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Nº 1706 de novembro de 201942:32análise histórica

O muro de Berlim, Vasco da Gama na Índia e a invenção do WC

O episódio analisa três temas principais: a queda do Muro de Berlim em 1989 como acontecimento histórico decisivo, a controvérsia sobre um quadro colonial na Assembleia da República e a natureza das relações entre portugueses e povos encontrados nos Descobrimentos, e a transformação da infância através da redução da mortalidade infantil e evolução dos padrões de higiene até à invenção moderna da casa de banho.

Ideias principais

  1. A queda do Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989 foi em parte acidental, resultando de uma conferência de imprensa confusa de Günther Schabowski e da decisão de guardas fronteiriços de não reprimir as multidões, demonstrando que ditaduras colapsam quando ninguém tem coragem de disparar.
  2. O comunismo europeu revelou-se insustentável sem repressão militar soviética, e mesmo após décadas de propaganda, as populações nunca foram verdadeiramente convertidas à ideologia, manifestando rapidamente outras persuasões políticas e religiosas após 1989.
  3. Os portugueses dos séculos XV-XVI não tinham poder militar para subjugar os povos que encontravam na Índia ou Japão, ao contrário das potências coloniais do século XIX, sendo frequentemente obrigados a negociar e estabelecer alianças comerciais em vez de conquistar territorialmente.
  4. A mortalidade infantil era tão elevada antes do século XX que a maioria das famílias perdia vários filhos antes do primeiro ano de vida, criando uma sociedade com luto permanente e uma relação completamente diferente com a infância e a morte.
  5. A obsessão moderna com a higiene resultou das descobertas médicas do século XIX sobre germes e infecções, embora práticas de limpeza existissem anteriormente associadas a purificação religiosa em vez de preocupações sanitárias.

Resumo do episódio

Este episódio do podcast *E o Resto é História* aborda quatro temas distintos, unidos por uma curiosidade comum sobre o passado: a queda do Muro de Berlim, a representação dos Descobrimentos portugueses, a mortalidade infantil e a história da higiene.

A conversa começa com a aproximação do trigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim, a 9 de novembro de 1989. Rui Ramos e João Miguel Tavares debatem se este acontecimento constituiu o momento histórico mais marcante das suas gerações, concluindo que foi, provavelmente, o fim simbólico do século XX - o colapso do mundo bipolar nascido da Segunda Guerra Mundial. O historiador explica as causas estruturais da implosão soviética: o atraso tecnológico em relação ao Ocidente, a falência económica da União Soviética, a sua dependência de exportações de matérias-primas e de crédito externo, e a catástrofe de Chernobyl como símbolo do declínio científico do regime. Salienta-se ainda o papel quase acidental da própria queda do muro: um dirigente comunista da Alemanha de Leste, Günther Schabowski, numa conferência de imprensa, deu a entender que os cidadãos podiam atravessar a fronteira imediatamente, gerando multidões junto ao muro. Um agente da polícia política, sem coragem para ordenar a repressão, acabou por mandar abrir as passagens. Ramos sublinha que, retirada a ameaça de intervenção soviética, os regimes comunistas da Europa de Leste desmoronaram de imediato, provando que nunca tinham tido sustentação popular real. Passados setenta anos de comunismo na União Soviética, as pessoas não tinham sido convertidas à ideologia, e isso ficou evidente na rapidez com que dirigentes do partido abraçaram outras correntes políticas.

O segundo tema surge a partir de uma polémica mediática envolvendo uma deputada fotografada debaixo de um quadro na Assembleia da República que representa a chegada de Vasco da Gama à Índia. Ramos aproveita a ocasião para questionar a tendência de projetar no passado português dos séculos XV e XVI imagens do imperialismo europeu do século XIX e XX. Na época dos Descobrimentos, os portugueses eram poucos, estavam longe das suas bases de reforço e tinham capacidade militar limitada em terra. O exemplo do Japão é elucidativo: os japoneses expulsaram os portugueses de Nagasaki no século XVII e massacraram os cristãos convertidos, sem qualquer resposta eficaz de Lisboa. A primeira tendência dos portugueses era estabelecer relações comerciais e alianças, tratando os povos não muçulmanos como potenciais aliados. Ramos acrescenta que, já na época, havia consciência moral sobre a violência exercida - presente em autores como Gil Vicente e nos próprios *Lusíadas* - e que o debate sobre a legitimidade da conquista e da submissão de outros povos era contemporâneo dos próprios acontecimentos.

