Nº 10911 de agosto de 202154:48resposta a ouvintes
O MDLP é comparável às FP-25?
O episódio compara o MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal, 1975-76) com as FP-25 (1980-87), respondendo a um ouvinte que questiona a diferença de tratamento histórico. Rui Ramos contextualiza o MDLP no ambiente de pré-guerra civil do PREC, quando partidos estavam proibidos e havia temor de uma ditadura militar comunista, enquanto as FP-25 atuaram numa democracia consolidada. Conclui que, apesar de ambos recorrerem à violência, os contextos históricos, fins e legitimidade são radicalmente diferentes.
Ideias principais
- O MDLP surgiu em 1975 num contexto de divisão militar, partidos proibidos, prisões sem julgamento e receio generalizado de guerra civil, suspendendo atividades após as eleições democráticas de 1976.
- As FP-25 atuaram entre 1980 e 1987 numa democracia consolidada com eleições livres, imprensa livre e Estado de Direito, sendo por isso qualitativamente diferentes do MDLP apesar de ambos usarem violência.
- A importância do MDLP foi largamente exagerada tanto pelos seus líderes (Spínola e Alpoim Calvão) como pelo Partido Comunista, que atribuía ao movimento toda a resistência popular ao PREC para negar a sua falta de apoio popular.
- Os líderes do MDLP assumiram publicamente o seu papel e consideravam a sua ação legítima, enquanto os líderes das FP-25 nunca se identificaram, revelando consciência de que operavam contra o consenso democrático.
- A distinção moral entre violência política depende do contexto: é diferente combater uma ditadura sem vias democráticas (LUAR, ARA, Resistência Francesa) e combater um regime democrático (FP-25), independentemente de se condenar toda a violência.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem à pergunta de um ouvinte sobre o MDLP - o Movimento Democrático de Libertação de Portugal -, discutindo o que foi esta organização e em que medida é comparável às FP-25 de Abril. A questão surgiu na sequência da morte de Otelo Saraiva de Carvalho e do debate sobre o luto nacional que lhe foi ou não concedido, recordando-se que o marechal Spínola, que também beneficiou de honras fúnebres de Estado, esteve associado ao MDLP, uma organização que também recorreu à violência.
Para contextualizar o aparecimento do MDLP, Rui Ramos recua ao período imediatamente a seguir ao 25 de Abril de 1974, explicando a divisão entre os militares que apoiavam o general Spínola - que defendia eleições livres tanto em Portugal como nas colónias antes de qualquer transferência de poder - e a chamada esquerda militar, que pretendia entregar o poder nos territórios ultramarinos aos partidos que tinham combatido a administração portuguesa. Após a demissão de Spínola em setembro de 1974 e o fracasso do golpe de 11 de março de 1975, o general exila-se e, em articulação com o comandante Alpoim Calvão, funda o MDLP com o objetivo declarado de combater o que descreviam como uma ditadura militar de influência comunista e de restabelecer uma democracia pluralista em Portugal. O movimento contava com antigos militares, membros de partidos entretanto ilegalizados, industriais do Norte, retornados e apoios da Igreja Católica, operando num contexto de pré-guerra civil em que praticamente todos os partidos recebiam armas e a possibilidade de um conflito aberto era encarada a sério.
Rui Ramos é cético quanto à dimensão real do MDLP. Argumenta que a atribuição de centenas de atentados e de dez mortos ao movimento resulta de uma mistificação conveniente tanto para o Partido Comunista - que assim desacreditava a resistência popular genuína no Norte - como para o próprio Alpoim Calvão, que tinha interesse em inflar a importância da organização. Na prática, o MDLP era uma estrutura fraca e desorganizada, facilmente infiltrada por um jornalista alemão de esquerda, e a chamada "rede bombista" que continuou atividades violentas em 1976 era constituída por grupos marginais sem coordenação política real, alguns dos quais usavam a capa ideológica para cobrir atividades criminosas comuns. A organização foi oficialmente dissolvida por Spínola em abril de 1976, após a aprovação da Constituição e a eleição da Assembleia da República.
A parte mais desenvolvida do episódio é precisamente a comparação entre o MDLP e as FP-25. Os dois apresentadores identificam três diferenças fundamentais. A primeira é o contexto: o MDLP operou num ambiente de ausência de garantias democráticas, com partidos proibidos, prisões sem acusação e perspetiva real de guerra civil; as FP-25 atuaram entre 1980 e 1987 numa democracia consolidada, com eleições livres, rotação do poder e Estado de Direito. A segunda diferença respeita aos objetivos: o MDLP pretendia instaurar a democracia pluralista e dissolveu-se quando a considerou garantida; as FP-25 negavam a legitimidade do próprio processo democrático, substituindo-o por uma lógica de justiça revolucionária autoatribuída. A terceira diferença é comportamental: os líderes do MDLP assumiram publicamente a sua participação, o que revela que acreditavam poder ser avaliados positivamente; os líderes das FP-25 nunca se identificaram, o que demonstra consciência de que as suas ações seriam reprovadas pela generalidade da sociedade.
A conclusão de Rui Ramos é clara: amalgamar as duas organizações é intelectualmente desonesto. O recurso à violência é sempre lamentável e os crimes cometidos são crimes em qualquer caso, mas o contexto, os fins e a natureza de cada organização justificam juízos históricos distintos - da mesma forma que a resistência francesa de 1944 ou os conspiradores contra Hitler não são tratados da mesma maneira que outros autores de violência política em regimes democráticos.
Personagens
- Otelo Saraiva de Carvalho
- António de Spínola
- Vasco Gonçalves
- Álvaro Cunhal
- Alpoim Calvão
- José Miguel Júdice
- Diogo Pacheco de Amorim
- Mário Soares
- Costa Gomes
- Vasco Lourenço
- Vitor Alves
- Melo Antunes
- Pinheiro de Azevedo
- Günther Wallraff
- Paradela de Abreu
- Emílio Guerreiro
- Paulo Inácio
- Claus von Stauffenberg
- Lee Harvey Oswald
- Adolf Hitler
- John F. Kennedy
- Padre Max
Lugares/Países
- Portugal
- Angola
- Moçambique
- Guiné-Bissau
- Espanha
- Brasil
- Estados Unidos
- Alemanha
- França
- Itália
- União Soviética
- Açores
- Madeira
Épocas
- 25 de Abril de 1974
- PREC (1974-1976)
- Estado Novo
- Década de 1980
- Segunda Guerra Mundial
Temas
- revolução
- terrorismo
- guerra civil
- descolonização
- violência política
- democracia
- ditadura
- guerrilha
- comunismo
- nacionalizações
- liberdade de imprensa
- direitos políticos
Eventos
- 25 de Abril de 1974
- 11 de Março de 1975
- 28 de Setembro de 1974
- Verão Quente de 1975
- Eleições de 25 de Abril de 1975
- Eleições de 25 de Abril de 1976
- Ocupação da Rádio Renascença
- Cerco ao Patriarcado de Lisboa
- Assassinato do Padre Max
- Revisão Constitucional de 1982
- Entrada na CEE (1986)
Guerras e conflitos
- Guerra Colonial Portuguesa
- Guerra Civil de Angola
- Segunda Guerra Mundial
Livros citados
- Memórias de Alpoim Calvão (1976)