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Nº 11813 de outubro de 202141:40efeméride

Os 100 anos da independência da Irlanda

O episódio analisa os cem anos da independência da Irlanda, desde o Tratado Anglo-Irlandês de 1921 até à divisão entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte. Rui Ramos explora as raízes históricas do conflito entre católicos e protestantes, a violência da Guerra da Independência (1919-1921) e a subsequente guerra civil. O caso irlandês ilustra a dificuldade de formar Estados-nação democráticos em territórios com divisões étnico-religiosas profundas.

Ideias principais

  1. A Irlanda não era uma colónia típica mas parte do Reino Unido com representação parlamentar, embora dividida entre uma maioria católica (sul e oeste) e uma minoria protestante (norte) que se opunha ao autogoverno irlandês.
  2. A Insurreição da Páscoa de 1916, apesar de militarmente derrotada, transformou o nacionalismo irlandês moderado em republicanismo radical, como mostram as eleições de 1918 onde o Sinn Féin substituiu completamente o partido parlamentar irlandês.
  3. A Guerra da Independência (1919-1921) causou cerca de 2.300 mortos numa população de 3 milhões, equivalente a 200 mortos por mês, tornando insustentável para uma democracia como o Reino Unido manter o conflito.
  4. O Tratado de 1921 dividiu os próprios republicanos irlandeses, levando a uma guerra civil ainda mais sangrenta que a guerra de independência, com Michael Collins assassinado pelos radicais que o viam como traidor.
  5. A Irlanda exemplifica a dificuldade histórica de criar Estados democráticos modernos em territórios com divisões étnico-religiosas, ao contrário de países homogéneos como Portugal onde toda a população partilhava língua, religião e identidade.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado ao centenário da independência da Irlanda, tomando como ponto de partida as negociações que conduziram ao Tratado Anglo-Irlandês de dezembro de 1921. Rui Ramos e João Miguel Tavares procuram explicar como uma ilha relativamente pequena, então totalmente integrada no Reino Unido, chegou à independência parcial e por que razão ficou permanentemente dividida em dois territórios.

O historiador começa por recuar ao início do século XIX para contextualizar a situação da Irlanda. Até 1800, a ilha tinha um parlamento próprio e era formalmente um reino distinto, cujo rei era, por coincidência, o mesmo que o da Inglaterra. A partir de 1800, passou a integrar o Reino Unido, passando a eleger deputados para o parlamento de Londres. Este arranjo inseria-se numa divisão mais profunda da população irlandesa, de raízes que remontam ao século XVI, quando ingleses e escoceses se estabeleceram na ilha como colonos sob proteção da coroa inglesa. O traço mais duradouro desta colonização não foi linguístico, mas religioso: os colonos eram protestantes, anglicanos ou calvinistas, enquanto a população mais antiga era maioritariamente católica. Ao chegarem ao século XIX, as duas comunidades encontravam-se geograficamente separadas: os católicos predominavam nos vinte e seis condados do sul e do oeste, os protestantes concentravam-se nos seis condados do Ulster, no norte.

Durante a segunda metade do século XIX, os governos liberais britânicos tornaram-se progressivamente favoráveis à concessão de um parlamento próprio à Irlanda, o chamado *Home Rule*, em parte por cálculo político, uma vez que os deputados nacionalistas irlandeses eram decisivos para as maiorias parlamentares em Londres. No entanto, a população protestante do Ulster opôs-se frontalmente a qualquer solução que a colocasse sob um governo dominado pela maioria católica, chegando a organizar, em 1914, uma milícia armada e um juramento coletivo de resistência com mais de meio milhão de signatários. A eclosão da Primeira Guerra Mundial suspendeu a legislação de autonomia aprovada nesse mesmo ano, criando um vazio político que as correntes republicanas mais radicais aproveitariam para agir.

Em abril de 1916, cerca de 1.200 voluntários republicanos ocuparam o centro de Dublin na chamada Insurreição da Páscoa, enfrentando o exército britânico durante seis dias. Os seus comandantes renderam-se sabendo que seriam executados, num gesto deliberado de martírio que transformou o republicanismo numa causa de massas. Nas eleições gerais de dezembro de 1918, as primeiras com sufrágio quase universal, o Sinn Féin substituiu os nacionalistas moderados como força dominante na Irlanda: passou de seis para setenta e três lugares. Os deputados eleitos recusaram sentar-se em Londres, declararam a independência em Dublin e organizaram o IRA, iniciando uma guerra de guerrilha contra as autoridades britânicas que, entre 1919 e 1921, causou cerca de 2.300 mortos.

Face à insustentabilidade política e internacional do conflito - agravada pelo peso da diáspora irlandesa nos Estados Unidos e pela atenção da imprensa numa democracia europeia -, o governo de Lloyd George surpreendeu os próprios republicanos ao propor negociações no verão de 1921. O resultado foi o tratado de dezembro desse ano, que concedeu à Irlanda do Sul o estatuto de domínio, com o título de Estado Livre da Irlanda, enquanto a Irlanda do Norte permanecia no Reino Unido. A aceitação do acordo por figuras como Michael Collins dividiu profundamente o movimento republicano e desencadeou uma guerra civil no Sul, ainda mais sangrenta do que a Guerra da Independência. O Estado Livre evoluiu gradualmente para uma república plena, proclamada formalmente em 1948, mas continuou durante décadas a reivindicar soberania sobre toda a ilha, reivindicação apenas abandonada em 1998.

Personagens

  • David Lloyd George
  • Michael Collins
  • Liam Neeson
  • Neil Jordan
  • W. B. Yeats

Lugares/Países

  • Irlanda
  • Reino Unido
  • Grã-Bretanha
  • Inglaterra
  • Escócia
  • País de Gales
  • Irlanda do Norte
  • Ulster
  • Estados Unidos
  • França
  • Alemanha
  • Canadá
  • Austrália
  • Portugal
  • Espanha
  • Áustria
  • Jugoslávia
  • América do Norte

Épocas

  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • 1800
  • anos 80 do século XIX
  • 1798
  • 1845
  • 1900
  • 1914-1918
  • 1916
  • 1918
  • 1919-1921
  • 1920
  • 1921
  • 1922
  • 1937
  • 1948
  • 1998

Temas

  • independência
  • nacionalismo
  • colonialismo
  • religião
  • guerra civil
  • terrorismo
  • democracia
  • autogoverno
  • unionismo
  • republicanismo
  • imigração
  • fome
  • política parlamentar
  • identidade nacional
  • divisão étnico-religiosa

Eventos

  • Tratado Anglo-Irlandês
  • Guerra da Independência da Irlanda
  • Insurreição da Páscoa de 1916
  • Primeira Guerra Mundial
  • Batalha do Somme
  • Grande Fome de 1845
  • Government of Ireland Act 1914
  • Government of Ireland Act 1920
  • Eleições gerais de 1918
  • Proclamação da independência 1919
  • Guerra Civil Irlandesa

Guerras e conflitos

  • Guerra da Independência da Irlanda
  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerra Civil Irlandesa
  • Batalha do Somme