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Nº 3404 de março de 202043:44resposta a ouvintes

O nascimento do Tribunal Constitucional em 1982

O episódio aborda a extinção do Conselho da Revolução e criação do Tribunal Constitucional em 1982, marco da normalização democrática portuguesa. Discute-se a prisão do jornalista desportivo Cândido de Oliveira no Tarrafal por colaboração com serviços secretos britânicos durante a II Guerra. Finalmente, explora-se a mobilidade social no Antigo Regime e as negociações do General Prim para colocar reis portugueses no trono espanhol em 1868-1870.

Ideias principais

  1. A revisão constitucional de 1982 pôs fim à tutela militar herdada do PREC, extinguindo o Conselho da Revolução e criando o Tribunal Constitucional, marcando a entrada de Portugal na normalidade democrática europeia.
  2. Entre 1976 e 1982, Portugal mantinha um sistema híbrido com Conselho da Revolução militar a funcionar como tribunal constitucional, presidente militar com poderes de demitir governos, e Forças Armadas independentes do poder civil.
  3. Cândido de Oliveira, jogador e jornalista desportivo fundador do jornal A Bola, foi preso e enviado ao Tarrafal em 1942 por integrar rede de sabotagem britânica preparada para resistir a eventual invasão alemã de Portugal.
  4. No Antigo Regime português, cerca de 6% dos adultos masculinos viviam à lei da nobreza, constituindo uma nobreza civil adquirida por habilitações, cargos e limpeza de sangue, distinta da fidalguia hereditária.
  5. O General Prim tentou fazer D. Luís I e depois D. Fernando II reis de Espanha após 1868, mas a recusa portuguesa levou à candidatura prussiana que desencadeou a Guerra Franco-Prussiana de 1870 e a unificação alemã.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* abre com uma referência a um episódio político recente: a tentativa falhada de eleger novos juízes para o Tribunal Constitucional, durante a qual um dos candidatos afirmou ter passado quarenta anos a preparar-se para integrar esse órgão - o que Rui Ramos e João Miguel Tavares aproveitam para recordar que o Tribunal Constitucional apenas foi criado em 1982. A partir daí, os apresentadores traçam o percurso histórico que conduziu à revisão constitucional desse ano, explicando o que significou a extinção do Conselho da Revolução e o nascimento de uma verdadeira justiça constitucional em Portugal.

Rui Ramos recorda que a Constituição de 1976, aprovada na sequência do PREC, mantinha características que a afastavam das democracias da Europa Ocidental: impunha o socialismo como objetivo do regime, vedava vários sectores à iniciativa privada e, sobretudo, consagrava um órgão de tutela militar - o Conselho da Revolução - que funcionava como guardião do regime. Este conselho era composto por militares, presidido pelo Presidente da República, ele próprio um general, e tinha a seu lado uma comissão constitucional com funções técnicas, mas sem poder de voto. O Presidente acumulava ainda a chefia efetiva das Forças Armadas, que por sua vez não dependiam do governo civil. Era um sistema que deixava muita gente à espera de uma eventual presidencialização ou bonapartização do regime. Neste contexto, os apresentadores reconhecem o papel discretamente decisivo do general Eanes, que resistiu a uma interpretação maximalista dos seus poderes e criou assim margem para a revisão constitucional. A mudança foi também impulsionada por figuras como Sá Carneiro, que mobilizou o país para essa revisão à frente da Aliança Democrática, e por Mário Soares, que colaborou com o PSD e o CDS no governo de Pinto Balsemão. A revisão de 1982 e a Lei de Defesa Nacional desse mesmo ano - da autoria de Freitas do Amaral, então ministro da Defesa - subordinaram finalmente as Forças Armadas ao poder civil. A desmilitarização da presidência só se completaria em 1986, com a eleição de Mário Soares, pondo fim a sessenta anos de presidentes militares. Quanto ao Tribunal Constitucional, os apresentadores enquadram a sua criação numa aspiração antiga, remontando ao final do século XIX, de instituir em Portugal uma justiça constitucional capaz de avaliar a constitucionalidade dos atos do poder político - tradição que os tribunais portugueses sempre recusaram adoptar, ao contrário do modelo anglo-saxónico.

