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Nº 34917 de março de 202636:00efeméride

“O Último dos Moicanos”: os índios da costa Leste

Episódio dedicado aos 200 anos da publicação de 'O Último dos Moicanos' de James Fenimore Cooper, romance que retrata os índios da costa leste americana durante a Guerra Franco-Indígena (1756-1763). Rui Ramos explica as diferenças entre estes índios semi-sedentários, que viviam em florestas e praticavam agricultura itinerante, e os índios nómadas das pradarias. O episódio aborda a integração forçada destas populações nas alianças europeias, o seu declínio demográfico devido a doenças e expulsão, e como Cooper transformou esta realidade em literatura romântica, criando mitos fundadores da identidade americana.

Ideias principais

  1. Os índios da costa leste (como moicanos, iroqueses e hurons) eram muito diferentes dos índios das pradarias retratados nos westerns: viviam em florestas, praticavam agricultura itinerante de milho e eram semi-sedentários, enquanto os das pradarias eram caçadores nómadas de bisonte.
  2. Tanto França como Inglaterra protegiam os índios contra os colonos europeus, proibindo a sua escravização e limitando a expansão territorial, porque precisavam deles como aliados militares nas guerras entre potências europeias na América do Norte.
  3. A população europeia na costa leste cresceu exponencialmente entre 1750 e 1826 (de 1 milhão para 13 milhões), enquanto a população índia diminuiu drasticamente devido a doenças europeias como a varíola, tornando os índios uma minoria no seu próprio território.
  4. James Fenimore Cooper nunca teve contacto real com índios e baseou-se em relatos de missionários dos séculos XVII-XVIII para escrever 'O Último dos Moicanos', transpondo essencialmente a estrutura dos romances medievais de Walter Scott para o contexto americano.
  5. O romance captura o mito romântico do 'último representante de uma raça em extinção', reflectindo tanto a realidade da expulsão forçada dos índios para oeste do Mississippi nos anos 1810-1820 como a nostalgia europeia oitocentista por modos de vida pré-industriais que estavam a desaparecer.

Resumo do episódio

O episódio parte de um pretexto literário e cinematográfico - os duzentos anos da publicação de *O Último dos Moicanos*, de James Fenimore Cooper, em 1826, e a conhecida adaptação ao cinema de Michael Mann, de 1992 - para explorar a história dos povos indígenas da costa atlântica da América do Norte, o seu contacto com os colonos europeus e o conflito conhecido como a Guerra Franco-Indígena, pano de fundo do romance.

Rui Ramos começa por enquadrar demograficamente e culturalmente os índios da América do Norte. Ao contrário das populações da América Central e dos Andes, que viviam em impérios populosos com grandes cidades e metalurgia avançada, os índios da costa leste dos actuais Estados Unidos e Canadá eram muito menos numerosos - talvez um milhão no início do século XVI - e viviam em tribos relativamente pequenas. Praticavam uma agricultura itinerante baseada no milho, complementada pela caça e pela pesca, sem animais domésticos de grande porte e com uma metalurgia rudimentar. Estavam organizados em grupos linguísticos e culturais distintos, como os Iroqueses, os Huron e os Algonquinos (de que os Mohicanos fazem parte), e mantinham entre si conflitos frequentes e violentos. Estes índios da costa leste distinguem-se claramente dos índios das pradarias - como os Sioux -, caçadores nómadas que só adoptaram o cavalo no século XVIII e cujo confronto mais intenso com os colonos europeus se deu muito mais tarde, já em meados do século XIX: são estes últimos os índios dos filmes de cowboys.

A chegada dos europeus transformou profundamente estas sociedades. Franceses e ingleses instalaram-se na região e, por razões tanto humanitárias como estratégicas, procuraram proteger os índios dos excessos dos colonos, proibindo, por exemplo, a sua escravização. Ao mesmo tempo, integraram-nos em redes comerciais - o comércio de peles foi particularmente relevante no Canadá - e em alianças militares. Os índios adoptaram rapidamente armas de fogo e cavalos, tornando-se aliados valiosos nas guerras entre potências europeias. Quando a Guerra dos Sete Anos chegou à América, sob o nome de French and Indian War, tanto franceses como ingleses contavam com apoio de tribos indígenas. Foi neste contexto que ocorreu, em 1757, o massacre do Forte William Henry, no actual estado de Nova Iorque: após a rendição da guarnição inglesa a forças francesas, os aliados índios dos franceses atacaram os prisioneiros e civis que saíam do forte, matando algumas centenas e capturando muitos outros. Este episódio real é o núcleo histórico do romance de Cooper.

Os apresentadores discutem também as duas grandes imagens do índio que circulavam na literatura e no pensamento europeu: o "selvagem" violento e bárbaro, e o "bom selvagem", humanidade inocente e pura, associada por alguns missionários à possibilidade de construir uma nova cristandade não corrompida. Um jesuíta francês do início do século XVIII chegou mesmo a comparar os guerreiros iroqueses aos heróis homéricos. Cooper herda ambas as imagens e transpõe-as para um romance de aventuras romântico, ao estilo de Walter Scott, em que os Mohicanos surgem como índios nobres e os Huron como os vilões.

A publicação do romance em 1826 ocorre num momento em que os índios da costa leste eram já uma raridade visível: Nova Iorque passara de dez mil para duzentos mil habitantes em setenta anos, e os índios que resistiam à europeização estavam a ser forçados a abandonar os seus territórios e a deslocar-se para oeste do Mississípi. O próprio Cooper nunca tinha provavelmente visto um índio e baseou-se em relatos de missionários para escrever o livro. O romance tornou-se um fenómeno editorial global, o mais lido do século XIX na América, com enorme sucesso também na Europa, nomeadamente na Alemanha. O episódio termina com a nota de que os Mohicanos não desapareceram de facto: cerca de mil e quinhentos descendentes vivem hoje numa reserva no Wisconsin, sustentada sobretudo pela exploração de um casino - bem longe, concluem os apresentadores, do universo épico que Cooper imortalizou.

Personagens

  • James Fenimore Cooper
  • Michael Mann
  • Daniel Day-Lewis
  • Madeleine Stowe
  • Cristóvão Colombo
  • José François Lafitau
  • Walter Scott
  • Jane Austen
  • Homero
  • Ulisses
  • Heitor
  • Aquiles

Lugares/Países

  • Estados Unidos
  • Canadá
  • França
  • Inglaterra
  • Grã-Bretanha
  • Espanha
  • México
  • Peru
  • Brasil
  • Argentina
  • Europa
  • Ásia
  • Alemanha
  • Portugal

Épocas

  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • 1757
  • 1826
  • 1750
  • 1492
  • 1672
  • 1724
  • 1810
  • 1971
  • 1992

Temas

  • colonização
  • índios norte-americanos
  • guerra
  • literatura
  • cinema
  • missionação
  • escravatura
  • extermínio
  • comércio
  • agricultura
  • tecnologia
  • doenças
  • demografia
  • romantismo
  • cultura

Eventos

  • Guerra Franco-Indígena
  • Guerra dos Sete Anos
  • Independência dos Estados Unidos
  • Tomada do Forte William Henry
  • Massacre do Forte William Henry

Guerras e conflitos

  • Guerra Franco-Indígena
  • Guerra dos Sete Anos

Livros citados

  • O Último dos Moicanos
  • Ilíada