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Nº 18128 de dezembro de 202243:14efeméride

O homem que mais vidas salvou em toda a História

Episódio duplo dedicado a duas efemérides de 1822 e 1862: o bicentenário do nascimento de Louis Pasteur, fundador da microbiologia e responsável por salvar milhões de vidas através das suas descobertas sobre vacinação, pasteurização e higiene; e os 160 anos da publicação de Os Miseráveis de Victor Hugo, romance monumental que retrata a pobreza e exclusão social na França oitocentista. Ambos representam figuras icónicas da cultura francesa do século XIX, transformadas em símbolos republicanos.

Ideias principais

  1. Louis Pasteur revolucionou a medicina ao descobrir a origem bacteriológica das doenças, permitindo pela primeira vez que os médicos pudessem efectivamente prevenir e tratar infecções em vez de apenas oferecer cuidados paliativos.
  2. A pasteurização, a esterilização de instrumentos cirúrgicos e o princípio da vacinação por bactérias enfraquecidas transformaram radicalmente a expectativa de vida humana, reduzindo drasticamente a mortalidade infantil por infecções que antes eram inevitáveis.
  3. Pasteur foi promovido pela Terceira República Francesa como símbolo de prestígio nacional numa rivalidade científica com a Alemanha, tornando-se quase uma figura religiosa laica que representava a fé no poder da ciência para resolver todos os problemas humanos.
  4. Os Miseráveis de Victor Hugo, publicado em 1862 em plena era de optimismo económico e progresso tecnológico, funcionou como má consciência da sociedade burguesa ao retratar os excluídos e miseráveis, adaptando a mensagem cristã tradicional sobre os pobres para uma narrativa humanitária laica.
  5. Tanto Pasteur como Victor Hugo foram transformados em profetas laicos pela cultura republicana francesa, o primeiro como santo da ciência redentora, o segundo como visionário moral que mantinha viva a mensagem evangélica de redenção através do sofrimento numa época cada vez mais secularizada.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* celebra dois bicentenários e uma efeméride literária, reunindo duas das figuras mais marcantes do século XIX francês: o cientista Louis Pasteur e o escritor Victor Hugo. Rui Ramos e João Miguel Tavares exploram o impacto duradouro de ambos, argumentando que as suas obras transformaram não apenas as suas áreas específicas, mas a própria maneira como a civilização ocidental compreende a saúde, o progresso e o lugar do ser humano no mundo.

A primeira parte é dedicada a Pasteur, nascido a 27 de dezembro de 1822, apresentado como possivelmente o homem cujas descobertas salvaram mais vidas em toda a história da humanidade. Químico de formação, e não médico, Pasteur desenvolveu a teoria da origem bacteriológica das doenças numa época em que a medicina não conseguia sequer identificar com clareza a causa de grande parte das enfermidades. Os apresentadores sublinham que, em meados do século XIX, a maioria das mortes tinha causas infecciosas e ocorria sobretudo na infância - o próprio Pasteur perdeu dois dos seus cinco filhos para a febre tifoide, provocada precisamente por uma bactéria. As suas investigações, iniciadas a pedido de produtores de vinho e criadores de gado, levaram-no a identificar micro-organismos responsáveis por doenças e a desenvolver métodos para os combater, como a pasteurização, a esterilização de instrumentos cirúrgicos e as vacinas. Em 1885, administrou com sucesso, sob a sua orientação, uma vacina contra a raiva a uma criança mordida por um cão raivoso. O episódio aborda também o lado menos luminoso de Pasteur: quando os seus cadernos de notas foram finalmente tornados públicos, nos anos 1980, os investigadores descobriram que o cientista por vezes divulgava dados incorrectos para enganar os rivais e tendia a apagar o contributo dos seus colaboradores, comportando-se mais como um empreendedor da ciência do que como o génio solitário da lenda. Rui Ramos situa Pasteur no contexto da rivalidade franco-alemã após a derrota de 1870: a Terceira República Francesa promoveu deliberadamente a sua figura como símbolo do prestígio nacional, em concorrência directa com o bacteriologista alemão Robert Koch. A criação do Instituto Pasteur em Paris, em 1888, foi parte dessa estratégia. Mais do que curar doenças, Pasteur contribuiu para uma transformação cultural profunda: ao tornar possível cuidar do corpo e prolongar a vida saudável, deslocou o centro das preocupações humanas da salvação da alma para o bem-estar terreno, alimentando a crença de que a ciência experimental poderia resolver todos os problemas da humanidade.

A segunda parte do episódio volta-se para Victor Hugo e a publicação, em 1862, de *Os Miseráveis* - um romance de cerca de 1900 páginas que os apresentadores comparam, pela sua estrutura de capítulos curtos, personagens improváveis e peripécias em suspenso, a uma grande série de televisão contemporânea. Escrito em grande parte nos anos 1840 e retomado no exílio em Guernsey, onde Hugo vivia por recusar o regime autoritário de Napoleão III, o romance chegou ao público num momento de grande optimismo económico e tecnológico na Europa, indo precisamente contra essa corrente ao lembrar os excluídos do progresso. Rui Ramos destaca que a Paris retratada no livro - labiríntica, popular, antiga - era a mesma que Napoleão III estava a demolir para construir as grandes avenidas modernas, conferindo ao romance uma melancolia de mundo que desaparece. Mais do que um retrato social, *Os Miseráveis* propõe uma mensagem de redenção moral através do sofrimento e da renúncia, encarnada na figura de Jean Valjean. Os apresentadores argumentam que Hugo traduziu, em linguagem laica e humanitária, a mensagem cristã tradicional sobre a dignidade dos pobres e a insuficiência do conforto material, tornando-se uma espécie de profeta secular numa sociedade em acelerada secularização. Quando morreu, em 1885, o seu funeral em Paris reuniu cerca de dois milhões de pessoas e foi sepultado no Panteão - ao lado, simbolicamente, dos grandes cientistas e heróis da República.

Personagens

  • Louis Pasteur
  • Robert Koch
  • Zé Melvin
  • Auguste Comte
  • Victor Hugo
  • Napoleão Bonaparte
  • Luís Napoleão (Napoleão III)
  • Jean Valjean
  • Javer
  • Gavroche
  • Bispo Miriel
  • Eugène Sue
  • Alexandre Dumas
  • Flaubert
  • Baudelaire
  • Júlio Verne
  • Chateaubriand
  • Walter Scott

Lugares/Países

  • França
  • Alemanha
  • Prússia
  • Áustria
  • Viena
  • Paris
  • Estrasburgo
  • Bélgica
  • Inglaterra
  • Grã-Bretanha
  • Guernsey
  • Europa

Épocas

  • século XIX
  • século XVIII
  • século XX
  • anos 1820
  • anos 1830
  • anos 1840
  • anos 1850
  • anos 1860
  • anos 1870
  • anos 1880
  • Terceira República Francesa
  • Segundo Império
  • Idade Média
  • romantismo

Temas

  • ciência
  • medicina
  • microbiologia
  • saúde pública
  • vacinação
  • higiene
  • literatura
  • romance social
  • pobreza
  • exclusão social
  • progresso
  • tecnologia
  • secularização
  • cristianismo
  • humanitarismo

Eventos

  • Revolução Francesa de 1789
  • Batalha de Waterloo
  • revoltas populares de Paris (1830s)
  • Revolução de 1848

Guerras e conflitos

  • Guerra Franco-Prussiana (1870)

Livros recomendados

  • Os Miseráveis

Livros citados

  • Os Miseráveis
  • Notre-Dame de Paris
  • Os Mistérios de Paris
  • O Conde de Monte Cristo