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Nº 21706 de setembro de 202350:59efeméride

O golpe de Pinochet no Chile foi há 50 anos

Análise dos 50 anos do golpe de Pinochet no Chile (11 de setembro de 1973), que derrubou o governo socialista de Salvador Allende. O episódio explora o contexto da tentativa de Allende de fazer uma revolução marxista pela via democrática, a crise económica que se seguiu, o papel dos EUA e da CIA, e a violenta repressão da ditadura militar. Termina com a comparação ao caso português, mostrando como o Chile foi usado como aviso durante a Revolução de 1974-75 e como Portugal evitou tornar-se 'o Chile da Europa' através da opção democrática liderada por Mário Soares.

Ideias principais

  1. Salvador Allende tentou fazer uma revolução marxista inédita respeitando a democracia e a Constituição, mas foi eleito com apenas 36% dos votos num país onde dois terços votaram à direita.
  2. A política económica de Allende - nacionalizações, expropriações, aumentos salariais sem contrapartidas - gerou inflação de 140% ao ano, desabastecimento, mercado negro e bancarrota internacional, criando uma tempestade económica que dispensou grande intervenção da CIA.
  3. A ditadura de Pinochet causou cerca de 3 mil mortos e 40 mil presos numa repressão violenta, mas criou depois uma das economias mais prósperas da América Latina através da liberalização económica.
  4. Em Portugal, o slogan 'Portugal não será o Chile da Europa' foi usado pelo PCP e extrema-esquerda para justificar métodos violentos, mas o país evitou esse destino porque, ao contrário do Chile, o Partido Socialista de Mário Soares liderou a resistência democrática com apoio dos EUA.
  5. José de Azeredo Perdigão, advogado republicano mas conservador, foi escolhido por Gulbenkian e aceite por Salazar para presidir à Fundação Gulbenkian precisamente por não ser salazarista, evitando concentração de poder no regime e permitindo apoio a figuras da oposição, mantendo a instituição como 'oásis' através de todas as mudanças políticas até 1993.

Resumo do episódio

O episódio 217 de *E o Resto é História* é dedicado, na sua maior parte, ao golpe militar chileno de 11 de setembro de 1973, que derrubou o governo de Salvador Allende e instalou a ditadura do general Augusto Pinochet. A conversa parte de perguntas enviadas por um ouvinte - sobre como Allende chegou ao poder, o papel dos Estados Unidos e os interesses em jogo na Guerra Fria - e Rui Ramos e João Miguel Tavares constroem uma narrativa que vai do contexto socioeconómico do Chile até às repercussões do golpe em Portugal.

Os apresentadores começam por traçar o perfil do Chile como um país atípico na América Latina: maioritariamente urbano, com uma classe média expressiva e uma população de origem predominantemente europeia, com uma longa tradição de estabilidade institucional face ao historial de golpes e ditaduras dos seus vizinhos. É neste país que, em 1970, Salvador Allende, líder socialista e marxista, é eleito presidente com apenas 36% dos votos, fruto de uma divisão da direita entre dois candidatos. A sua proposta era inédita: fazer uma revolução marxista - com nacionalizações, expropriações e planificação económica - mas de forma pacífica e constitucional, respeitando a democracia e o pluralismo.

O problema, sublinham os apresentadores, é que Allende governava sem maioria parlamentar e num país onde dois terços dos eleitores tinham votado contra o seu programa. As políticas económicas do governo geraram inflação galopante - 140% ao ano em 1972 -, mercado negro generalizado, queda do PIB e bancarrota internacional em 1973. Ao mesmo tempo, uma parte da sua própria base política, nomeadamente sectores do Partido Socialista e da extrema-esquerda, pressionava para abandonar a via constitucional e passar à revolução pela força. O Parlamento, onde a oposição tinha maioria, chegou mesmo a apelar formalmente às Forças Armadas para restaurarem a ordem, acusando o governo de preparar um golpe totalitário. A CIA e os Estados Unidos, contextualizam os apresentadores, apoiaram a oposição a Allende, mas não foram os criadores do caos: a deterioração era já suficientemente profunda para que o colapso do governo fosse uma possibilidade real sem intervenção externa significativa.

O golpe de 11 de setembro foi especialmente violento porque ambos os lados da sociedade chilena estavam polarizados e desconfiavam da outra parte. Allende recusou render-se, suicidou-se no Palácio de La Moneda e a junta militar, em vez de simplesmente derrubar um governo, desencadeou uma repressão em larga escala: cerca de 40 mil presos, 3 mil mortos e o recurso sistemático à tortura. Pinochet permaneceu no poder até 1990, tendo entretanto transformado a economia chilena numa das mais prósperas da América Latina, o que lhe permitiu uma saída pacífica do poder - contrariamente, notam os apresentadores, a Fidel Castro, que nunca o fez.

A ligação ao caso português é explorada com particular interesse. Dois slogans da revolução de 1974-75 - «O povo unido jamais será vencido», de origem chilena, e «Portugal não será o Chile da Europa» - ilustram como o golpe de Pinochet foi instrumentalizado em Portugal pelo Partido Comunista e pela extrema-esquerda para justificar medidas mais radicais e repressivas. Rui Ramos argumenta, porém, que Portugal foi de facto uma coisa muito diferente: ao contrário do Chile, o Partido Socialista português, liderado por Mário Soares e com o apoio dos Estados Unidos, da Igreja Católica e dos partidos europeus, resistiu tanto à tomada do poder pela esquerda radical como à instalação de uma ditadura militar conservadora.

Personagens

  • Augusto Pinochet
  • Salvador Allende
  • Fidel Castro
  • Che Guevara
  • Mário Soares
  • António de Oliveira Salazar
  • Marcelo Caetano
  • Pedro Teotónio Pereira
  • Calouste Gulbenkian
  • José de Azeredo Perdigão
  • Adelino da Palma Carlos
  • Henrik Ibsen

Lugares/Países

  • Chile
  • Portugal
  • Estados Unidos
  • União Soviética
  • Cuba
  • Brasil
  • Argentina
  • Uruguai
  • Reino Unido
  • China
  • Rússia
  • Alemanha Ocidental
  • Suécia
  • Noruega

Épocas

  • Guerra Fria
  • século XX
  • século XIX
  • década de 1960
  • década de 1970
  • Estado Novo
  • Revolução de 1974-75
  • anos 30
  • anos 80
  • Segunda Guerra Mundial

Temas

  • golpe de Estado
  • ditadura militar
  • socialismo
  • marxismo
  • revolução
  • democracia
  • repressão política
  • economia
  • inflação
  • nacionalização
  • Guerra Fria
  • intervenção americana
  • CIA
  • social-democracia
  • tortura
  • direitos humanos
  • liberalização económica
  • mecenato cultural

Eventos

  • Golpe de Pinochet de 1973
  • Revolução Portuguesa de 1974-75
  • 25 de Abril de 1974
  • Maio de 68
  • Golpe militar brasileiro de 1964
  • Revolução Cubana
  • Crise dos mísseis de Cuba de 1962

Guerras e conflitos

  • Guerra Fria

Livros citados

  • Os Pilares da Sociedade