Nº 31202 de julho de 202549:31efeméride
Os 50 anos da independência de Cabo Verde
Episódio dedicado aos 50 anos da independência de Cabo Verde (5 de julho de 1975), explorando as particularidades deste processo face aos restantes territórios coloniais portugueses. Rui Ramos analisa as diferenças entre Cabo Verde e a Guiné-Bissau, a relação com o PAIGC, o papel do MFA e a evolução política até à democracia. Destaca-se a singularidade de Cabo Verde: ausência de guerra, processo negocial separado da Guiné, e consolidação de uma democracia com alternância pacífica no poder.
Ideias principais
- Cabo Verde era um território único no império português: arquipélago deserto até ao século XV, povoado por portugueses e escravos africanos, com população mestiça sempre tratada diferentemente dos outros territórios coloniais (nunca teve Estatuto dos Indígenas).
- A pressão independentista não veio de Cabo Verde mas da Guiné através do PAIGC, partido fundado por cabo-verdianos que dominavam posições administrativas na Guiné; apesar de Cabo Verde e Guiné nunca terem sido o mesmo país, partilharam o mesmo partido até 1981.
- O MFA garantiu a transferência de poder para o PAIGC mediante eleições viciadas: prisão e deportação de líderes da oposição, lista única do PAIGC e proclamação automática da independência, num processo menos direto que na Guiné mas igualmente controlado.
- Cabo Verde tornou-se o único país africano lusófono a consolidar uma democracia plena com três alternâncias pacíficas no poder (1991, 2001, 2016), entre o PAICV e o MPD, mantendo estabilidade e desenvolvimento económico médio.
- A viabilidade económica de Cabo Verde sempre dependeu do exterior: remessas de emigrantes (20% do PIB), ajuda externa e turismo; esta dependência limitou radicalismos socialistas e favoreceu integração europeia, incluindo ligação do escudo cabo-verdiano ao euro.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares assinalam o cinquentenário da independência de Cabo Verde, proclamada a 5 de julho de 1975, respondendo a perguntas enviadas por ouvintes - entre os quais uma família da ilha de Santo Antão e um ouvinte que queria saber se Cabo Verde e a Guiné-Bissau chegaram a formar um único país. A resposta curta é não, mas a explicação exige percorrer a história singular deste arquipélago.
Rui Ramos começa por estabelecer quatro pontos de contexto essenciais. Primeiro, Cabo Verde foi sempre um território a meio caminho entre a Europa e África: deserto à chegada dos portugueses, no século XV, foi povoado por colonos europeus e escravos africanos, resultando numa população mestiça e católica à qual nunca se aplicou o Estatuto dos Indígenas vigente nas outras colónias. Segundo, ao contrário das ilhas das Caraíbas ou de São Tomé, Cabo Verde nunca foi uma sociedade de monocultura esclavagista: o clima árido e as secas frequentes inviabilizaram plantações intensivas, tornando o arquipélago uma base de navegação atlântica com uma economia de subsistência. Isso explica uma forte tradição emigratória - para os Estados Unidos, atraídos pela pesca da baleia, e mais tarde para Portugal e a Europa - com remessas que chegam a representar cerca de 20% do PIB. Terceiro, em 1974-75 Cabo Verde atravessava uma seca prolongada e dependia financeiramente de Lisboa de forma muito mais pronunciada do que Angola ou Moçambique, o que tornava a viabilidade da independência uma questão genuinamente em aberto - o próprio Mário Soares defendia que a melhor opção para o arquipélago seria a continuação da associação a Portugal. Quarto, ao contrário da Guiné, de Angola e de Moçambique, nunca houve insurreição armada em Cabo Verde: a pressão independentista vinha de fora, nomeadamente do PAIGC, partido que liderava a guerra na Guiné e que incluía Cabo Verde no seu projeto político.
A ligação entre os dois territórios explica-se pela composição da elite do PAIGC: sendo os cabo-verdianos os quadros intermédios da administração colonial na Guiné, eram eles que dominavam a direção do partido - incluindo Amílcar Cabral, filho de pai cabo-verdiano. O PAIGC queria negociar a independência dos dois territórios em simultâneo, mas a esquerda militar portuguesa resistiu, consciente de que havia em Cabo Verde uma oposição significativa ao partido. Após o 25 de Abril, o MFA local prendeu e deportou para Portugal os líderes dos movimentos contrários ao PAIGC - alguns receavam um Estado marxista de partido único, outros rejeitavam a união com a Guiné -, decapitando a oposição. As eleições de junho de 1975, com lista única do PAIGC, elegeram uma Assembleia Constituinte cuja única função, já fixada em acordo, era proclamar a independência. A Guiné e Cabo Verde tornaram-se assim dois Estados separados, governados pelo mesmo partido mas com governos distintos.
A separação definitiva veio em 1981, quando um golpe de Estado na Guiné liderado por Nino Vieira, alimentado pelo ressentimento de combatentes guineenses contra a liderança de ascendência cabo-verdiana, levou o PAIGC de Cabo Verde a romper com Bissau e a rebatizar-se PAICV. Os dois países nunca chegaram, portanto, a unificar-se. Em Cabo Verde, o regime de partido único foi mais moderado do que nos países vizinhos: nunca houve guerra civil nem golpes sangrentos, e o país foi o primeiro em África a abolir oficialmente a pena de morte, em 1980. No final da década de 1980, com o descrédito dos modelos socialistas na Europa de Leste, abriu-se caminho à democratização: em janeiro de 1991, o recém-criado Movimento para a Democracia ganhou as eleições, numa alternância pacífica sem precedentes em África. Seguiram-se outras alternâncias em 2001 e 2016, consolidando uma democracia representativa madura. Em 1999, a ligação da moeda cabo-verdiana ao escudo português - e depois ao euro - reforçou a integração com a Europa, transformando Cabo Verde num caso de sucesso assinalável no continente africano.
Personagens
- Ana Fortes
- Sulimar
- Eduardo Duarte
- Amílcar Cabral
- Mário Soares
- Aristides Pereira
- Pedro Pires
- Luís Cabral
- Nino Vieira
- José Maria Neves
- Ulisses Correia e Silva
- António de Spínola
Lugares/Países
- Cabo Verde
- Guiné-Bissau
- Portugal
- Angola
- Moçambique
- São Tomé e Príncipe
- Estados Unidos
- Brasil
- Cuba
- União Soviética
- China
- Haiti
- Jamaica
- Holanda
- França
- Senegal
Épocas
- século XV
- século XIX
- século XX
- década de 1960
- década de 1970
- década de 1980
- década de 1990
- anos 30
Temas
- descolonização
- independência
- colonialismo
- guerra colonial
- democracia
- ditadura
- partido único
- socialismo
- emigração
- economia
- escravatura
- alternância política
Eventos
- Revolução de 25 de Abril de 1974
- Independência de Cabo Verde
- Golpe de Estado de 1980 na Guiné-Bissau
- Queda do Muro de Berlim
Guerras e conflitos
- Guerra Colonial Portuguesa