O terceiro bloco responde a uma pergunta de um ouvinte sobre a condição das crianças no passado e a mortalidade infantil. Ramos problematiza a ideia de que a infância seria uma invenção recente, apontando que a valorização da criança como ser inocente e em formação tem raízes profundas na tradição cristã. Ao mesmo tempo, reconhece que tratar as crianças como tal era, na prática, um privilégio das classes mais abastadas, que podiam dispensar o seu trabalho. A mortalidade infantil era esmagadora antes do século XX - uma grande parte dos óbitos registados ocorria antes do primeiro ano de vida -, e a sua progressiva redução, associada a políticas de saúde pública e à melhoria das condições de vida, transformou radicalmente a forma como as sociedades encaram a infância.

O episódio encerra com a história da higiene e do WC, motivada pela pergunta de outro ouvinte sobre como viviam os lisboetas no início do século XX sem casas de banho. Ramos recorda o caso do médico húngaro Ignaz Semmelweis, que nos anos 1840 percebeu que a lavagem das mãos reduzia drasticamente a mortalidade em partos hospitalares, mas foi ignorado e acabou internado num manicómio. Foi necessário esperar pela teoria dos germes de Pasteur para que a higiene adquirisse o seu fundamento científico. O *water closet*, invenção de origem inglesa disseminada a partir de meados do século XIX, espalhou-se depois pelo continente europeu e pelos Estados Unidos. Os apresentadores concluem que

Personagens

  • Mikhail Gorbachev
  • Günther Schabowski
  • John F. Kennedy
  • Joseph Stalin
  • Vladimir Lenin
  • Marcelo Caetano
  • Afonso de Albuquerque
  • Vasco da Gama
  • Samorim de Calcutá
  • Gil Vicente
  • John Locke
  • Jean-Jacques Rousseau
  • Otto von Bismarck
  • Ignaz Semmelweis
  • Louis Pasteur
  • Joacine Katar Moreira
  • Domingos Rebelo
  • Shōgun

Lugares/Países

  • Alemanha
  • União Soviética
  • Estados Unidos
  • Berlim
  • Portugal
  • Hungria
  • Checoslováquia
  • Jugoslávia
  • Índia
  • Calcutá
  • Japão
  • Nagasaki
  • Angola
  • Moçambique
  • África
  • Inglaterra
  • Viena
  • Áustria
  • Prússia
  • Norte de África
  • América
  • Europa de Leste
  • Alemanha Ocidental
  • Alemanha Oriental

Épocas

  • Guerra Fria
  • século XX
  • anos 1980
  • anos 1950
  • anos 1960
  • século XIX
  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • Estado Novo

Temas

  • queda do comunismo
  • Guerra Fria
  • colonialismo
  • descobrimentos portugueses
  • escravatura
  • mortalidade infantil
  • saúde pública
  • higiene
  • religião
  • cristianismo
  • comércio
  • navegação
  • imperialismo
  • tecnologia
  • ditadura
  • revolução

Eventos

  • Queda do Muro de Berlim
  • 9 de novembro de 1989
  • 25 de Abril de 1974
  • Revolução de 1974
  • 11 de Setembro
  • Segunda Guerra Mundial
  • desastre de Chernobyl
  • Primavera de Praga 1968
  • assassinato de John F. Kennedy

Guerras e conflitos

  • Guerra Fria
  • Segunda Guerra Mundial
  • guerra civil na Jugoslávia

Livros citados

  • Silêncio (Shūsaku Endō)