← Arquivo

Nº 25529 de maio de 202451:54análise histórica

O que mudou na cultura portuguesa desde 1974?

Episódio gravado ao vivo em Aveiro sobre as transformações culturais em Portugal nos 50 anos após o 25 de Abril de 1974. Rui Ramos identifica seis grandes novidades trazidas pela democracia: o fim da censura, o alargamento escolar, a substituição do francês pelo inglês, a ascensão de Fernando Pessoa sobre Camões como referência cultural, a fragmentação dos públicos com a privatização dos media e a internet, e a imigração como fenómeno cultural novo.

Ideias principais

  1. O fim da censura em 1974 não trouxe liberdade imediata, pois continuaram constrangimentos através de comissões ad hoc, nacionalizações da imprensa e controlo estatal dos media até aos anos 90.
  2. A massificação escolar iniciada no Estado Novo (primeira geração totalmente escolarizada em 1960) foi aprofundada pela democracia, criando pela primeira vez uma população culturalmente homogénea com acesso generalizado à cultura letrada.
  3. A substituição do francês pelo inglês como língua de referência cultural não foi apenas linguística mas trouxe novas referências políticas e culturais americanas, incluindo o conservadorismo liberal e novos movimentos de esquerda.
  4. Fernando Pessoa substituiu Camões como poeta de referência nacional a partir dos anos 80, especialmente após a publicação do Livro do Desassossego em 1982, correspondendo a uma cultura democrática mais plural, complexa e irónica.
  5. A fragmentação dos públicos com a privatização da televisão, internet e redes sociais destruiu a cultura de massas onde todos viam o mesmo programa, criando nichos culturais onde hoje o programa mais visto pode representar apenas 5-6% da audiência.

Resumo do episódio

Neste episódio gravado ao vivo em Aveiro, no âmbito da Conferência Cultura e Democracia dedicada aos cinquenta anos do 25 de Abril, Rui Ramos e João Miguel Tavares debatem as grandes transformações culturais que a democracia portuguesa trouxe consigo - ou que, pelo menos, com ela coincidem. Rui Ramos propõe seis novidades estruturantes que reorganizaram a vida cultural portuguesa desde 1974, e o episódio percorre cada uma delas.

A primeira e mais imediata transformação foi o fim da censura prévia, abolida no próprio dia 25 de Abril. Rui Ramos sublinha que o impacto mais profundo da censura não estava no que era cortado, mas no que nunca chegava a ser feito: a autocensura moldava escritores, jornalistas e artistas de forma invisível, politizando forçosamente toda a criação. Quem não tomava partido expresso era lido como estando também a tomar partido. Curiosamente, mesmo após a revolução, os constrangimentos não desapareceram de imediato: houve jornais suspensos em 1974 e, com as nacionalizações de 1975, grande parte da imprensa escrita passou para o controlo do Estado, situação que só foi sendo resolvida gradualmente até aos anos noventa.

A segunda novidade é o alargamento escolar. Os apresentadores rejeitam a ideia de que o Estado Novo manteve o país deliberadamente analfabeto: a escolarização universal de uma geração tinha sido alcançada já em 1960, e o ministro Veiga Simão falava em "democratização do ensino" ainda durante o marcelismo. O que a democracia fez foi ir mais longe, massificando o ensino superior e criando uma população com formação formal relativamente homogénea, do norte ao sul do país. Esta transformação alterou profundamente tanto os produtores como os consumidores de cultura, contribuindo para a erosão dos intermediários culturais - aquelas figuras que antes "digeriam" a cultura estrangeira para o público - e para a passagem de uma televisão pedagógica, à imagem da BBC, para uma televisão que responde aos gostos populares.

A terceira novidade é a substituição do francês pelo inglês como língua franca da cultura erudita. Rui Ramos situa esta mudança no contexto mais amplo da americanização da Europa após a Segunda Guerra Mundial. O francês fora, desde o século XVIII, a língua das elites e o centro simbólico da cultura ocidental; com o Plano Marshall e a integração europeia, o inglês foi progressivamente ocupando esse lugar. Em Portugal, a consequência foi não apenas uma mudança de instrumento linguístico, mas uma reorientação das referências culturais e políticas: surgiu uma direita conservadora de inspiração americana e um ativismo de esquerda de matriz igualmente americana - o chamado "politicamente correto" - que não teriam emergido da mesma forma num universo cultural francófono.

