Nº 31416 de julho de 202557:21análise histórica
O Irão e a revolução islâmica de 1979
Análise da história do Irão desde o início do século XX até à Revolução Islâmica de 1979, passando pela tentativa de modernização forçada dos Pahlavi, a influência ocidental através do petróleo, e a ascensão do clero xiita ao poder. O episódio explica como um país em vias de ocidentalização nos anos 1960-70 se transformou numa teocracia islâmica, explorando as tensões entre modernização, nacionalismo e tradição religiosa.
Ideias principais
- O Irão do início do século XX era um império fraco e endividado, dividido em zonas de influência russa e britânica, com população muito inferior às potências europeias (10 milhões vs 41 milhões da Grã-Bretanha).
- A descoberta do petróleo iraniano tornou-se central para os interesses britânicos, especialmente após a Marinha Real mudar do carvão para combustíveis petrolíferos, levando à criação da Anglo-Persian Oil Company em 1909.
- Mossadegh, um aristocrata ocidentalizado que se tornou demagogo nacionalista, nacionalizou o petróleo em 1951 mas foi derrubado por um golpe apoiado pelos EUA e Reino Unido em 1953, reinstalando o Shah como ditador.
- A explosão demográfica iraniana (de 12 milhões em 1940 para 40 milhões em 1980) e a urbanização acelerada criaram pressões sociais que o crescimento económico dos anos 60-70 não conseguiu absorver, gerando frustração e radicalização.
- A Revolução Islâmica de 1979 resultou da aliança temporária entre clero xiita, burguesia liberal e estudantes marxistas contra o Shah, mas o clero sob Khomeini acabou por esmagar os aliados e impor uma teocracia que combina eleições com autocracia clerical.
Resumo do episódio
O episódio debruça-se sobre a história do Irão moderno, desde o início do século XX até à Revolução Islâmica de 1979, procurando responder a três questões fundamentais: a monarquia do xá era uma marioneta do Ocidente? A aliança entre estudantes marxistas e islamistas foi decisiva para a revolução? E como é que um país com mulheres de minissaia nos anos 60 se transformou numa teocracia?
Rui Ramos começa por contextualizar o Irão de 1900 como um império fragilizado, entalado entre a Rússia e a Grã-Bretanha, com apenas dez milhões de habitantes e sujeito a fomes regulares. As potências ocidentais financiavam o Estado iraniano e, em troca, controlavam as suas alfândegas e reservavam para si as concessões petrolíferas, descobertas no sul do país em 1908. Esta humilhação alimentou um movimento constitucionalista que, entre 1906 e 1911, instaurou uma monarquia parlamentar inspirada na Constituição belga, com a particularidade de incluir uma comissão de clérigos xiitas para avaliar a conformidade das leis com o Islão. O experimento democrático durou apenas cinco anos, sendo esmagado com o apoio militar russo ao xá.
Após a Primeira Guerra Mundial e o caos que se seguiu, os britânicos apoiaram o golpe de Reza Khan, um general que fundou a dinastia Pahlavi e tentou modernizar o Irão à imagem de Atatürk, na Turquia. Porém, a sua aproximação à Alemanha nazi levou a Grã-Bretanha e a União Soviética a invadirem o país em 1941, forçando a sua abdicação. O filho, Mohammad Reza Pahlavi, assumiu o trono com vinte e dois anos. Em 1951, o primeiro-ministro Mossadegh nacionalizou o petróleo, mas acabou derrubado em 1953 por um golpe apoiado pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha, após o qual o xá governou como ditador. A partir de 1963, com a chamada Revolução Branca, promoveu uma reforma agrária, a igualdade das mulheres e um crescimento económico assinalável, mas manteve uma polícia política violenta e um estilo de vida ostensivamente ocidental que alienou o clero xiita, em parte proveniente de famílias expropriadas pela reforma agrária.
Os apresentadores explicam que a crise da ditadura resultou da conjugação de vários factores: uma explosão demográfica que duplicou a população a cada vinte anos, uma urbanização acelerada sem capacidade de absorção, uma geração de estudantes universitários radicalizada à esquerda, e a deterioração económica após a crise petrolífera de meados dos anos 70. A isto juntou-se o distanciamento do presidente norte-americano Jimmy Carter, que pressionou o xá em matéria de direitos humanos, retirando-lhe o apoio estratégico que sustentava o regime.
O Ayatollah Khomeini, exilado primeiro no Iraque e depois em França, foi construindo um projecto político original: uma república gerida por especialistas da lei islâmica, o que representava uma ruptura com a tradição xiita dominante, que tendia a separar o poder clerical do político. Em Janeiro de 1979, o xá partiu para o exílio; em Fevereiro, Khomeini regressou a Teerão. A aliança informal entre burguesia liberal, estudantes marxistas e clero xiita rapidamente se desfez em favor deste último, que esmagou as restantes correntes e impôs um regime híbrido: eleições reais para a presidência e o parlamento, mas com candidatos filtrados pelo Conselho dos Guardiães e todas as decisões sujeitas à aprovação do líder supremo, necessariamente um ayatollah.
Personagens
- Pedro Pereira Ribeiro
- Reza Khan (Reza Shah Pahlavi)
- Mohamed Reza Pahlavi
- Ayatollah Khomeini
- Ayatollah Akhund Khorasani
- Nasser al-Din Shah
- Mohammad Mossadegh
- Ataturk
- Jimmy Carter
- Ali al-Sistani
- Ciro, o Grande
Lugares/Países
- Irão
- Pérsia
- Rússia
- Grã-Bretanha
- Inglaterra
- Estados Unidos
- Israel
- Alemanha
- França
- Bélgica
- Império Otomano
- China
- Japão
- Egito
- Índia
- Iraque
- Turquia
- União Soviética
- Síria
- Palestina
- Argélia
- Líbia
- Arábia Saudita
- África do Sul
- Brasil
- Itália
Épocas
- século XIX
- século XX
- princípio do século XX
- Primeira Guerra Mundial
- anos 1920
- anos 1930
- Segunda Guerra Mundial
- anos 1940
- anos 1950
- anos 1960
- anos 1970
- Guerra Fria
- descolonização
Temas
- revolução
- religião
- teocracia
- islamismo xiita
- modernização
- ocidentalização
- petróleo
- nacionalismo
- democratização
- ditadura
- secularização
- imperialismo
- Guerra Fria
- direitos humanos
- direitos das mulheres
- repressão política
- clero
- explosão demográfica
- urbanização
- reforma agrária
- radicalização estudantil
- marxismo
Eventos
- Revolução Islâmica de 1979
- Revolução Constitucional Iraniana (1905-1911)
- Revolução Branca (1963)
- crise petrolífera de 1973
- golpe de Estado de 1953
- invasão anglo-soviética do Irão (1941)
- nacionalização do petróleo (1951)
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Irão-Iraque (1980-1988)