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Nº 26614 de agosto de 202439:11resposta a ouvintes

O reino de Preste João e a história da Etiópia

O episódio explora a lenda medieval do Preste João e a sua identificação com a Etiópia, único reino cristão de África desde o século IV. Aborda a chegada de Pedro da Covilhã em 1494, a aliança militar luso-etíope do século XVI, a posterior ruptura devido às missões jesuítas, e a resistência da Etiópia à colonização europeia. A Etiópia manteve-se independente, derrotando a Itália em 1896, sendo também ela própria um império colonial africano.

Ideias principais

  1. A lenda medieval do Preste João misturava utopia cristã com informações vagas sobre cristandades isoladas pelo Islão, localizadas ora na Ásia ora em África até à sua identificação com a Etiópia no século XIV.
  2. A expedição militar portuguesa de 1541, comandada por Cristóvão da Gama (filho de Vasco da Gama), foi decisiva para salvar a Etiópia da conquista muçulmana otomana, mas a relação azedou um século depois devido à tentativa jesuíta de conversão ao catolicismo.
  3. A Etiópia foi simultaneamente um império colonial africano que triplicou de tamanho no século XIX, conquistando 80 grupos étnicos diferentes, e um símbolo de resistência africana ao colonialismo europeu.
  4. A vitória militar etíope sobre a Itália em 1896 na Batalha de Adwa, conseguida com armamento moderno francês e russo, fez da Etiópia a única nação africana (com a Libéria) a nunca ser colonizada, tornando-se símbolo pan-africano.
  5. As cores da bandeira etíope (vermelho, amarelo e verde) foram adoptadas por numerosos países africanos após as independências do século XX como homenagem à resistência histórica da Etiópia ao colonialismo europeu.

Resumo do episódio

Este episódio de *O Resto é História* dedica-se à Etiópia, abordando duas perguntas enviadas por ouvintes: a do mito do Preste João e a da singularidade da Etiópia como o único país africano que escapou à colonização europeia. Rui Ramos e João Miguel Tavares constroem uma narrativa de longa duração, desde a Antiguidade até ao século XX, para explicar como este território montanhoso do Corno de África acumulou uma história tão original no contexto africano.

O ponto de partida é a lenda medieval do Preste João, ou Presbítero João - um mítico rei sacerdote cristão que se julgava existir algures para além do mundo islâmico. A lenda alimentou-se de fontes diversas: tradições bíblicas sobre a evangelização da Ásia por São Tomé, informações vagas sobre cristandades isoladas no Cáucaso, e uma carta apócrifa que circulou pela Europa a partir do século XII. O que tornava a lenda apelativa era a ideia de um aliado cristão poderoso situado nas retaguardas do Islão, capaz de ajudar a cristandade europeia na sua luta contra os muçulmanos.

A história real por detrás da lenda é a do reino de Aksum, fundado cerca de 150 anos antes de Cristo na actual Etiópia, que chegou a dominar ambas as margens do Mar Vermelho. No século IV, tornou-se o segundo Estado do mundo a adoptar o cristianismo como religião oficial, a seguir à Arménia, recebendo missionários vindos do Egito e ficando ligado ao patriarcado de Alexandria. Com a conquista islâmica do Egito e do Médio Oriente nos séculos VII e VIII, os contactos regulares com a cristandade europeia quebraram-se, e a Etiópia mergulhou na obscuridade geográfica - obscuridade que alimentou e confundiu ainda mais a lenda. O isolamento foi sempre relativo: os Etíopes enviaram embaixadas a Veneza em 1402, ao rei de Aragão em 1427 e ao Papa em 1441, comunicando em latim, a única língua comum disponível.

