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Nº 22715 de novembro de 20231h12análise histórica

O sionismo e a ideia de enviar judeus para Angola

Este episódio traça a história do sionismo desde as origens religiosas do conceito de 'regresso a Sião' no século VI a.C. até à criação do Estado de Israel em 1948 e à conquista de Jerusalém em 1967. Rui Ramos explica como o movimento sionista moderno emergiu na Europa do século XIX como resposta ao antissemitismo e ao nacionalismo, transformando uma aspiração religiosa milenar num projeto político secular. O episódio aborda também as propostas alternativas de território para os judeus, incluindo Angola, e os complexos processos de migração, partilha territorial e conflito que marcaram o estabelecimento de Israel.

Ideias principais

  1. O sionismo enquanto aspiração religiosa ao regresso a Jerusalém existe há 2500 anos, desde o exílio babilónico do século VI a.C., mas transformou-se num movimento político secular apenas no fim do século XIX na Europa.
  2. A proposta britânica de criar um 'lar' (home) para os judeus na Palestina através da declaração Balfour de 1917 foi deliberadamente ambígua e contraditória, pois os britânicos prometiam simultaneamente território aos árabes e aos judeus.
  3. Houve múltiplas propostas alternativas para um território judeu, incluindo Uganda, Argentina, e até o Planalto de Benguela em Angola (discutido no Parlamento Português em 1912-13), mas nenhuma oferecia a independência política nem a ligação histórica de Israel.
  4. A população de Israel formou-se não apenas por migração europeia mas também pela expulsão de judeus dos países árabes após 1948, sendo que metade da população israelita nos anos 50 era originária do Médio Oriente e Norte de África.
  5. O projeto sionista só se realizou plenamente em 1967 com a conquista de Jerusalém Oriental na Guerra dos Seis Dias, permitindo pela primeira vez em quase 2000 anos o acesso judaico ao Muro das Lamentações sob autoridade judaica.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares dedicam-se a contar a história do sionismo, o movimento político que conduziu à criação do Estado de Israel em 1948. O ponto de partida é uma questão aparentemente simples: quando nasceu o sionismo e como evoluiu até à fundação de Israel? A resposta obriga a um recuo de mais de dois milénios, pois as raízes do movimento são inseparáveis da memória religiosa e cultural do povo judeu.

Os apresentadores explicam que a ideia de um regresso a Sião - nome associado a Jerusalém e à sua colina - remonta pelo menos ao século VI antes de Cristo, quando os israelitas foram deportados para a Babilónia após a destruição do primeiro templo. Desde então, o desejo do regresso à terra de Israel tornou-se um elemento estruturante do judaísmo, expresso ritualisticamente em festas como o Yom Kippur e a Páscoa judaica, onde se repetia o voto "para o ano em Jerusalém". Com a destruição do segundo templo pelos romanos no ano 70 depois de Cristo e a subsequente diáspora, os judeus dispersaram-se por todo o mundo conhecido, mas mantiveram essa memória como parte central da sua identidade religiosa. Ramos sublinha ainda que Jerusalém é também cidade santa para o Cristianismo e para o Islão, o que explica séculos de disputa pela cidade, das Cruzadas à conquista muçulmana.

O sionismo como movimento político organizado surge, porém, apenas no final do século XIX, na Europa Central, tendo Theodor Herzl como figura tutelar. A sua novidade reside em ser um movimento essencialmente secular: os seus promotores não eram motivados pela religião, mas por duas lógicas do seu tempo. Por um lado, a ideia de Estado-nação, dominante na Europa oitocentista, levava a que cada povo devesse ter o seu próprio Estado - e os sionistas passaram a conceber os judeus como uma nação que necessitava do mesmo direito. Por outro lado, o recrudescimento do antissemitismo, em países como a França e o Império Russo, convencia-os de que a única protecção duradoura seria a soberania política. Dos cerca de oito milhões de judeus que viviam entre a Rússia e a Áustria-Hungria, a grande maioria não rumou, contudo, à terra de Israel, mas sim à Europa Ocidental e, sobretudo, aos Estados Unidos.

A Primeira Guerra Mundial e o seu rescaldo foram decisivos. Em 1917, o governo britânico emitiu a Declaração Balfour, prometendo apoio à criação de um "lar" para os judeus na Palestina - com a ressalva de que os direitos das populações locais deveriam ser respeitados. Com o colapso do Império Otomano, a Grã-Bretanha obteve o mandato sobre a Palestina, mas, pressionada simultaneamente por árabes e por judeus, nunca clarificou as suas intenções. Nos anos 20 e 30, a imigração judaica foi crescendo, impulsionada pelas perseguições na Europa de Leste e, mais tarde, pela ascensão de Hitler. Os judeus organizaram-se numa comunidade semi-autónoma - o Yishuv - com órgãos de governo próprios e milícias de defesa. Em paralelo, as populações árabes da Palestina desenvolveram uma identidade nacional própria, em reacção à imigração judaica. Após a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, a pressão internacional tornou insustentável a continuação do mandato britânico, e em 1947 as Nações Unidas propuseram a partilha do território entre dois Estados. Os árabes recusaram; os judeus aceitaram e proclamaram Israel em 1948. Os apresentadores notam que o projecto sionista só ficou simbolicamente completo em 1967, com a conquista de Jerusalém Oriental na Guerra dos Seis Dias, quando os paraquedistas israelitas chegaram pela primeira vez ao Muro das Lamentações sob soberania judaica.

No final do episódio, os dois apresentadores abordam uma questão enviada por um ouvinte: a possibilidade, discutida no Parlamento português por volta de 1912-1913, de instalar uma grande comunidade judaica no Planalto de Benguela, em Angola. Ramos explica que Portugal, à semelhança de outros países como o Reino Unido com o Uganda, precisava de gente e capitais para desenvolver as suas colónias africanas, e via nos judeus russos uma solução barata de colonização. Contudo, do ponto de vista do projecto sionista, tal proposta era inviável: implicava

Personagens

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  • Maomé
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  • Lawrence da Arábia
  • Hitler
  • Rommel
  • Abdullah da Jordânia

Lugares/Países

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Épocas

  • século X a.C.
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  • Primeira Guerra Mundial
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  • 1944-45
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  • 1948
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  • 2005

Temas

  • sionismo
  • antissemitismo
  • nacionalismo
  • religião
  • judaísmo
  • cristianismo
  • islão
  • diáspora
  • migração
  • colonialismo
  • imperialismo
  • mandatos internacionais
  • guerra
  • guerrilha
  • partilha territorial
  • deslocações de população
  • Holocausto
  • autodeterminação dos povos
  • Estado-nação
  • refugiados

Eventos

  • destruição do Primeiro Templo
  • destruição do Segundo Templo
  • exílio da Babilónia
  • Cruzadas
  • declaração Balfour
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Holocausto
  • criação do Estado de Israel
  • Guerra dos Seis Dias
  • partilha da Índia e do Paquistão
  • revolta árabe na Palestina

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Cruzadas
  • Guerra dos Seis Dias
  • guerra entre Boers e Império Britânico

Livros citados

  • Bíblia
  • Antigo Testamento
  • Novo Testamento
  • Tora
  • Talmud