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Nº 22211 de outubro de 202340:46efeméride

Os 100 anos da ditadura de Primo de Rivera

Análise do centenário da ditadura de Miguel Primo de Rivera em Espanha (1923-1930), apresentada como uma ditadura sui generis do século XIX transplantada para o século XX. Ao contrário das ditaduras fascista e comunista da época, manteve sempre um horizonte constitucional provisório e acabou por desistência pacífica do ditador. O episódio explora as causas da instabilidade política espanhola, o papel do desastre militar em Marrocos, e as consequências para a monarquia que culminaram na Segunda República.

Ideias principais

  1. A ditadura de Primo de Rivera foi fundamentalmente diferente das ditaduras fascista e comunista da época, mantendo sempre um carácter provisório e um horizonte constitucional, sendo mais uma ditadura oitocentista do que uma ditadura moderna do século XX.
  2. O desastre militar da Batalha de Anual em 1921, com cerca de 8 a 13 mil mortos espanhóis face às tribos do Rif lideradas por Abdel Krim, foi crucial para mobilizar o exército espanhol em torno de Primo de Rivera, culpando o sistema parlamentar pela derrota.
  3. A ditadura obteve inicialmente apoio de sectores diversos, incluindo socialistas do PSOE e intelectuais como Ortega y Gasset, apostando em obras públicas, electrificação e políticas sociais, mas o seu carácter provisório impediu a criação de bases políticas sólidas.
  4. O fracasso da ditadura comprometeu fatalmente a monarquia de Afonso XIII, que tinha apostado em Primo de Rivera para evitar o caos parlamentar e uma possível república, mas acabou por precipitar exactamente isso com a proclamação da Segunda República em 1931.
  5. A ditadura influenciou o contexto português, servindo de conforto à ditadura militar pós-28 de Maio, mas seguiu um caminho diferente, já que em Portugal não havia o mesmo horizonte constitucional nem a mesma tradição de pronunciamentos militares do século XIX espanhol.

Resumo do episódio

O episódio centra-se no centenário da ditadura do general Miguel Primo de Rivera, instaurada em Espanha a 13 de setembro de 1923. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma pergunta dupla: quem foi Primo de Rivera e em que contexto ascendeu ao poder, e que influência exerceu essa experiência sobre Portugal, onde Salazar iniciava precisamente a sua aproximação ao poder? Os apresentadores sublinham, desde o início, que seria um erro integrar esta ditadura no mesmo catálogo das grandes ditaduras do século XX, como o fascismo italiano ou o comunismo soviético. Trata-se, defendem, de uma ditadura com raízes profundas no século XIX espanhol.

Para explicar a ascensão de Primo de Rivera, Rui Ramos recua ao descrédito do sistema político espanhol após 1898, quando a derrota na guerra contra os Estados Unidos e a perda de Cuba expuseram a falência do regime de dois partidos herdado do século XIX. Desde então, qualquer tentativa de reforma - como a do político conservador António Maura - gerava ao mesmo tempo entusiasmo e coligações de bloqueio, tornando o sistema irreformável por dentro. A este impasse somavam-se a agitação social provocada pela inflação durante a Primeira Guerra Mundial, o crescimento dos movimentos socialista e anarquista, a fragmentação parlamentar, as aspirações autonomistas da Catalunha e do País Basco, e as ambições intervencionistas de um exército hipertrofiado, com dezasseis mil oficiais para oitenta mil soldados.

O episódio que precipitou o golpe foi a catástrofe militar de Annual em julho de 1921, quando um exército espanhol de catorze mil homens foi praticamente aniquilado pelas tribos do Rife lideradas por Abdel Krim, num confronto que os apresentadores comparam ao Alcácer-Quibir. O exército culpou o sistema político pela derrota e mobilizou-se em torno da necessidade de mudança. Quando Primo de Rivera, capitão-general da Catalunha, se pronunciou em setembro de 1923, o rei Afonso XIII, temendo que a continuação do caos parlamentar conduzisse à república, optou por legitimá-lo nomeando-o chefe do governo. O Parlamento foi dissolvido sem convocação de novas eleições, e instaurou-se uma ditadura que, apesar de tudo, nunca abandonou formalmente o horizonte constitucional: Primo de Rivera apresentou sempre a sua governação como transitória, prometendo desde o início que governaria apenas noventa dias e que a normalidade constitucional seria reposta.

