Nº 210 de julho de 201940:11análise histórica
O Hino, a Bandeira e o Estado da Nação
Este episódio especial sobre o Estado da Nação analisa os símbolos nacionais portugueses - bandeira e hino - e a evolução do sistema político português. Discute-se a adopção do verde e vermelho em 1910, substituindo o azul e branco monárquico, e a transformação de 'A Portuguesa' em hino nacional. O episódio explora ainda a inspiração do sistema presidencialista português pós-1974 e a notável estabilidade territorial de Portugal, apesar das profundas diferenças regionais entre Norte e Sul.
Ideias principais
- A mudança da bandeira em 1910 representou uma escolha entre 'republicanizar a nação' (impor os símbolos do Partido Republicano) ou 'nacionalizar a república' (manter continuidade com os símbolos monárquicos), vencendo a primeira opção com o verde e vermelho.
- Alfredo Keil, compositor de 'A Portuguesa' em 1890, era filho de um alemão e uma italiana, nunca soube que a sua canção patriótica se tornaria hino nacional (morreu em 1907), e a sua grande ambição falhada era ser reconhecido como autor de ópera.
- A Constituição portuguesa de 1976 criou um Presidente com poderes semelhantes aos da monarquia constitucional - incluindo capacidade de demitir governos - mas esses poderes nunca foram plenamente exercidos, criando uma bicefalia que reflecte o papel das Forças Armadas no regime.
- Portugal nunca teve uma oposição a vencer eleições até 1979 (AD), e só em 2005 um primeiro-ministro candidato à reeleição perdeu eleições (Santana Lopes), apesar de haver sufrágio desde 1820.
- A estabilidade territorial portuguesa é paradoxal dado as profundas diferenças entre Norte e Sul (visíveis nas eleições de 1975), sendo explicada pela força centralizadora de Lisboa como capital imperial e pela tradição de homogeneização nacional que só recentemente aceita a pluralidade interna do país.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História*, dedicado ao Estado da Nação por ocasião do debate anual na Assembleia da República, centra-se em três grandes temas: os símbolos nacionais - a bandeira e o hino -, a organização política do Estado português e a questão da identidade e coesão nacionais ao longo da história.
A conversa abre com a origem da bandeira verde e vermelha, adoptada após a Revolução Republicana de Outubro de 1910. Rui Ramos explica que a escolha das cores foi, desde o início, uma questão politicamente divisiva: enquanto uma corrente queria impor os símbolos do Partido Republicano como forma de marcar a ruptura com a monarquia, outra - associada a figuras como o escritor Guerra Junqueiro - defendia que a República devia "nacionalizar-se", mantendo as cores azul e branco da bandeira monárquica para não alienar os portugueses. Venceu a primeira corrente, embora com uma concessão importante: as armas reais, com castelos e escudetes, foram mantidas no centro da bandeira, assegurando uma continuidade simbólica. Com o tempo, e sobretudo após a participação de Portugal na Grande Guerra, o verde e o vermelho foram-se naturalizando como cores nacionais, a ponto de, durante a breve restauração monárquica de 1919 no Porto, as pessoas se recusarem a pisar a bandeira republicana colocada à porta dos Correios.
Sobre o hino nacional, *A Portuguesa*, Rui Ramos esclarece que a música foi composta por Alfredo Keil - filho de um alfaiate alemão e de uma italiana, nascido em Lisboa e profundamente empenhado em afirmar a sua identidade portuguesa - e a letra por Henrique Lopes de Mendonça, no contexto patriótico que se seguiu ao Ultimato Inglês de 1890. Keil morreu em 1907, sem saber que a sua composição se tornaria hino nacional. O apresentador desmonta ainda a crença popular de que o verso "contra os bretões marchar" teria sido alterado para "contra os canhões marchar" por referência aos ingleses: os arquivos mostram que a letra original sempre teve "canhões". A fixação oficial da letra, ocorrida em 1957 durante o Estado Novo, introduziu algumas alterações, entre as quais a substituição de "ergue-se a voz" por "sente-se a voz", cuja justificação permanece incerta.
O episódio avança depois para a arquitectura constitucional portuguesa, nomeadamente a tradição de bicefalia do poder executivo. Rui Ramos argumenta que o modelo consagrado na Constituição de 1976 - com um Presidente da República dotado de poderes políticos consideráveis - não foi propriamente uma cópia de constituições estrangeiras, mas antes um retorno a uma tradição nacional que remonta à Carta Constitucional de 1826, onde o chefe de Estado tinha poderes efectivos de nomeação, demissão e dissolução. Em 1976, esse presidencialismo reforçado servia também para articular o poder democrático emergente com as Forças Armadas que tinham protagonizado o 25 de Abril. Os apresentadores discutem ainda como a Constituição, mesmo após a revisão de 1982, continua a permitir leituras muito distintas do papel presidencial - a do árbitro moderador, predominante hoje, ou a de um presidente-chefe de maioria, à semelhança do que o General de Gaulle preconizava em França.
O episódio encerra com uma reflexão sobre a notável estabilidade territorial e política de Portugal ao longo dos séculos, apesar das profundas diferenças entre o norte e o sul do país - diferenças que ficaram expostas com nitidez nas eleições de 1975. Rui Ramos invoca a obra do geógrafo Orlando Ribeiro para sublinhar que essas assimetrias sempre existiram, mas que durante muito tempo os projectos políticos dominantes impuseram uma visão homogénea da nação, ignorando ou recusando a sua pluralidade interna. A centralidade histórica de Lisboa - capital de um império global e maior cidade da Península Ibérica até ao século XIX - é apontada como um factor decisivo de unificação cultural e linguística do país, tema que fica prometido para um episódio futuro.
Personagens
- Guerra Junqueiro
- Henrique Lopes de Mendonça
- Alfredo Keil
- Manuel de Arriaga
- António José de Almeida
- Paiva Couceiro
- Campos Lima
- Dom Pedro IV
- Dom Fernando II
- Orlando Ribeiro
- José Mattoso
- Salazar
- François Mitterrand
- Charles de Gaulle
- Pedro Santana Lopes
- António Costa
- Dom João II
- Sá de Miranda
Lugares/Países
- Portugal
- Inglaterra
- Espanha
- França
- Alemanha
- Brasil
- Índia
- África
- Europa
Épocas
- século XI
- século XVI
- século XIX
- século XX
- 1890
- 1910-1911
- Primeira República
- Estado Novo
- 1974-1976
- Idade Média
Temas
- símbolos nacionais
- identidade nacional
- republicanismo
- monarquia
- sistema político
- constitucionalismo
- eleições
- geografia política
- regionalismo
- centralismo
Eventos
- Revolução Republicana de 1910
- Ultimato Inglês de 1890
- Primeira Guerra Mundial
- Monarquia do Norte
- Revolução de 25 de Abril de 1974
- eleições para a Assembleia Constituinte de 1975
- revisão constitucional de 1982
- eleições de 1979
- eleições de 2005
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Guerra Civil de 1832
- Revolução Francesa
Livros citados
- O Cidadão Keil
- Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico