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Nº 11018 de agosto de 202144:25efeméride

Os 500 anos da queda do império azteca

O episódio assinala os 500 anos da queda de Tenochtitlán (13 de agosto de 1521), conquistada por Hernán Cortés com aliados indígenas contra o Império Azteca. Rui Ramos explica como a conquista resultou mais de alianças diplomáticas e doenças europeias do que de superioridade militar, e como os debates teológicos espanhóis sobre a legitimidade da conquista anteciparam questões de direitos humanos. Na segunda parte, o programa aborda a revolução universitária em Portugal pós-25 de Abril, comparando-a com movimentos estudantis europeus.

Ideias principais

  1. O Império Azteca era uma sociedade sofisticada com cerca de um milhão de habitantes no Vale do México, dominada por Tenochtitlán desde 1427, mas vista como opressora pelas populações conquistadas que praticavam sacrifícios humanos em massa.
  2. A conquista de Cortés com apenas centenas de espanhóis foi possível porque se aliou diplomaticamente a povos subjugados pelos aztecas, formando exércitos de 20-30 mil homens, e porque epidemias como a varíola devastaram a população indígena sem imunidade.
  3. Os espanhóis debateram internamente a legitimidade ética da conquista, com a disputa de Valladolid em 1550 levando Carlos V a suspender expedições até decidir se eram justas, antecipando debates modernos sobre direitos humanos e colonialismo.
  4. No século XIX, os descendentes dos conquistadores espanhóis criaram repúblicas latino-americanas independentes identificando-se paradoxalmente como herdeiros dos aztecas e incas que os seus antepassados haviam derrotado, destruindo o túmulo de Cortés e erguendo estátuas a imperadores aztecas.
  5. Após o 25 de Abril, universidades portuguesas viveram caos revolucionário com abolição de exames decidida em assembleias gerais, saneamentos de professores e autogestão estudantil, fenómeno que não foi exclusivamente português mas parte de uma crise global do ensino superior de massas visível também no maio de 1968 francês.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* divide-se em dois temas distintos: a queda do Império Azteca, assinalando os 500 anos do acontecimento, e uma incursão pela história das universidades portuguesas durante o período revolucionário pós-25 de Abril.

Rui Ramos começa por contextualizar o que era o Império Azteca no início do século XVI. Fundado apenas cerca de cem anos antes da conquista, em 1427, através de uma aliança de três cidades-estado no Vale do México - Tenochtitlán, Texcoco e Tlacopan -, o império era uma realidade política recente mas poderosa. Tenochtitlán, construída numa ilha no meio de um lago e situada num planalto a cerca de dois mil metros de altitude, teria cerca de duzentos mil habitantes, tornando-a numa das maiores cidades do mundo na época. A civilização azteca era sofisticada: tinha agricultura intensiva, sistemas hidráulicos avançados, uma forma de escrita combinando pictogramas e fonogramas, e uma densa vida urbana com guerreiros, artesãos e comerciantes. No entanto, os apresentadores sublinham que esta não era uma sociedade pacífica: os aztecas eram eles próprios conquistadores que dominavam outros povos, obrigando-os a pagar tributos e a fornecer prisioneiros para sacrifícios humanos em grande escala no Templo Maior de Tenochtitlán, práticas que lhes valeram um profundo ressentimento entre os povos subjugados.

A expedição de Hernán Cortés, chegada ao continente em 1519 com apenas algumas centenas de homens, é descrita como um ato quase de pirataria, realizado à revelia do governador de Cuba. O segredo do êxito de Cortés não residiu nas armas de fogo nem nos cavalos - eram poucos -, mas na sua capacidade diplomática de se aliar aos povos oprimidos pelos aztecas, que viram nos espanhóis uma oportunidade de se libertarem. Montezuma II recebeu Cortés em novembro de 1519, numa tentativa de o integrar na política local, mas em junho de 1520 os espanhóis foram expulsos de Tenochtitlán. Regressaram em força no ano seguinte, à frente de um exército de dezenas de milhar de aliados indígenas, e tomaram a cidade a 13 de agosto de 1521. Os espanhóis assumiram então o papel dos antigos aztecas, mantendo as estruturas de poder locais e convertendo as elites ao cristianismo. A família de Montezuma foi integrada na nobreza colonial, chegando um dos seus descendentes a exercer o cargo de vice-rei do México no século XVII.

Um factor decisivo, e frequentemente subestimado, foi o impacto biológico da conquista. Os espanhóis trouxeram consigo doenças como a varíola, para as quais as populações americanas não tinham qualquer imunidade, dada a sua longa separação do mundo euroasiático. As epidemias dizimaram a população do México ao longo do século XVI, enfraquecendo profundamente estas sociedades. Os apresentadores recusam que este processo tenha sido intencional, sublinhando que os próprios colonizadores dependiam economicamente das populações locais e assistiram com alarme à sua diminuição.

Rui Ramos aborda ainda a dimensão ideológica da conquista: as críticas do frade dominicano Bartolomeu de Las Casas, que denunciou as violências dos conquistadores, influenciaram de tal forma Carlos V que este chegou a ordenar a suspensão de todas as expedições em 1550, até ser decidida a legitimidade das conquistas. O debate de Valladolid, embora inconclusivo, deixou como herança uma tendência da Coroa espanhola para se assumir como protetora dos índios face aos colonos. Por fim, os apresentadores assinalam a ironia histórica de que foram os descendentes dos conquistadores - os chamados crioulos - quem, no início do século XIX, proclamou a independência das repúblicas latino-americanas, fazendo-o sob a bandeira simbólica das civilizações pré-colombianas que os seus antepassados tinham destruído.

Personagens

  • Hernán Cortés
  • Montezuma II
  • Francisco Pizarro
  • Carlos V
  • Bartolomé de Las Casas
  • Santo Agostinho
  • Veiga Simão
  • Marcelo Caetano
  • António de Oliveira Salazar
  • Jorge Miranda

Lugares/Países

  • México
  • Espanha
  • Cuba
  • Haiti
  • Peru
  • Portugal
  • França
  • América
  • Europa
  • Índia
  • Marrocos
  • Japão

Épocas

  • século XVI
  • século XIX
  • anos 60 e 70 do século XX
  • 1974-1975
  • pós-Segunda Guerra Mundial

Temas

  • colonialismo
  • conquista
  • império
  • guerra
  • diplomacia
  • religião
  • evangelização
  • doença e epidemias
  • genocídio
  • independência
  • revolução
  • educação
  • universidades
  • agitação estudantil

Eventos

  • queda de Tenochtitlán
  • conquista do México
  • conquista do Peru
  • disputa de Valladolid
  • 25 de Abril de 1974
  • Revolução de 1974
  • processo revolucionário em curso
  • maio de 1968
  • Alcácer-Quibir

Guerras e conflitos

  • guerra colonial
  • guerra do Vietname

Livros citados

  • Brevíssima relação da destruição das Índias