Nº 21813 de setembro de 202354:32resposta a ouvintes
Oppenheimer, o homem que criou a bomba atómica
Episódio dedicado à figura histórica de J. Robert Oppenheimer, diretor científico do Projeto Manhattan e chamado 'pai da bomba atómica', a propósito do filme de Christopher Nolan. Rui Ramos analisa as várias dimensões do cientista: a sua formação em física quântica, as ligações ao comunismo nos anos 30, o papel central na criação da bomba durante a Segunda Guerra Mundial, e a subsequente perseguição política na Guerra Fria. O episódio explora a complexidade moral de Oppenheimer, a tensão entre ciência e política numa democracia, e o drama pessoal de alguém que fez história mas foi depois ultrapassado por ela.
Ideias principais
- Oppenheimer representa o cientista do século XX como figura messiânica - alguém com enorme responsabilidade social, visto como capaz de moldar o futuro da humanidade, o que criava pressões psicológicas imensas mesmo antes da bomba atómica.
- O ambiente intelectual dos anos 30 levou muitos académicos e cientistas a simpatizar com o comunismo ou o fascismo, vistos como alternativas 'científicas' à democracia liberal e ao capitalismo, considerados ultrapassados após a Grande Depressão.
- A escolha de Oppenheimer para liderar o Projeto Manhattan teve uma dimensão política: o general Leslie Groves escolheu-o não apenas pela competência científica e de gestão, mas porque as suspeitas de comunismo o tornavam controlável e dependente da protecção militar.
- O encontro entre Oppenheimer e Truman após Hiroshima revela a verdadeira dimensão do cientista: ao dizer 'tenho sangue nas mãos', Truman responde com desprezo - foi o presidente que deu a ordem, não o cientista, reduzindo Oppenheimer a um 'pequeno elemento' da máquina de guerra.
- O filme de Nolan, baseado no estudo histórico 'American Prometheus', consegue transmitir a extraordinária complexidade de Oppenheimer como alguém que fez história mas foi imediatamente triturado por ela, perdendo o controlo sobre as consequências da sua criação.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre a figura histórica de J. Robert Oppenheimer, motivados pelo sucesso do filme de Christopher Nolan e pelas perguntas enviadas por um ouvinte. O ponto de partida é precisamente a relação entre a obra cinematográfica e o livro de história em que se baseia - *American Prometheus*, de Kai Bird e Martin Sherwin, uma biografia que demorou décadas a ser concluída e que ganhou o Prémio Pulitzer em 2006. Rui Ramos deixa claro que não pretende avaliar o filme como obra de arte nem julgá-lo num tribunal da história, mas antes aproveitar o interesse que suscitou para explorar quatro grandes questões históricas que o episódio desenvolve.
A primeira questão diz respeito ao estatuto singular dos cientistas nas primeiras décadas do século XX. Oppenheimer pertence a uma geração em que a ciência era vista não apenas como fonte de progresso técnico, mas como guia moral e social da humanidade. Figuras como Einstein tornaram-se verdadeiras estrelas mediáticas, tratadas com o fascínio reservado a quem acede a verdades inacessíveis ao comum dos mortais. Esta expectativa colossal explica, em parte, a complexidade psicológica de Oppenheimer: homem de vasta cultura humanista, leitor de sânscrito e dos textos sagrados do hinduísmo, ele carregava o peso de quem sentia ter a responsabilidade de dar forma ao mundo.
A segunda questão é o ambiente político e intelectual dos anos 1930 nos Estados Unidos. A Grande Depressão havia abalado a confiança na democracia liberal e no mercado livre, tornando o fascismo e o comunismo ideologias da moda nos meios académicos. Oppenheimer moveu-se nesse ambiente: a sua namorada e o seu irmão eram comunistas, ele próprio frequentava círculos de simpatizantes e foi vigiado pelo FBI desde cedo. Contudo, em 1943, quando foi discretamente sondado por um agente soviético para partilhar segredos do projecto Manhattan, recusou de forma inequívoca. Os apresentadores sublinham que Oppenheimer atravessou várias fases - simpatia, dúvida e, por fim, repúdio público do comunismo -, chegando a testemunhar contra antigos colegas, embora nunca sem grande custo pessoal.