É neste contexto que surgem os portugueses. A coroa portuguesa, interessada em flanquear os poderes islâmicos do norte de África, enviou Pedro da Covilhã em 1487 em busca desse reino cristão. Covilhã chegou à Etiópia em 1494, mas ficou retido lá, nunca regressando a Portugal. Quando uma missão portuguesa chegou finalmente em 1520, encontrou-o ainda vivo, a servir de intérprete. O contacto mais decisivo viria depois: em 1541, com três quartos da Etiópia já sob ocupação muçulmana e apoiada pelos otomanos, o rei D. João III enviou uma expedição de quatrocentos homens comandada por D. Cristóvão da Gama, filho de Vasco da Gama. A expedição foi militarmente determinante - o líder muçulmano foi morto por um soldado português em 1543 -, mas a aliança acabou mal. A partir de 1555, os jesuítas tentaram substituir o cristianismo ortodoxo etíope pelo catolicismo romano, gerando uma reacção violenta que culminou na expulsão dos portugueses em 1634, numa história que os apresentadores comparam ao que aconteceu no Japão na mesma época.

No final do século XIX, quando as potências europeias se lançaram à partilha de África, a Etiópia beneficiou de uma combinação de factores excepcionais: era um Estado consolidado com tradição monárquica, tinha uma identidade cristã que os europeus reconheciam como civilizada, e ocupava um território montanhoso de difícil penetração sem grandes recursos óbvios. O imperador Menelik II não só resistiu à pressão europeia como expandiu o próprio império, conquistando territórios vizinhos e triplicando a sua extensão - num processo que os apresentadores descrevem sem hesitação como colonialismo africano. Em 1896, o exército etíope derrotou a Itália em Adua, tornando-se um símbolo de resistência para toda a África e inspirando as bandeiras tricolores de dezenas de países africanos independentes no século XX. A Itália regressaria em 1935, sob Mussolini, e desta vez ocuparia o país, mas a ocupação foi sempre considerada ilegal pela Sociedade das Nações e durou apenas até 1941, quando os ingleses restauraram o imperador Haile Selassie. O episódio termina com uma nota sobre as guerras de independência internas, como a da

Personagens

  • Pedro da Covilhã
  • João II
  • Marco Polo
  • Preste João
  • Ricardo Vieira
  • Daniel Pilartes
  • São Tomé
  • Infante D. Henrique
  • Antón Gonçalves
  • Vasco da Gama
  • Francisco Alves
  • João III
  • Cristóvão da Gama
  • Iman Hamad
  • Menelik II
  • Mussolini
  • João XXII

Lugares/Países

  • Etiópia
  • Portugal
  • Egipto
  • Península Arábica
  • Arménia
  • Geórgia
  • Eritreia
  • Somália
  • Veneza
  • Aragão
  • Roma
  • Marrocos
  • Senegal
  • Índia
  • Japão
  • Líbia
  • Congo
  • Itália
  • França
  • Rússia
  • Inglaterra
  • Nigéria
  • África do Sul
  • Libéria
  • Bizâncio
  • Médio Oriente
  • Corno de África
  • Cáucaso
  • Israel
  • Holanda
  • Bélgica

Épocas

  • Idade Média
  • século XII
  • século XV
  • século I
  • século IV
  • século VII
  • século VIII
  • século XIV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XIX
  • século XX
  • anos 1530
  • anos 1880
  • anos 1960
  • anos 1990
  • 150 a.C.
  • Segunda Guerra Mundial

Temas

  • religião
  • cristianismo
  • expansão marítima
  • colonialismo
  • guerra
  • diplomacia
  • islamismo
  • missões religiosas
  • imperialismo
  • independência
  • resistência
  • ortodoxia oriental
  • judaísmo
  • exploração geográfica
  • lendas medievais

Eventos

  • Congresso de Berlim (1885)
  • Batalha de Adwa (1896)
  • Invasão italiana da Etiópia (1935-1936)
  • Discurso de Haile Selassie em Genebra (1936)
  • Independência da Eritreia (1991)
  • Evacuação dos judeus etíopes para Israel
  • Expulsão dos portugueses da Etiópia (1634)

Guerras e conflitos

  • Guerra colonial eritreia
  • Invasão muçulmana da Etiópia (década de 1530)
  • Guerra ítalo-etíope (1896)
  • Guerra ítalo-etíope (1935-1936)
  • Segunda Guerra Mundial

Livros citados

  • A Verdadeira Informação das Terras do Prestes João das Índias