← Arquivo

Nº 7225 de novembro de 202043:22efeméride

Os 45 anos do 25 de Novembro

Análise detalhada dos acontecimentos do 25 de Novembro de 1975, data que marca o fim da influência da esquerda militar radical em Portugal. O episódio contextualiza o clima de crise económica, divisão territorial e instabilidade política no outono de 1975, explica o confronto entre quatro facções militares (gonçalvistas, COPCON, Grupo dos Nove e spinolistas) e o papel ambíguo do PCP, culminando na dissolução do COPCON e na estabilização democrática.

Ideias principais

  1. Portugal atravessava em 1975 a maior crise económica desde a Segunda Guerra Mundial, com quebra do PIB de 5-10%, nacionalizações massivas, ocupações de propriedade e chegada de meio milhão de retornados num contexto de crise do petróleo.
  2. O país estava literalmente dividido ao meio: Norte anticomunista votando PSD/CDS versus Sul dominado pelo PCP no Alentejo, com uma quase-fronteira em Rio Maior e impossibilidade de partidos operarem em território adverso.
  3. O 25 de Novembro não foi um golpe claro mas uma demonstração de força confusa do COPCON (comandado por Otelo) apoiada pelo PCP, que ocupou bases aéreas e objectivos em Lisboa sem atingir alvos políticos, revelando a opacidade sobre quem realmente mandava no país.
  4. Quatro facções militar-políticas disputavam o poder nas Forças Armadas: gonçalvistas (pró-PCP), COPCON (extrema-esquerda errática), Grupo dos Nove (moderados pró-democracia pluralista) e spinolistas, com alianças e traições constantes entre si.
  5. O PCP conseguiu sobreviver politicamente ao não apoiar o COPCON até ao fim, retirando os militantes na noite de 25 de Novembro, obtendo em troca a manutenção no governo enquanto a esquerda militar era desmobilizada e extinta nas semanas seguintes.

Resumo do episódio

O episódio 72 de *E o Resto é História* é dedicado integralmente ao 45.º aniversário do 25 de Novembro de 1975, data que os apresentadores consideram ainda envolta em mistério e decisiva para a consolidação da democracia portuguesa. Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se percorrer três dias consecutivos - 24, 25 e 26 de Novembro - para explicar o que estava em jogo, o que aconteceu e quais foram as consequências. Neste episódio, porém, o tempo não chega para o terceiro dia, que fica prometido para uma edição posterior.

A primeira parte é dedicada ao clima que antecedeu os acontecimentos. Rui Ramos sublinha que Portugal atravessava, em 1975, a pior crise económica desde a Segunda Guerra Mundial, com uma quebra do PIB estimada entre 5 e 10%, desemprego a disparar de quase zero para 5%, colapso das exportações, fuga de turistas e emigrantes a reduzir drasticamente as remessas. A este quadro somavam-se as nacionalizações em massa a partir de Março de 1975 - que abrangeram bancos, seguradoras, transportes e muitas outras empresas -, a ocupação de mais de três mil herdades no Alentejo pelos sindicatos comunistas com apoio militar, e os aumentos salariais administrativos desligados da produtividade. O país vivia também o impacto da descolonização: meio milhão de retornados chegaram em poucos meses, instalando-se em hotéis vazios por falta de turistas. O país estava geograficamente dividido, com o Norte a votar em partidos de direita e a destruir sedes do PCP, e o Sul dominado pela influência comunista, existindo mesmo uma espécie de fronteira informal perto de Rio Maior. A liberdade política estava gravemente comprometida: havia mais de mil presos políticos sem culpa formada, a comunicação social estava quase toda nas mãos do Estado e, na prática, do Partido Comunista, e o poder central era tão fragmentado que, não conseguindo devolver a Rádio Renascença à Igreja Católica depois de uma ocupação por esquerdistas, acabou por mandar destruir o emissor com bombas.

A segunda parte procura responder à questão de como se faz, concretamente, um golpe e um contra-golpe. No dia 25 de Novembro, forças paraquedistas sem oficiais identificados saíram da base escola de tanques e ocuparam várias bases aéreas em torno de Lisboa, bem como o Estado-Maior da Força Aérea. Em paralelo, tropas do COPCON - o Comando Operacional do Continente, dirigido pelo General Otelo Saraiva de Carvalho - ocuparam a RTP, a Emissora Nacional, o depósito de material de guerra de Beirolas e o acesso à autoestrada do Norte. Contudo, nenhum objectivo político foi tocado: nem a Presidência da República, nem o Governo, nem a Assembleia Constituinte. À noite, as emissões foram transferidas para o Porto, foi declarado estado de sítio e recolher obrigatório, e imposta a suspensão de todos os jornais. No dia 26, as forças do COPCON renderam-se em condições que Rui Ramos descreve como paradoxais: um contingente de dois mil homens na Polícia Militar na Ajuda capitulou perante cerca de trezentos comandos do Regimento da Amadora, comandado por Jaime Neves. Seguiu-se a demissão de Otelo, a dissolução do COPCON e, semanas depois, a suspensão de todas as estruturas do Movimento das Forças Armadas e a desmobilização dos soldados das antigas unidades do COPCON.

Para explicar a lógica destes acontecimentos, Rui Ramos identifica quatro grandes grupos político-militares em confronto: os gonçalvistas, alinhados com o PCP e liderados por Vasco Gonçalves; o polo do COPCON, de extrema-esquerda errática e autónoma, representado por Otelo; o Grupo dos Nove, moderados que queriam pluralismo e que incluíam Melo Antunes e Vasco Lourenço; e os militares espinolistas, que começaram a articular-se com o Grupo dos Nove a partir do verão de 1975. A tudo isto acrescia a figura enigmática do Presidente da República, Costa Gomes, cuja lealdade ninguém conseguia prever. O 25 de Novembro surge, na interpretação dos apresentadores, como uma demonstração de força do COPCON e do PCP para press

Personagens

  • Costa Gomes
  • Otelo Saraiva de Carvalho
  • Vasco Gonçalves
  • Melo Antunes
  • Vasco Lourenço
  • Vitor Alves
  • António de Spínola
  • Álvaro Cunhal
  • Freitas do Amaral
  • Rui Pena
  • Jaime Neves
  • Francisco Franco

Lugares/Países

  • Portugal
  • Espanha
  • França
  • Alemanha
  • Angola
  • Timor

Épocas

  • Revolução de 1974-1975
  • Estado Novo
  • Segunda Guerra Mundial
  • anos 60
  • anos 70
  • pós-guerra

Temas

  • revolução
  • golpe de Estado
  • guerra civil
  • crise económica
  • descolonização
  • nacionalizações
  • reforma agrária
  • censura
  • liberdade de imprensa
  • presos políticos
  • inflação
  • desemprego
  • retornados
  • democracia
  • partidos políticos
  • forças armadas

Eventos

  • 25 de Novembro de 1975
  • 25 de Abril de 1974
  • crise do petróleo de 1973
  • Verão Quente de 1975
  • eleições para a Assembleia Constituinte
  • nacionalizações de Março de 1975
  • ocupação da Rádio Renascença
  • levantamento anticomunista do Norte
  • ocupação de herdades no Alentejo

Guerras e conflitos

  • guerra civil em Angola
  • guerra civil em Timor