Nº 9107 de abril de 202152:23efeméride
O golpe de Botelho Moniz e o neo-realismo em Portugal
O episódio analisa a tentativa de golpe de Estado de Abril de 1961, liderada pelo ministro da Defesa Júlio Botelho Moniz, que não pretendia derrubar o Estado Novo mas apenas mudar políticas e afastar Salazar. Na segunda parte, discute-se o movimento neorrealista português, especialmente o romance 'Esteiros' de Sueiro Pereira Gomes, explorando como esta corrente literária ligada ao Partido Comunista moldou o imaginário cultural português, sobretudo após 1975.
Ideias principais
- O golpe de Botelho Moniz foi uma conspiração palaciana que não visava acabar com o Estado Novo mas apenas mudar políticas, tentando agir legalmente através de Salazar e do Presidente da República antes de considerar uso de força.
- Os conspiradores tinham amplo apoio nas cúpulas militares mas não queriam perder controlo da situação através de confronto armado, temendo que isso abrisse portas à oposição democrática como viria a acontecer em 1974.
- Salazar respondeu ao golpe falhado demitindo toda a cúpula militar mas sem prisões ou perseguições, e implementou depois muitas das reformas que os conspiradores exigiam, através de ministros reformistas como Adriano Moreira.
- O neorrealismo foi um movimento literário politicamente importante mas literariamente limitado, que nunca dominou as vendas nos anos 40-50 e sofreu com o esquematismo ideológico imposto pelo Partido Comunista, sendo superado por autores como Agostina Bessa-Luís.
- O sucesso cultural do neorrealismo é póstumo e deve-se ao domínio do PCP sobre o Estado em 1975, que impôs estes autores nos programas escolares onde se mantiveram por serem literariamente simples e ideologicamente transparentes, mais fáceis de estudar para exames.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* divide-se em dois temas distintos: o golpe falhado do general Botelho Moniz em abril de 1961 e o movimento neorrealista na literatura portuguesa do século XX.
A primeira parte é dedicada à chamada Abrilada de 1961, uma tentativa de afastar Salazar do poder protagonizada pelo próprio ministro da Defesa Nacional, o general Júlio Botelho Moniz. Rui Ramos começa por esclarecer que o regime não esteve verdadeiramente em risco de cair, em parte porque os próprios conspiradores não pretendiam derrubar o Estado Novo, mas apenas substituir as suas figuras de topo e alterar algumas políticas. A prova disso é que a conspiração foi conduzida de forma insólita: os descontentes falaram primeiro com o próprio Salazar, depois com o Presidente da República Américo Tomás, pedindo mudanças e eventualmente a saída do Presidente do Conselho. Só quando perceberam que nenhum dos dois cederia é que consideraram uma demonstração de força, mas foram antecipados por Salazar, que os demitiu a todos a 13 de abril - num anúncio que abrangeu a cúpula inteira das Forças Armadas e das forças de segurança, incluindo o próprio Costa Gomes. O contexto era o do início da Guerra Colonial, com a revolta no norte de Angola desde março desse ano, e a nova atitude da administração Kennedy de votar contra Portugal na ONU. Botelho Moniz, homem com raízes no 28 de Maio de 1926 e ministro do Interior no pós-guerra, estava genuinamente preocupado com o isolamento internacional de Portugal e com a dependência crescente face aos Estados Unidos no quadro da NATO. O historiador salienta que este não foi um confronto entre reformistas e imobilistas: o próprio governo que Salazar formou após as demissões incluiu figuras reformistas, como Adriano Moreira no Ultramar ou Correia de Oliveira, o homem da integração de Portugal na EFTA. A conclusão de Rui Ramos é que Salazar tratou o episódio como uma recomposição interna do regime, sem perseguições nem prisões, e sem se deixar impressionar por nenhum dos lados.
A segunda parte começa com uma reflexão mais ampla sobre a tendência portuguesa para fazer transições de regime de forma aparentemente pacífica mas seguida de confronto diferido. Os grandes momentos revolucionários - 1910, 1926, 1974 - partilham a característica de ter encontrado pouca resistência imediata, porque coincidiram com a exaustão dos regimes anteriores. Os conflitos vieram sempre depois, quando se tornou necessário definir o novo regime, momento em que as divergências políticas irromperam. Rui Ramos nota que a democracia atual conseguiu, ao contrário dos seus antecessores, fazer transições internas pacíficas, nomeadamente através das revisões constitucionais de 1982 e 1989.
