Nº 30009 de abril de 202538:42análise histórica
Os 300 espartanos no programa 300
Episódio comemorativo número 300 dedicado aos 300 espartanos e à Batalha das Termópilas (480 a.C.). Rui Ramos explica como Heródoto inventou a história enquanto disciplina ao investigar as Guerras Persas, analisa a credibilidade das fontes antigas e desmonta a leitura romântica do século XIX que via o conflito como choque de civilizações entre Europa e Ásia.
Ideias principais
- Heródoto inventou a história como disciplina ao fazer investigação crítica de fontes orais sobre as Guerras Persas, comparando versões e usando geografia e outros conhecimentos para explicar os acontecimentos, distanciando-se da tradição épica de Homero.
- A arqueologia do século XIX confirmou muitos pormenores de Heródoto, incluindo a descoberta de setas persas nas Termópilas em 1939 e a existência em Istambul do monumento com serpentes que ele descreveu, aumentando a credibilidade das suas narrativas.
- Os números gigantescos atribuídos aos exércitos persas (3-5 milhões) são simbólicos, não estatísticos, sendo que o exército real seria de cerca de 100-200 mil homens, e os 300 espartanos também não estavam sozinhos mas acompanhados por outros aliados gregos.
- A interpretação oitocentista das Termópilas como choque entre civilização europeia democrática e despotismo asiático é anacrónica: a maioria das cidades gregas permaneceu neutra ou apoiou os persas, e muitas eram monarquias, havendo mais identidades locais que uma identidade pan-helénica.
- A ironia histórica é que o projeto de Xerxes de unir gregos e persas num império foi realizado 150 anos depois por Alexandre da Macedónia, um grego que conquistou a Pérsia e criou um império com monarquia de modelo oriental, mostrando que a resistência grega não era a um modelo político mas a quem o comandava.
Resumo do episódio
Este episódio especial de «E o Resto é História» assinala o 300.º programa do podcast, e os apresentadores Rui Ramos e João Miguel Tavares aproveitaram a ocasião para explorar, a sugestão de um ouvinte, a história dos 300 espartanos que resistiram ao exército persa na Batalha das Termópilas, em 480 a.C. A escolha do tema não é apenas uma coincidência numérica: é também uma oportunidade para refletir sobre as origens da própria disciplina histórica.
Rui Ramos começa por enquadrar a discussão numa ideia fundamental: foi precisamente a guerra entre os gregos e os persas que motivou Heródoto, nascido em Alicarnas - cidade que pertencia ao Império Persa, na atual Turquia - a empreender aquilo a que ele próprio chamava uma «investigação» ou «pesquisa», palavra que em grego se diz «história». Escrevendo cerca de quarenta a cinquenta anos após os acontecimentos, Heródoto regista múltiplas versões das mesmas histórias, compara fontes orais, analisa a sua credibilidade e recorre à geografia e aos costumes das populações para explicar os acontecimentos. Esta abordagem, ainda que use convenções literárias entretanto abandonadas - como a invenção de discursos para os protagonistas -, é reconhecível para qualquer historiador contemporâneo, ao contrário da tradição épica de Homero, onde os deuses intervêm diretamente na ação.
O contexto histórico que os apresentadores reconstroem é o seguinte: no início do século V a.C., cerca de trezentas cidades de cultura grega, com regimes políticos variados, rodeavam o mar Egeu. As que ficavam na Península Balcânica governavam-se autonomamente; as da Ásia Menor estavam sob a tutela do Império Persa, um vasto conjunto territorial que ia do atual Paquistão ao Egito. As revoltas constantes das cidades gregas da Ásia, apoiadas por Atenas, levaram o imperador Xerxes - filho de Dário, que já tinha sido derrotado em Maratona em 490 a.C. - a invadir a Grécia europeia em 480 a.C., com o objetivo de pacificar definitivamente o flanco ocidental do seu império. Face a esta ameaça, um grupo de cidades gregas, lideradas por Atenas e Esparta, formou uma aliança de resistência.
É neste quadro que surge a Batalha das Termópilas. Um exército grego de cerca de sete mil homens, comandado pelo rei espartano Leónidas, ocupa o estreito desfiladeiro que controlava a passagem para o sul da Península Balcânica. A topografia favorecia os gregos: num corredor tão apertado, a superioridade numérica persa ficava anulada. O impasse só se resolve quando um traidor grego revela a Xerxes a existência de um caminho alternativo que permite cercar os defensores. A maioria dos aliados retira; Leónidas e os seus trezentos espartanos - acompanhados por outros contingentes - ficam e combatem até serem todos mortos, provavelmente para cobrir a retirada do restante exército. Os persas avançam depois para Atenas, que entretanto fora evacuada, mas acabam por ser decisivamente derrotados na batalha naval de Salamina. No ano seguinte, em Plateia, o exército persa que ficara na Grécia é também vencido, encerrando a tentativa de conquista.
Quanto à credibilidade histórica destes relatos, Rui Ramos é cauteloso mas não cético. A arqueologia tem vindo a confirmar vários detalhes de Heródoto: uma coluna comemorativa que ele descreve existe ainda em Istambul; escavações em Termópilas revelaram grande quantidade de pontas de seta persas do século V a.C. Fontes independentes de Heródoto corroboram o essencial da narrativa, ainda que com variações. Os números atribuídos ao exército persa - chegando a milhões - são claramente simbólicos, como era habitual nos historiadores da Antiguidade e da Idade Média.
Personagens
- Heródoto
- Leónidas
- Xerxes I
- Dário I
- Homero
- Aquiles
- Alexandre da Macedónia
- Tucídides
- Diodoro Sículo
- Jacques-Louis David
- Napoleão Bonaparte
- Zack Snyder
- Frank Miller
Lugares/Países
- Grécia
- Pérsia
- Irão
- Turquia
- Atenas
- Esparta
- Macedónia
- Egito
- Babilónia
- Assíria
- Síria
- Jordânia
- Israel
- Iraque
- Paquistão
- Península Balcânica
- Ásia Menor
- Europa
- Trácia
- Ática
- Peloponeso
- Istambul
- Constantinopla
Épocas
- século V a.C.
- século IV a.C.
- século I a.C.
- século XVIII
- século XIX
- Antiguidade
- Idade Média
- Segunda Guerra Mundial
Temas
- guerra
- história antiga
- historiografia
- sacrifício militar
- democracia
- civilização
- imperialismo
- memória histórica
- arqueologia
- cultura helénica
Eventos
- Batalha das Termópilas
- Batalha de Maratona
- Batalha de Salamina
- Batalha de Plateia
- Guerra de Troia
- Guerras Persas
- Guerras do Peloponeso
Guerras e conflitos
- Guerras Persas
- Guerras do Peloponeso
- Guerra de Troia
Livros citados
- Histórias de Heródoto
- Ilíada de Homero
- História das Guerras do Peloponeso de Tucídides