Nº 35024 de março de 202639:06análise histórica
Ormuz: o estreito que já foi dominado por Portugal
O episódio explora o domínio português do Estreito de Hormuz entre 1507 e 1622, uma posição estratégica fundamental para o controlo do comércio no Oceano Índico. Rui Ramos detalha como Afonso de Albuquerque estabeleceu uma rede de fortalezas que permitiu a Portugal dominar as rotas comerciais asiáticas durante um século, em aliança com poderes locais e beneficiando da rivalidade entre impérios otomano e safávida. O episódio desmistifica a lenda negra do imperialismo europeu, mostrando como sultanatos locais copiaram e continuaram práticas imperialistas portuguesas, incluindo o tráfico massivo de escravos.
Ideias principais
- Portugal controlou o Estreito de Hormuz durante 115 anos (1507-1622), uma das posições mais lucrativas do império asiático, onde a capitania era a mais cara de todo o Estado da Índia.
- O domínio português no Índico foi possível porque os grandes impérios terrestres da região (Mogóis, Safávidas, Otomanos) não tinham marinhas de guerra, permitindo aos portugueses controlar os estreitos estratégicos sem enfrentar grandes armadas.
- D. Manuel I concebia a presença portuguesa na Ásia não como empresa comercial mas como base para uma cruzada à conquista de Jerusalém, enquanto o Shah da Pérsia ambicionava conquistar Meca, levando a planos de aliança messiânica nunca concretizados.
- A queda de Hormuz em 1622 resultou da aliança entre Inglaterra e a Pérsia safávida, demonstrando a emergência de novas potências navais europeias (Inglaterra e Holanda) que copiaram a estratégia portuguesa de controlo dos estreitos.
- Após expulsar os portugueses, o Sultanato de Oman replicou o modelo imperial português, tornando Zanzibar num dos maiores centros de tráfico de escravos africanos (50 mil por ano em 1850), desmentindo a narrativa de que apenas europeus praticaram imperialismo violento.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares tomam como ponto de partida a centralidade geopolítica do Estreito de Ormuz nos conflitos contemporâneos para recuar no tempo e explorar o período em que Portugal dominou aquela passagem estratégica. Com apenas três quilómetros de largura nas rotas navegáveis, Ormuz separa o Golfo Pérsico do Golfo de Omã, sendo a porta de entrada e saída de uma região que foi, no passado, cruzamento das rotas das especiarias, das sedas e das pedras preciosas, e que hoje concentra as reservas mundiais de petróleo e gás natural.
Os apresentadores contextualizam a chegada dos portugueses ao Índico no início do século XVI, explicando que o objetivo não era apenas dominar o comércio de especiarias com a Europa pela Rota do Cabo, mas também controlar o comércio interno do oceano, que era financeiramente muito lucrativo. Para o rei D. Manuel, porém, a presença no Índico tinha uma dimensão mais ambiciosa: era a base para uma cruzada que permitisse libertar Jerusalém pelo Mar Vermelho, numa visão partilhada por Afonso de Albuquerque, mas contestada por figuras como D. Francisco de Almeida. O Índico era então percorrido por comerciantes privados, sem grandes armadas que se lhes opusessem, e os estreitos estratégicos - Ormuz, Áden e Malaca - eram controlados por pequenos estados independentes, o que tornava possível a uma potência com recursos limitados impor o seu domínio.
Albuquerque, enviado como comandante das armadas da Pérsia e da Arábia em 1506, conquista Mascate em 1507 e pressiona o rei de Ormuz a aceitar a soberania portuguesa e a construção de uma fortaleza. A rede de feitorias e fortalezas de pedra - Ormuz, Goa em 1510, Malaca em 1511 - define o esqueleto do Estado português na Ásia. A artilharia embarcada nas grandes naus e a solidez das fortalezas de pedra, difíceis de demolir ao contrário das construções locais em adobe, são os dois pilares militares desta presença. Ramos sublinha que, sem alianças com poderes locais, como o próprio rei de Ormuz, este domínio teria sido impossível: os portugueses partilhavam metade das receitas aduaneiras com o sultão e respeitavam as mesquitas e os muçulmanos residentes.
O episódio dedica também atenção à dimensão diplomática, nomeadamente à relação com os Safávidas persas, xiitas, que os portugueses inicialmente confundiram com uma religião diferente do islão. Apesar das tensões sobre o tributo de Ormuz, chegou a haver projetos de aliança luso-persa contra mamelucos e otomanos, com a fantástica partilha dos lugares santos: Jerusalém para Portugal, Meca para o Irão. O plano nunca avançou, mas a rivalidade entre otomanos e safávidas beneficiou os portugueses durante décadas.
A perda de Ormuz chegou em 1622, ao fim de cento e quinze anos, quando uma esquadra inglesa apoiou os iranianos na conquista da ilha. Os portugueses tentaram reconquistá-la em 1625, num combate que os historiadores consideram a maior batalha naval do Golfo Pérsico, um empate que demonstrou simultaneamente a resistência portuguesa e a impossibilidade de recuperar o domínio exclusivo dos mares face aos novos concorrentes europeus, ingleses e holandeses. A perda de Malaca para a Holanda em 1641 selou o fim do controlo português dos estreitos. Ormuz foi depois progressivamente abandonada pelo Shah Abbas em favor do porto de Bandar Abbas, na costa iraniana, e a ilha encontra-se hoje deserta, restando apenas as ruínas do forte português.
Personagens
- Afonso de Albuquerque
- D. Manuel I
- Vasco da Gama
- D. Francisco de Almeida
- João de Barros
- São Francisco Xavier
- Sanjay Subrahmanyam
- Luís Filipe Thomaz
- Fernando Braudel
- João Teles e Cunha
- Shah Ismail I
- Shah Abbas I
Lugares/Países
- Portugal
- Irão
- Pérsia
- Oman
- Iraque
- Índia
- Egito
- Síria
- Bahrein
- China
- Holanda
- Inglaterra
- Veneza
- Itália
- Turquia
- Império Otomano
- Península Arábica
- Marrocos
- Zanzibar
- Mombassa
- África Oriental
- Goa
- Malaca
- Calicut
Épocas
- século XV
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- princípio do século XVI
- fim do século XV
- meados do século XVI
- segunda metade do século XVII
Temas
- comércio marítimo
- império colonial
- expansão portuguesa
- guerra naval
- diplomacia
- religião
- cruzadas
- especiarias
- arquitetura militar
- escravatura
- alfândegas
- imperialismo
- xiismo
- sunismo
- pirataria
- alianças militares
- corrupção
Eventos
- Batalha de Diu
- Conquista de Goa
- Conquista de Malaca
- Conquista de Mascate
- Conquista de Hormuz
- Cerco de Hormuz (1625)
- Batalha naval do Golfo Pérsico (1625)
- Queda de Hormuz (1622)
- Conquista de Zanzibar
- Conquista de Mombassa
Guerras e conflitos
- guerras otomano-safávidas
- guerra com o Irão
Livros citados
- The Portuguese Empire in Asia (Sanjay Subrahmanyam)
- O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico no Tempo de Filipe II (Fernand Braudel)