Nº 19903 de maio de 20231h07análise histórica
O regresso de De Gaulle ao poder e o Maio de 68
Episódio sobre dois momentos cruciais da França: o regresso de Charles de Gaulle ao poder em 1958 através do Golpe de Argel, que encerrou a instável Quarta República e fundou a Quinta República com uma Constituição presidencialista; e o Maio de 68, a revolução estudantil e cultural que abalou o regime gaullista mas que acabou por consolidar eleitoralmente o general, marcando simultaneamente o início do seu fim político.
Ideias principais
- A Quarta República Francesa (1946-1958) teve 21 governos em 12 anos devido a um sistema parlamentar proporcional fragmentado, mas conseguiu reconstruir a economia, integrar a França na Europa e manter o Partido Comunista fora do poder.
- De Gaulle estabeleceu em 1958 uma 'monarquia republicana' com poderes presidenciais sem precedente na democracia francesa, mantendo a regra pessoal de que teria de ganhar todas as eleições e referendos para se manter no poder.
- O Maio de 68 foi produto de uma massificação universitária sem precedentes (de 60 mil para 500 mil estudantes em 28 anos), de uma nova cultura juvenil pós-materialista e de um choque geracional visível entre baby boomers e a geração anterior.
- Paradoxalmente, De Gaulle traiu os militares que o levaram ao poder em 1958 ao preparar a retirada da Argélia, convencido de que a guerra colonial limitava o papel da França na Europa, o que levou ao Putsch de Argel de 1961.
- O Maio de 68 terminou com a maior vitória eleitoral gaullista de sempre (353 de 486 deputados), mas foi o começo do fim: De Gaulle demitiu-se em 1969 após perder um referendo menor, e a Quinta República nunca mais teve um presidente com igual autoridade.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares percorrem dois momentos decisivos da história francesa do século XX: o colapso da Quarta República e o regresso de Charles de Gaulle ao poder em 1958, e as convulsões do Maio de 68, dez anos depois. A pergunta de fundo é dupla: como é que um regime democrático pode ser derrubado por uma chantagem militar e depois legitimado pelas urnas, e de que modo uma revolta estudantil sem grande derramamento de sangue conseguiu transformar profundamente a sociedade francesa?
Rui Ramos começa por situar 1958 na longa tradição francesa de instabilidade constitucional. A Quarta República, fundada em 1946, reproduzia os vícios da Terceira: um presidente simbólico eleito pelo Parlamento, um sistema eleitoral proporcional que multiplicava os partidos e tornava inevitável a rotação acelerada de coligações frágeis. Em doze anos houve 21 governos. Apesar disso, o regime teve méritos reais: geriu a recuperação económica com o apoio do Plano Marshall, conteve a inflação, integrou a França na NATO e negociou a fundação da Comunidade Económica Europeia em 1957. O seu calcanhar de Aquiles foi o ultramar. Depois do desastre militar de Dien Bien Phu no Vietname em 1954, os governos da Quarta República decidiram resistir na Argélia, que não era vista como colónia mas como território metropolitano - três departamentos franceses com 1,4 milhões de colonos de ascendência europeia, na sua maioria nascidos ali. O corpo expedicionário enviado para conter a guerrilha da Frente de Libertação Nacional era composto por oficiais veteranos do Vietname, humilhados pela derrota anterior e convictos de que eram traídos pelos políticos de Paris. A 13 de maio de 1958, esses militares tomaram o poder em Argel e exigiram um governo de salvação nacional. Os paraquedistas ocuparam a Córsega e preparavam-se para marchar sobre Paris.
Foi neste contexto que o presidente René Coty chamou De Gaulle, que tinha abandonado a política em 1946 por discordar do modelo da Quarta República. De Gaulle aceitou, mas impôs condições: seis meses de poderes legislativos por decreto e a redação de uma nova Constituição. A Quinta República que daí resultou foi aprovada em referendo por 79% dos franceses e criou um regime que os apresentadores descrevem como uma espécie de monarquia republicana - um presidente eleito com grande legitimidade popular, capaz de dissolver o Parlamento e de demitir governos, mas governando através de um primeiro-ministro. De Gaulle acrescentou uma regra pessoal: abandonaria o poder se perdesse qualquer eleição ou referendo, fosse qual fosse a matéria em causa. Ironicamente, o general utilizou os poderes que lhe foram conferidos pelos militares colonialistas para preparar a retirada da Argélia, contra os interesses desses mesmos apoiantes.
A segunda parte do episódio é dedicada ao Maio de 68. Rui Ramos identifica três fatores estruturais. O primeiro é demográfico: entre 1939 e 1968, o número de estudantes universitários em França passou de 60 mil para 500 mil, numa geração de baby boomers que encheu universidades concebidas para elites. O segundo fator é cultural: uma ruptura geracional visível, com jovens que se vestiam, pensavam e viviam de forma radicalmente diferente dos mais velhos, beneficiando de prosperidade económica, do declínio das práticas religiosas e da recente legalização da pílula. O terceiro é político: esta juventude universitária radicalizou e massificou uma tradição boémia de contestação às hierarquias e aos valores burgueses, expressa em slogans como "é proibido proibir" ou "debaixo da calçada, a praia". Os sindicatos - muitos deles ligados ao Partido Comunista - aderiram com uma greve que mobilizou cerca de 11 milhões de trabalhadores.
O episódio culmina na figura de De Gaulle a desaparecer misteriosamente a 29 de maio, voando para Baden-Baden para garantir o apoio das forças militares francesas estacionadas na Alemanha. Regressado, o general convocou eleições em junho e os gaullistas obtiveram a maior maioria parlamentar da história da Quinta República. A França profunda não estava com os estudantes de Paris. Mas o Maio de 68 foi, ainda assim, o princípio do fim de De
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