Nº 33111 de novembro de 202548:04efeméride
Os 50 anos da independência de Angola
O episódio analisa os 50 anos da independência de Angola, proclamada a 11 de novembro de 1975 por Agostinho Neto. Rui Ramos e João Miguel Tavares discutem como Portugal entregou a soberania "ao povo angolano" sem a transferir a nenhum movimento específico (MPLA, FNLA ou UNITA), desencadeando uma guerra civil de quase 30 anos. O papel do MFA pró-comunista foi decisivo ao favorecer o MPLA, que conseguiu controlar Luanda e atrair apoio soviético e cubano, transformando Angola num palco da Guerra Fria por iniciativa dos próprios movimentos angolanos.
Ideias principais
- Angola estava próspera e em paz em 1974, sendo o terceiro país mais rico de África, mas o Acordo de Alvor e a redução das forças portuguesas criaram um vazio de poder que tornou a guerra civil praticamente inevitável a partir do verão de 1975.
- O MPLA de Agostinho Neto estava derrotado militarmente em 1974 e sem apoio soviético, sendo salvo pela facção do MFA alinhada com o PCP que lhe entregou Luanda, restabeleceu contactos com Moscovo e facilitou armamento, contrariando a narrativa de que eram os soviéticos que queriam Angola.
- Foram os movimentos armados angolanos, e não as superpotências, que transformaram Angola num palco da Guerra Fria ao procurarem activamente envolver a União Soviética, Cuba e Estados Unidos no conflito, exagerando nas suas promessas e ameaças para conseguir apoio externo.
- A base social dos três movimentos era essencialmente regional e étnica: a FNLA representava os Bakongo do norte, a UNITA os Ovimbundo do centro-sul (o maior grupo), e o MPLA uma elite urbana mestiça e assimilada de Luanda, o que alimentou divisões profundas e dificultou qualquer solução política.
- A guerra civil de 30 anos transformou Angola num Estado despótico e corrupto dependente do petróleo e diamantes, provocando o êxodo massivo para as cidades (de 10% em 1974 para 63% hoje) e destruindo as enormes esperanças de prosperidade que existiam no momento da independência.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* foi gravado precisamente no dia em que se assinalavam os 50 anos da proclamação da independência de Angola, a 11 de novembro de 1975. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem dessa efeméride para reconstituir o processo que levou à independência e à subsequente guerra civil, procurando perceber como um território próspero e relativamente estável em 1974 se precipitou num conflito que duraria quase três décadas.
Os apresentadores começam por traçar o retrato de Angola em vésperas da independência: um país com cinco a seis milhões de habitantes, maioritariamente rural, mas economicamente dinâmico - o terceiro país mais rico de África, quinto maior produtor mundial de café, com um parque industrial invejável. Em 1974, quando ocorreu a Revolução em Portugal, Angola era praticamente um território sem guerra activa nas suas principais zonas de população e actividade económica. Os três movimentos armados - o MPLA de Agostinho Neto, a FNLA de Holden Roberto e a UNITA de Jonas Savimbi - estavam enfraquecidos ou contidos: o MPLA havia sido derrotado militarmente, estava fragmentado em facções e tinha perdido o apoio soviético; a FNLA dependia do Zaire de Mobutu; a UNITA tinha chegado a um acordo de suspensão de operações com o exército português.
O que inverteu esta situação foi, em grande medida, a acção de facções do Movimento das Forças Armadas alinhadas com o Partido Comunista Português. Rui Ramos é categórico: foi o MFA que resgatou politicamente Agostinho Neto, nomeadamente durante o período em que o almirante Rosa Coutinho presidiu à junta governativa em Angola. Essa facção do MFA entregou ao MPLA meios, presença institucional em Luanda e contactos que permitiram restabelecer o apoio soviético e cubano. Foram os próprios representantes do MPLA que, segundo arquivos soviéticos estudados pela historiadora Natália Telepneva, convenceram Moscovo a intervir, argumentando que o MFA lhes prometera a entrega do poder. Do mesmo modo, foi a visita de Otelo Saraiva de Carvalho a Cuba que entusiasmou Fidel Castro a enviar tropas. A lógica era, assim, inversa à que durante décadas se assumiu: não foram as superpotências a instrumentalizar os movimentos angolanos, foram estes a arrastar as superpotências para o conflito.
O Acordo de Alvor, de Janeiro de 1975, ao reconhecer apenas os três movimentos armados como representantes do povo angolano e ao desapoiar as autoridades portuguesas dos meios para manter a ordem, criou as condições para a guerra civil que eclodiu ainda antes da independência formal. Em agosto de 1975, o MPLA controlava Luanda e parte do litoral; quando as tropas sul-africanas e zairenses que apoiavam a FNLA e a UNITA se retiraram após o Congresso norte-americano ter proibido qualquer apoio anti-MPLA, e com cerca de quinze mil soldados cubanos no terreno, o MPLA ficou com uma vantagem militar decisiva. Em fevereiro de 1976, a Organização para a Unidade Africana reconhecia o governo do MPLA como legítimo, prevalecendo a teoria - partilhada por vários governos ocidentais - de que uma vitória rápida tornaria o MPLA menos dependente de Moscovo.
Contudo, a estabilidade nunca chegou. A UNITA reconstituiu-se com o apoio sul-africano, a guerra generalizou-se nos anos 1980 e o contingente cubano chegou a cinquenta mil homens. Mesmo o fim da Guerra Fria não pôs termo ao conflito: as eleições de 1992, resultantes dos Acordos de Bicesse negociados com mediação portuguesa, correram desastrosamente, com a UNITA a contestar os resultados e o MPLA a atacar os seus adversários em Luanda, precipitando mais dez anos de guerra. Os apresentadores concluem que este ciclo de violência não foi um acidente conjuntural, mas o produto das próprias lógicas dos movimentos e das suas lideranças, incapazes de aceitar qualquer resultado que não fosse a vitória total. O legado foi uma sociedade profundamente deformada: populações expulsas dos campos por uma guerra convencional de artilharia e tanques, urbanização forçada, economia reduzida ao petróleo e aos diamantes, e um despotismo corrupto que traiu todas as esperanças de 1974.
Personagens
- Agostinho Neto
- José Eduardo dos Santos
- Holden Roberto
- Jonas Savimbi
- Almirante Rosa Coutinho
- Mário Pinto de Andrade
- Daniel Chipenda
- General Silva Cardoso
- Almirante Leonel Cardoso
- Mobutu
- Otelo Saraiva de Carvalho
- Fidel Castro
- Gerald Ford
- Richard Nixon
- Nito Alves
- George Orwell
Lugares/Países
- Angola
- Portugal
- Zaire
- Congo
- Moçambique
- Guiné
- Cabo Verde
- União Soviética
- Cuba
- Estados Unidos
- África do Sul
- Rodésia
- Zâmbia
- Namíbia
- Catanga
Épocas
- 1974-1975
- Guerra Fria
- descolonização
- década de 1980
- década de 1990
Temas
- colonialismo
- descolonização
- guerra civil
- independência
- Guerra Fria
- comunismo
- revolução
- nacionalismo africano
- intervenção estrangeira
- petróleo
- diamantes
- etnicidade
Eventos
- Independência de Angola
- 25 de Abril de 1974
- Acordo de Alvor
- 11 de Março de 1975
- 25 de Novembro de 1975
- Acordos de Bicesse
- Eleições de 1992 em Angola
- Revolução de 1974
Guerras e conflitos
- Guerra Colonial Portuguesa
- Guerra Civil Angolana
- Guerra do Vietname
- Guerra Fria
Livros citados
- Animal Farm