A discussão literária centra-se na reedição de *Esteiros*, de Soeiro Pereira Gomes, publicado originalmente em 1941, obra emblemática do neorrealismo português. Rui Ramos explica que o neorrealismo foi, na prática, a versão portuguesa do realismo socialista soviético, organicamente ligado ao Partido Comunista, que o utilizava como instrumento de recrutamento e influência cultural, nomeadamente junto de estudantes universitários e operários autodidatas. O próprio Álvaro Cunhal era teórico literário e ilustrou a primeira edição de *Esteiros*. Do ponto de vista estritamente literário, o balanço é crítico: os romances neorrealistas nunca foram os mais vendidos nos anos 40, o esquematismo ideológico suscitou resistência imediata - mesmo dentro da oposição, com o aparecimento do surrealismo lisboeta em 1947-49 -, e a publicação da *Sibila* de Agostina Bessa-Luís em 1954 eclipsou literariamente todo o movimento. Nos anos 50, o existencialismo substituiu o neorrealismo como referência intelectual, e a revolta húngara de 1956 afastou vários autores do PCP.
A longevidade e a presença do neorrealismo na memória cultural portuguesa explicam-se, segundo Rui Ramos, por dois fatores: a máquina organizativa do Partido Comunista, que nunca deixou de promover estes autores nas publicações que controlava, e sobretudo o poder que o PCP adquiriu em 1975, impondo estes autores nos programas escolares. Gerações de professores e al
Personagens
- Júlio Botelho Moniz
- António de Oliveira Salazar
- Américo Tomás
- Almeida Fernandes
- Costa Gomes
- Craveiro Lopes
- Marcelo Caetano
- Viando de Lemos
- Adriano Moreira
- Antunes Varela
- Ferreira Dias
- Correia de Oliveira
- Santos Costa
- Henrique Tenreiro
- John F. Kennedy
- Mário Soares
- Sueiro Pereira Gomes
- Francisco José Viegas
- Álvaro Cunhal
- Alves Redol
- Manuel da Fonseca
- Carlos de Oliveira
- Fernando Namora
- Virgílio Ferreira
- Jorge Amado
- John Steinbeck
- Aquilino Ribeiro
- Agostina Bessa-Luís
- Joaquim Paço d'Arcos
- Francisco Costa
- Ferreira de Castro
- José Régio
- Miguel Torga
- Vitorino Nemésio
- Mário Cesariny
- Alexandre O'Neill
- António Maria Lisboa
- Mário Henrique Leiria
- Jean-Paul Sartre
- Albert Camus
- Mário Dionísio
- Jorge de Sena
- Sofia de Mello Breyner
- Luís de Sttau Monteiro
- José Saramago
- Eça de Queirós
- Fernando Pessoa
- Júlio Pomar
- Cândido de Azevedo
- Gomes da Costa
Lugares/Países
- Portugal
- Angola
- Estados Unidos
- Brasil
- União Soviética
- Hungria
- Madeira
- Europa Ocidental
- Europa de Leste
Épocas
- Estado Novo
- século XX
- Primeira República
- anos 40
- anos 50
- anos 60
- Guerra Colonial
- Segunda Guerra Mundial
- século XIX
Temas
- golpe de Estado
- ditadura
- Guerra Colonial
- neorrealismo
- literatura
- censura
- Partido Comunista
- política
- descolonização
- cultura
- realismo socialista
Eventos
- Golpe de Botelho Moniz
- Abrilada de 1961
- Revolução dos Cravos
- 25 de Abril de 1974
- 28 de Maio de 1926
- Revolução Republicana de 1910
- Revolução de 1820
- Revolta da Hungria de 1956
- Eleições de 1958
Guerras e conflitos
- Guerra Colonial
Livros citados
- Esteiros
- Os Capitães da Areia
- A Sibila
- Gaibéus
- Até Amanhã, Camaradas
- Portugal Amordaçado
- Serrão
- Casa da Malta
- Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos
- Domingo à Tarde
- Mau Tempo no Canal
- Os Maias
- Felizmente Há Luar