Nº 4122 de abril de 202041:10resposta a ouvintes
Onde está o grande palácio real português?
Episódio centrado em perguntas dos ouvintes sobre três temas portugueses: a inexistência de um grande palácio real identificável em Lisboa (o Paço da Ribeira destruído em 1755 nunca foi substituído), o destino dos responsáveis do Estado Novo após o 25 de Abril (maioria não foi punida, excepto agentes da PIDE), e a história dos casamentos e relações amorosas em Portugal (combinação de casamentos arranjados na aristocracia e amor livre nas classes populares).
Ideias principais
- Portugal teve um grande palácio real, o Paço da Ribeira, destruído pelo terramoto de 1755 e nunca reconstruído, primeiro por medo de terremotos, depois por falta de dinheiro após a independência do Brasil e a implantação da monarquia constitucional.
- Após o 25 de Abril apenas os agentes da PIDE foram sistematicamente presos e julgados; os restantes responsáveis do Estado Novo, incluindo ministros e generais, não foram punidos, pois a revolução foi feita por dentro do regime e o país quis seguir em frente sem retaliações massivas.
- As taxas de ilegitimidade no final do século XIX em Portugal eram significativas (12-13%, chegando a 22% em Vila Real), revelando que as relações sexuais fora do casamento eram comuns, contrariando a imagem de um passado puritano.
- Os casamentos arranjados eram exclusivos da grande aristocracia (cerca de 40-50 casas nobres); nas classes populares prevalecia a escolha individual baseada em afeição, embora restrita pelo mesmo estatuto social e condicionada pela pobreza que limitava o acesso ao matrimónio.
- O enriquecimento de Portugal a partir dos anos 1960 provocou uma explosão de casamentos, com a década de 1980 a registar o maior número de casamentos da história portuguesa, mostrando como a pobreza anterior limitava o acesso ao matrimónio formal.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* aborda três temas distintos, todos eles sugeridos por ouvintes: a ausência de um grande palácio real em Portugal, o destino dos colaboradores do Estado Novo após o 25 de Abril, e a natureza do casamento e das relações amorosas no passado português.
A primeira questão parte de uma observação simples: ao contrário de Espanha, França ou Reino Unido, Portugal não tem um palácio real de referência imediata, apesar de quase oito séculos de monarquia. Rui Ramos explica que palácios existiram de facto - Mafra, Queluz, Belém, as Necessidades -, mas nenhum se tornou o símbolo central da monarquia portuguesa. O edifício que poderia ter desempenhado esse papel era o Paço da Ribeira, mandado construir por D. Manuel no final do século XV e que funcionou como residência régia e sede de serviços do Estado, incluindo a Casa da Índia. Destruído pelo terramoto de 1755, nunca foi verdadeiramente substituído. D. José I recusou viver em Lisboa e instalou-se numa grande estrutura de madeira na Ajuda, que ardeu em 1794. Foi então iniciada a construção do actual Palácio da Ajuda, que deveria ser um edifício monumental, mas ficou apenas num terço do projecto original. As razões foram económicas - a independência do Brasil secou os rendimentos da Coroa - e políticas: com a monarquia constitucional, o rei deixou de concentrar todos os poderes e passou a depender de uma dotação do Estado, insuficiente para financiar grandes obras. A família real acabou por preferir residências nos arredores de Lisboa, em Sintra e Cascais, o que configura aquilo que os apresentadores designam, com alguma ironia, como uma monarquia suburbana.
O segundo tema é o da transição política após o 25 de Abril de 1974 e o tratamento dado aos colaboradores do regime deposto. Rui Ramos destaca que os funcionários da PIDE foram os mais duramente atingidos: cercados no próprio dia da revolução, detidos em seguida e julgados em tribunal militar, com cerca de 2667 processos. Alguns dirigentes estiveram presos vários anos. Fora desse grupo, porém, a opção do regime revolucionário foi notavelmente contida: Marcelo Caetano e Américo Tomás foram enviados para o Brasil sem julgamento, e durante os primeiros meses não houve prisões por mero exercício de cargos no Estado Novo. Esta moderação explica-se por várias razões. A revolução foi feita de dentro do próprio regime, por militares como Spínola e Costa Gomes que tinham sido figuras de confiança da ditadura. Além disso, o Estado Novo durara mais de quarenta anos e acolhera pessoas de convicções muito diversas - alguns dos novos protagonistas democráticos, incluindo líderes da esquerda, tinham sido procuradores da Câmara Corporativa ou colaboradores de Marcelo Caetano. Criminalizar o passado teria atingido parte do novo pessoal político. A partir do Outono de 1974, com a radicalização do processo revolucionário, multiplicaram-se as detenções e os saneamentos - cerca de vinte mil demissões e suspensões entre 1974 e 1975 -, mas estes visavam sobretudo suspeitos de conspiração contra-revolucionária, não necessariamente ex-colaboradores do regime. No final, o país optou por avançar sem grandes ajustes de contas, à semelhança do que aconteceu noutras transições democráticas, como a espanhola.
O terceiro tema é a história do amor e do casamento em Portugal. Rui Ramos desmonta a ideia de um passado de castidade rigorosa, apontando as taxas de nascimentos ilegítimos no final do século XIX - entre 12 e 22% consoante o distrito - como evidência de que as relações sexuais fora do casamento eram uma realidade corrente. O casamento arranjado como puro negócio fazia sentido sobretudo nas famílias nobres e abastadas, onde estavam em jogo alianças políticas, patrimónios e estatutos. Para a maioria da população, a afeição e a escolha individual terão sempre desempenhado um papel relevante. O que mudou com o enriquecimento do país a partir dos anos sessenta foi sobretudo o acesso ao casamento: os portugueses casaram-se mais e mais cedo porque passaram a ter meios para isso, e não porque antes fossem mais castos.
Personagens
- D. Manuel I
- D. Luís I
- D. Fernando II
- D. João V
- D. Carlos I
- D. Amélia
- Catarina de Bragança
- D. João VI
- D. Maria II
- Filipe II de Espanha
- Marcelo Caetano
- Américo Tomás
- António de Oliveira Salazar
- Mário Soares
- General António de Spínola
- General Costa Gomes
- Veiga de Simão
- Francisco Pereira de Moura
- Maria de Lourdes Pintasilgo
- Silva Pais
- Pereira de Carvalho
- Santos Costa
- Albino dos Reis
- Henrique Galvão
- Humberto Delgado
- Adriano Moreira
- Franco Nogueira
- Otelo Saraiva de Carvalho
- António Costa Pinto
- Nelson Mandela
- Eça de Queirós
- Luís de Camões
- Lito
- Miguel Torga
- Camilo Castelo Branco
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- França
- Reino Unido
- Brasil
- Guiné
- Angola
- África do Sul
- Alemanha
- Áustria
- URSS
Épocas
- século XV
- século XVI
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Estado Novo
- 25 de Abril de 1974
- PREC
Temas
- arquitetura palatina
- monarquia
- terramoto de 1755
- revolução
- ditadura
- democracia
- descolonização
- guerra colonial
- repressão política
- justiça transicional
- casamento
- relações amorosas
- ilegitimidade
- história social
Eventos
- Terramoto de 1755
- 25 de Abril de 1974
- Independência do Brasil
- 28 de Setembro de 1974
- Segunda Guerra Mundial
Guerras e conflitos
- Guerra Colonial
Livros citados
- Amor de Perdição