Esta característica distingue radicalmente a sua ditadura das contemporâneas. Ao contrário de Mussolini ou de Lenine, Primo de Rivera não pretendia substituir o parlamentarismo por uma nova forma política permanente, mas apenas suspendê-lo temporariamente para "operar" o corpo doente da nação - usando a expressão do intelectual Joaquim Costa, que defendia a necessidade de um "cirurgião de ferro". O regime beneficiou inicialmente de apoios variados: intelectuais como Ortega y Gasset, sectores do Partido Socialista Operário Espanhol, e uma opinião pública fatigada do caos político. O período até 1929 foi de crescimento económico, obras públicas, eletrificação e até alguma abertura social. Contudo, Primo de Rivera nunca conseguiu construir uma base política sustentável: os velhos políticos rejeitavam-no, os novos não existiam em número suficiente, e o seu horizonte sempre provisório desincentivava qualquer adesão duradoura.

A Grande Depressão de 1929 acelerou o colapso. A inflação regressou, as greves multiplicaram-se, e em janeiro de 1930 Primo de Rivera escreveu a cada comandante militar pedindo declaração de apoio. As respostas foram tíbias, o rei abandonou-o, e ele demitiu-se voluntariamente, exilando-se em Paris, onde morreu em março desse mesmo ano, com sessenta anos. Rui Ramos destaca este fim pacífico como prova definitiva da natureza singular desta ditadura: nenhuma outra do período - nem a portuguesa, nem a italiana, nem a soviética - terminou por desistência voluntária do seu líder. O fracasso do general arrastou o prestígio do rei, e em 1931, após as eleições municipais, Afonso XIII abdicou sem resistência, dando lugar à Segunda República. Os apresentadores concluem notando que, embora o filho de Primo de Rivera, José António, tenha fundado a Falange e ligado retroativamente o nome da família ao fascismo, a ditadura de

Personagens

  • Miguel Primo de Rivera
  • Afonso XIII
  • António Maura
  • Abdel Krim
  • Manuel Fernandes Silvestre
  • José António Primo de Rivera
  • Benito Mussolini
  • Vladimir Lenin
  • António de Oliveira Salazar
  • Sidónio Pais
  • Joaquim Costa
  • José Ortega y Gasset
  • Francisco Franco

Lugares/Países

  • Espanha
  • Portugal
  • Marrocos
  • Rússia
  • Itália
  • Cuba
  • Estados Unidos
  • França
  • Catalunha
  • País Basco

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • anos 20
  • Primeira Guerra Mundial
  • Entre-guerras

Temas

  • ditadura
  • golpe de Estado
  • monarquia constitucional
  • crise parlamentar
  • autoritarismo
  • nacionalismo regional
  • colonialismo
  • guerra colonial
  • inflação
  • greves
  • socialismo
  • anarquismo
  • censura
  • obras públicas
  • Grande Depressão

Eventos

  • Ditadura de Primo de Rivera
  • Golpe de 13 de setembro de 1923
  • Batalha de Anual
  • Guerra de Cuba
  • Crise de 1917 em Espanha
  • Gripe espanhola
  • Grande Depressão de 1929
  • Proclamação da Segunda República Espanhola
  • Golpe de 28 de maio de 1926
  • Guerra Civil Espanhola

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerra de Cuba (1898)
  • Guerra do Rif
  • Batalha de Anual
  • Guerra Civil Espanhola
  • Guerras civis do século XIX espanhol