A segunda parte do episódio é dedicada a Cândido de Oliveira, figura prometida no programa anterior. Jogador do Benfica, capitão da seleção nacional, árbitro, treinador, funcionário dos CTT e fundador do jornal *A Bola*, Cândido de Oliveira foi recrutado em 1941 por serviços secretos britânicos para integrar uma rede clandestina destinada a resistir a uma eventual invasão alemã de Portugal. O seu papel duplo consistia em recrutar jovens atletas para a rede e em explorar a sua posição nos CTT para estabelecer comunicações e escutas. O jornal *Stadium*, que dirigia e que os ingleses financiavam, serviria também para transmitir mensagens codificadas. A PIDE - então ainda Polícia de Vigilância - desmantelou a rede em março de 1942 e Cândido de Oliveira foi preso, alegadamente espancado e deportado para o campo do Tarrafal, onde permaneceu dezoito meses. Apesar desta experiência, regressou à atividade desportiva e jornalística, fundou *A Bola* em 1945, foi campeão nacional como treinador do Sporting e chegou a treinar o Flamengo no Brasil em 1950.

Na ronda de perguntas dos ouvintes, o episódio aborda dois temas adicionais. O primeiro é a mobilidade social no Portugal do Antigo Regime: Rui Ramos explica que existia uma "nobreza civil" acessível a quem vivesse "à lei da nobreza" - licenciados, oficiais, grandes negociantes, vereadores -, calculada em cerca de seis por cento dos adultos masculinos no final do século XVIII, e que esta camada viria a constituir a classe média liberal do século XIX. O segundo tema é o general espanhol Juan Prim, que esteve exilado em Portugal e, depois de derrubar Isabel II

Personagens

  • Vitalino Canas
  • Ramalho Eanes
  • Francisco Sá Carneiro
  • Mário Soares
  • Pinto Balsemão
  • Freitas do Amaral
  • Óscar Carmona
  • Cândido de Oliveira
  • Salazar
  • Napoleão Bonaparte
  • Nuno Gonçalo Monteiro
  • D. Luís I
  • D. Fernando II
  • D. Maria II
  • D. Antónia de Portugal
  • Maria Pia de Saboia
  • Juan Prim y Prats
  • Isabel II de Espanha
  • Napoleão III
  • Leopoldo de Hohenzollern
  • Amadeu de Saboia
  • Afonso XII de Espanha
  • General Narváez
  • Jorge Jesus

Lugares/Países

  • Portugal
  • Espanha
  • Europa Ocidental
  • França
  • Alemanha
  • Prússia
  • Inglaterra
  • Grécia
  • Brasil
  • Cabo Verde
  • Itália
  • Catalunha
  • América Latina
  • Trás-os-Montes

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • 1982
  • 1974-1975
  • PREC
  • Estado Novo
  • Segunda Guerra Mundial
  • Antigo Regime
  • século XVIII
  • Restauração de 1640
  • 1868-1870

Temas

  • direito constitucional
  • transição democrática
  • tutela militar
  • justiça constitucional
  • nobreza
  • ascensão social
  • espionagem
  • resistência
  • futebol
  • jornalismo desportivo
  • sucessão monárquica
  • diplomacia
  • mobilidade social
  • empreendedorismo
  • Revolução de 1974

Eventos

  • Revisão Constitucional de 1982
  • 25 de Novembro de 1975
  • Revolução de 25 de Abril de 1974
  • Adesão à CEE
  • Golpe de Estado de 1868 em Espanha
  • Guerra Franco-Prussiana de 1870
  • Unificação da Alemanha
  • Terceira República Francesa
  • Primeira República Espanhola

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Civil Espanhola
  • Guerra Franco-Prussiana de 1870
  • Guerras civis liberais em Espanha

Livros citados

  • Tarrafal, o Pântano da Morte