A terceira questão é a da política na ciência, ou seja, como se faz ciência numa democracia. Oppenheimer não era Prémio Nobel, mas foi escolhido pelo general Leslie Groves para liderar o laboratório de Los Alamos precisamente porque reunia capacidades de gestão e liderança e, sobretudo, porque as suas ligações ao comunismo o tornavam dependente e controlável. Groves precisava de alguém brilhante, mas também de alguém sobre quem pudesse exercer ascendente. Esta dimensão política estende-se à rivalidade posterior entre Oppenheimer e Lewis Strauss: cada um usou audições públicas e o clima anticomunista alimentado pelo senador McCarthy para tentar dominar o outro, num jogo de influências que acabou por ditar a queda de Oppenheimer quando lhe foi retirada a credencial de segurança em 1954.
A quarta questão, e talvez a mais perturbadora, é a da má consciência de Oppenheimer após o lançamento das bombas atómicas sobre o Japão em agosto de 1945. O episódio descreve a cena, presente no filme, em que Oppenheimer diz ao presidente Truman ter sangue nas mãos, ao que Truman responde com desprezo, lembrando que foi ele, e não o cientista, quem tomou a decisão. Este momento é interpretado por Rui Ramos como a redução de Oppenheimer à sua verdadeira dimensão: o homem que ajudou a criar a arma, mas que não detinha o poder de a usar. A célebre citação do *Bhagavad Gita* - «tornei-me a morte, o destruidor dos mundos» - adquire assim uma ressonância irónica: exprime simultaneamente o que Oppenheimer temia ter-se tornado e aquilo que, no fundo, desejava ser. A história que ele ajudou a fazer escapou-lhe das mãos, e é essa tensão entre o indivíduo e as forças que desencadeou que os apresentadores identificam como o verdadeiro núcleo dramático da sua vida.
Personagens
- J. Robert Oppenheimer
- Christopher Nolan
- Albert Einstein
- Julius Robert Oppenheimer
- Kay Bird
- Martin Sherwin
- Jimmy Carter
- Lewis Strauss
- Robert Downey Jr.
- Eurico de Barros
- Leslie Groves
- Matt Damon
- Niels Bohr
- Enrico Fermi
- Werner Heisenberg
- Adolf Hitler
- Joseph Stalin
- Dwight Eisenhower
- Harry Truman
- Joseph McCarthy
- Trofim Lysenko
- Isaac Newton
- Elon Musk
- Mark Zuckerberg
Lugares/Países
- Estados Unidos
- Alemanha
- União Soviética
- Rússia
- Japão
- Inglaterra
- Itália
- Polónia
- China
- Checoslováquia
Épocas
- século XX
- século XIX
- década de 1920
- década de 1930
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- anos 1940
- anos 1950
- anos 1960
Temas
- ciência
- física quântica
- energia nuclear
- armas atómicas
- comunismo
- guerra
- política
- espionagem
- anticomunismo
- democracia
- fascismo
- nazismo
- judaísmo
- religião
- hinduísmo
- academia
- McCarthyismo
- cinema
- biografia
Eventos
- Projeto Manhattan
- bombardeamento de Hiroshima
- bombardeamento de Nagasaki
- Grande Depressão de 1929
- teste nuclear de 1945
- cerco de Berlim
- tomada de poder comunista na Checoslováquia
- tomada de poder comunista na China
- inquérito da Comissão de Energia Atómica de 1954
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
Livros citados
- American Prometheus: The Triumph and Tragedy of Robert Oppenheimer
- Bhagavad Gita