A quarta novidade é, talvez, a mais inesperada: a substituição de Camões por Fernando Pessoa como principal referência cultural portuguesa. Rui Ramos explica que Camões fora consagrado no século XIX como "santo laico" do liberalismo e do republicanismo, e o Estado Novo herdou essa sacralização. Fernando Pessoa, por sua vez, tornou-se progressivamente central a partir dos anos oitenta, sobretudo após a publicação do Livro do Desassossego em 1982. A obra pessoana, com os seus heterónimos, a sua ironia e o seu questionamento das identidades fixas, correspondia ao espírito de uma época que começava a interrogar as grandes certezas ideológicas. Numa democracia plural que superava a polarização revolucionária dos anos setenta, Pessoa encarnava melhor do que Camões a complexidade do momento.

Personagens

  • Veiga Simão
  • Marcelino das Neves Alves Santos Marçal Caetano
  • Luís de Camões
  • Fernando Pessoa
  • Alberto Caeiro
  • Ricardo Reis
  • Álvaro de Campos
  • Jacinto do Prado Coelho
  • Miguel Esteves Cardoso
  • Eduardo Prado Coelho
  • Eça de Queirós
  • Camilo Castelo Branco
  • Júlio Dinis
  • Liev Tolstói
  • Napoleão Bonaparte
  • Francisco Fukuyama
  • William Shakespeare
  • Johann Wolfgang von Goethe
  • Miguel de Cervantes
  • Jorge de Sena
  • José Cardoso Pires
  • Agustina Bessa-Luís
  • Vitorino Nemésio
  • Taylor Swift
  • François Mitterrand
  • Valéry Giscard d'Estaing
  • Vasco da Gama
  • Dom Henrique
  • Philip Roth

Lugares/Países

  • Portugal
  • França
  • Estados Unidos
  • Inglaterra
  • Alemanha
  • Rússia
  • Brasil
  • África do Sul
  • Cabo Verde
  • Angola
  • Timor
  • Espanha
  • Itália
  • Algarve
  • Aveiro
  • Lisboa
  • Porto

Épocas

  • Estado Novo
  • 25 de Abril de 1974
  • Revolução de 1974
  • Ditadura Militar 1926-1974
  • Segunda Guerra Mundial
  • século XIX
  • século XX
  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • anos 30
  • anos 40
  • anos 50
  • anos 60
  • anos 70
  • anos 80
  • anos 90
  • década de 1980
  • Pós-25 de Abril

Temas

  • cultura
  • democracia
  • censura
  • educação
  • literatura
  • imprensa
  • televisão
  • rádio
  • língua francesa
  • língua inglesa
  • globalização
  • americanização
  • imigração
  • turismo
  • nacionalizações
  • liberalização dos media
  • internet
  • redes sociais
  • cultura de massas
  • identidade nacional
  • escolarização

Eventos

  • Revolução do 25 de Abril de 1974
  • 28 de Maio de 1926
  • 16 de Março de 1974
  • Nacionalizações de 1975
  • Queda do Muro de Berlim 1989
  • Comemorações Camonianas de 1880
  • Invasão francesa da Rússia 1812
  • Conquista de Ceuta 1415
  • Independência de Angola 1975
  • Plano Marshall 1947
  • Conferência Cultura e Democracia
  • Aveiro Capital Portuguesa da Cultura 2024

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Invasão napoleónica da Rússia

Livros citados

  • Os Lusíadas (Luís de Camões)
  • Livro do Desassossego (Fernando Pessoa)
  • Mensagem (Fernando Pessoa)
  • Guerra e Paz (Liev Tolstói)
  • Um Mau Tempo no Canal (Vitorino Nemésio)
  • A Conversa Acabada (filme/obra sobre Fernando Pessoa)