliminar outras forças de esquerda do que em combater Franco, percebendo que o comunismo era um instrumento da política externa soviética.
  3. A mudança de 'Império Colonial' para 'Províncias Ultramarinas' em 1953 foi uma estratégia para responder às Nações Unidas, argumentando que Portugal não tinha colónias mas sim províncias territorialmente descontínuas.
  4. A presença portuguesa efectiva no interior de Angola e Moçambique tinha apenas 50 anos em meados do século XX, não os míticos 500 anos, o que explica tanto a fragilidade da integração como a rapidez da desagregação após 1974.
  5. Apesar da retórica de integração, nunca houve verdadeira unidade económica entre metrópole e ultramar - moedas diferentes, alfândegas internas, ausência de órgãos representativos locais - e na década de 1960 a economia portuguesa integrava-se cada vez mais na Europa, não em África.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* divide-se em dois temas distintos: o legado intelectual de George Orwell e a criação das Províncias Ultramarinas portuguesas em 1953. Os dois apresentadores, Rui Ramos e João Miguel Tavares, exploram cada um destes assuntos com o habitual cruzamento entre biografia, contexto histórico e reflexão sobre ideias.

A primeira parte é dedicada a George Orwell, cujo nome verdadeiro era Eric Arthur Blair, nascido em 1903 na Índia Britânica. João Miguel Tavares coloca a questão central: o que fez de Orwell um dos grandes visionários do século XX? A resposta que os dois apresentadores desenvolvem é que Orwell era, acima de tudo, um espírito genuinamente livre numa época em que a maior parte dos intelectuais procurava submeter-se a alguma causa ou ideologia. A sua formação foi marcada por uma série de rupturas: educado em Eton, detestou o sistema de classes britânico; funcionário da polícia colonial na Birmânia entre 1922 e 1927, ficou horrorizado com os paradoxos do imperialismo, experiência que cristalizou no ensaio *Shooting an Elephant* de 1936, descrito como o melhor texto alguma vez escrito sobre os impasses do poder colonial. Rui Ramos sublinha que esse ensaio retrata a ausência de liberdade de ambos os lados - tanto do colonizador como do colonizado.

Nos anos 1930, Orwell foi para a Espanha combater ao lado da República contra Franco e escreveu *Homenagem à Catalunha*, obra em que descreveu sem condescendência algo que a maioria dos simpatizantes de esquerda preferia silenciar: a guerra dentro da guerra, ou seja, o esforço dos comunistas para eliminar as outras forças de esquerda antes mesmo de derrotar o inimigo. Esta capacidade de enfrentar factos inconvenientes - aquilo que ele próprio definia como *a power of facing unpleasant facts* - é identificada pelos apresentadores como o traço mais distintivo de Orwell. Ao contrário dos seus contemporâneos no meio literário, que aceitavam mentir em nome da causa, Orwell recusou sempre subordinar a verdade a qualquer agenda, incluindo a da esquerda à qual se sentia próximo. Rui Ramos salienta que Orwell foi um dos primeiros a denunciar o comunismo não a partir de uma posição reaccionária, mas a partir da realidade observada, concluindo que o movimento comunista era sobretudo um instrumento da política externa soviética para manipular a intelectualidade ocidental. *A Quinta dos Animais* e *1984*, as suas obras mais influentes, são apresentadas como as reflexões literárias mais profundas sobre o totalitarismo do século XX, incluindo a análise da inversão da linguagem como mecanismo de domínio. Os apresentadores destacam ainda que Orwell valorizava profundamente a tradição liberal inglesa e a cultura popular do seu país, vendo na Inglaterra de 1940 o único lugar da Europa onde ainda se acreditava na autonomia individual e no império da lei.

A segunda parte do episódio centra-se na Lei Orgânica do Ultramar Português, publicada a 27 de Junho de 1953, que substituiu a designação de Império Colonial pela de Províncias Ultramarinas. Rui Ramos explica que a mudança de nomenclatura não foi inocente: o vocabulário imperial estivera na moda nos anos 1930, quando impérios proliferavam por toda a Europa, mas após a Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos e a União Soviética imprimiram um tom anticolonial à nova ordem internacional, incluindo à recém-criada ONU. Portugal queria aderir às Nações Unidas e sabia que seria pressionado a prestar contas sobre os seus territórios coloniais. Ao classificá-los como províncias, o governo salazarista argumentava que não tinha colónias, apenas extensões do território nacional. Este argumento era reforçado pela teoria do lusotropicalismo de Gilberto Freyre, segundo a qual os portugueses estariam particularmente vocacionados para construir sociedades multirraciais nos trópicos, ao contrário de outros europeus.

Rui Ramos desmonta, no entanto, a ideia de que Portugal e os seus territórios ultramarinos formavam um todo integrado: havia moedas diferentes, alfândegas internas, ausência de órgãos representativos locais e um Estatuto do Indígena que colocava as populações nativas numa situação legal de inferioridade, submetendo-as a trabalhos forçados e culturas obrigatórias. A mudança real viria em 1961

Personagens

  • George Orwell
  • Eric Arthur Blair
  • Joseph Stalin
  • Adolf Hitler
  • Francisco Franco
  • Friedrich Hayek
  • Jonathan Swift
  • Gustave Flaubert
  • Gilberto Freyre
  • Salazar
  • Adriano Moreira
  • Marcelo Caetano

Lugares/Países

  • Inglaterra
  • Índia Britânica
  • Birmânia
  • Espanha
  • Catalunha
  • União Soviética
  • Rússia
  • Alemanha
  • Portugal
  • Angola
  • Moçambique
  • Brasil
  • França
  • Ucrânia
  • Estados Unidos
  • Europa
  • África

Épocas

  • século XX
  • século XIX
  • século XVIII
  • anos 1920
  • anos 1930
  • década de 1940
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • Estado Novo
  • Primeira República
  • década de 1950
  • década de 1960
  • década de 1970

Temas

  • literatura
  • totalitarismo
  • comunismo
  • imperialismo
  • colonialismo
  • liberdade de expressão
  • propaganda
  • descolonização
  • relações internacionais
  • economia colonial
  • racismo
  • trabalho forçado
  • integração económica

Eventos

  • Grande Depressão
  • Guerra Civil Espanhola
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • criação das Nações Unidas
  • 25 de Abril de 1974

Guerras e conflitos

  • Guerra Civil Espanhola
  • Segunda Guerra Mundial
  • guerras coloniais

Livros recomendados

  • Shooting an Elephant

Livros citados

  • 1984
  • A Quinta dos Animais
  • O Triunfo dos Porcos
  • Homenagem à Catalunha
  • Why I Write
  • Shooting an Elephant
  • Down and Out in Paris and London
  • Animal Farm
  • O Caminho da Servidão