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Nº 7913 de janeiro de 202150:35análise histórica

O incêndio do Capitólio e a segregação racial

O episódio aborda dois temas centrais da história americana: a Guerra de 1812-1814 entre EUA e Reino Unido, culminando no incêndio de Washington e do Capitólio, e o complexo sistema de segregação racial no sul dos Estados Unidos após a Guerra Civil. Rui Ramos explica como a segregação racial não foi consequência directa da escravatura, mas sim uma construção política e social do final do século XIX e início do século XX, montada paradoxalmente pelo Partido Democrata durante a chamada Era do Progresso.

Ideias principais

  1. A Guerra de 1812-1814 foi uma 'Segunda Guerra de Independência' dos EUA contra a Inglaterra, motivada pelo bloqueio comercial britânico, pela captura de marinheiros americanos de origem britânica e pelo apoio inglês aos índios na fronteira oeste.
  2. O incêndio do Capitólio pelos britânicos em agosto de 1814 foi uma retaliação directa pela queima de York (Toronto) pelos americanos em 1813, e foi executado por tropas veteranas vindas da Península Ibérica.
  3. A segregação racial no sul dos EUA não é a mesma coisa que escravatura: foi um sistema de 'separados mas iguais' criado entre 1877 e meados do século XX, baseado em leis estaduais que usavam critérios de alfabetização e rendimento para contornar a proibição constitucional de discriminação racial.
  4. O Partido Democrata, que hoje representa as minorias, foi historicamente o partido da segregação racial no sul, tendo montado o sistema de leis Jim Crow durante a Era do Progresso, enquanto o Partido Republicano era o partido de Lincoln e da abolição.
  5. O desmantelamento da segregação nos anos 1960 exigiu não apenas o movimento de direitos civis liderado por Martin Luther King, mas também manobras legais complexas de Lyndon Johnson para contornar a autonomia dos estados, usando por exemplo a cláusula de comércio interestadual para aprovar o Civil Rights Act de 1964.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* aborda dois temas interligados pela actualidade política americana: o assalto ao Capitólio de 2021 serve de ponto de partida para explorar o único precedente histórico em que aquele edifício foi destruído, e depois a conversa alarga-se para compreender as origens e o funcionamento da segregação racial no Sul dos Estados Unidos.

Na primeira parte, Rui Ramos explica a chamada Guerra de 1812, um conflito hoje pouco recordado que opôs os Estados Unidos à Grã-Bretanha e que culminou, em agosto de 1814, na tomada e incêndio de Washington pelas tropas britânicas. As causas do conflito foram várias: o bloqueio económico mútuo entre Inglaterra e França durante as guerras napoleónicas prejudicava gravemente o comércio americano; a Royal Navy boardava navios americanos e capturava marinheiros de origem britânica, recusando reconhecer a sua cidadania americana; e a Inglaterra apoiava militarmente as nações índias que resistiam à expansão territorial americana para oeste. A guerra foi declarada em 1812 pelo presidente James Madison, apoiado pelo Partido Democrata, de orientação pró-francesa. Em termos militares, tratou-se de um conflito de dimensões modestas, mas com episódios marcantes: os americanos chegaram a incendiar a assembleia legislativa de York, actual Toronto, e os britânicos responderam incendiando Washington. A guerra terminou sem concessões territoriais de parte a parte, mas valeu aos Estados Unidos o reconhecimento efectivo da sua independência perante a Inglaterra, e foi desse conflito que nasceu o hino nacional americano, o *Star-Spangled Banner*.

A segunda parte do episódio centra-se numa questão proposta por um ouvinte: o que aconteceu no dia seguinte ao fim da escravatura? O ponto de entrada é o controverso Compromisso de 1877, pelo qual o candidato democrata Samuel Tilden reconheceu a vitória do republicano Rutherford Hayes nas eleições presidenciais de 1876, em troca da retirada das tropas federais dos Estados do Sul. Essa retirada encerrou o período da Reconstrução e abriu caminho ao desmantelamento progressivo dos direitos da população negra.

Rui Ramos esclarece uma distinção fundamental: a segregação racial não é o mesmo que a escravatura. Enquanto os escravos estavam integrados, ainda que de forma abjeta, na sociedade dos seus senhores, a segregação criou duas sociedades paralelas e separadas - com escolas, igrejas, transportes e espaços públicos distintos para brancos e negros. Este sistema foi construído Estado a Estado, ao abrigo da autonomia constitucional de cada membro da federação, sobretudo nos onze Estados da antiga Confederação, e desenvolveu-se principalmente entre o fim do século XIX e a primeira metade do século XX. Para contornar a proibição constitucional de negar o direito de voto com base na raça, as assembleias legislativas sulistas introduziram critérios de literacia e de rendimento que, na prática, excluíam a esmagadora maioria da população negra, analfabeta por herança da escravatura, criando um círculo vicioso de exclusão política e social.

Um dos aspectos mais surpreendentes que os apresentadores sublinham é que esta arquitectura da segregação foi obra do Partido Democrata - o mesmo partido que, sessenta anos depois, com Kennedy e Lyndon Johnson, aprovaria o *Civil Rights Act* de 1964 e o *Voting Rights Act* de 1965. A explicação reside no facto de o Partido Democrata ser, nessa época, essencialmente o partido do Sul rural, cujo eleitorado incluía uma população branca pobre cuja identidade assentava na supremacia racial. A televisão e a grande migração da população negra para o Norte foram os dois factores que, no século XX, tornaram a segregação inaceitável para o conjunto dos americanos. Lyndon Johnson teve ainda de recorrer a sofisticadas manobras jurídicas - usando a cláusula comercial da Constituição para justificar a intervenção federal - para desmantelar um sistema que estava protegido pela própria estrutura constitucional do país. O episódio termina com a explicação da expressão "leis de Jim Crow", cujas origens remontam a uma figura caricatural do teatro popular americano do século XIX, usada por actores brancos para ridicularizar os negros.

Personagens

  • James Madison
  • Thomas Jefferson
  • Francis Scott Key
  • Napoleão
  • Rutherford B. Hayes
  • Samuel J. Tilden
  • Woodrow Wilson
  • Barack Obama
  • Martin Luther King
  • Abraham Lincoln
  • John F. Kennedy
  • Lyndon Johnson
  • George Wallace
  • Atticus Finch

Lugares/Países

  • Estados Unidos
  • Reino Unido
  • Inglaterra
  • França
  • Canadá
  • Portugal
  • Espanha
  • África do Sul

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • guerras napoleónicas
  • Guerra Civil Americana
  • Era do Progresso
  • década de 1950
  • década de 1960

Temas

  • guerra
  • escravatura
  • segregação racial
  • direitos civis
  • política partidária
  • independência
  • comércio marítimo
  • federalismo
  • discriminação racial
  • migração
  • democratização

Eventos

  • Assalto ao Capitólio de 2021
  • Revolução Americana de 1776
  • Batalha de Washington de 1814
  • Burning of Washington
  • Guerra Civil Americana
  • Reconstrução
  • Compromisso de 1877
  • Civil Rights Act de 1964
  • Voting Rights Act de 1965
  • Grande Migração

Guerras e conflitos

  • Guerra de Independência Americana
  • Guerra de 1812-1814
  • Guerras Napoleónicas
  • Invasões Francesas de Portugal
  • Guerra Civil Americana
  • Primeira Guerra Mundial

Livros citados

  • To Kill a Mockingbird (Não Matem a Cotovia)
  • Go Set a Watchman (Vai e Põe uma Sentinela)