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Nº 12715 de dezembro de 202139:25efeméride

Os 60 anos da invasão de Goa, Damão e Diu

O episódio analisa os 60 anos da invasão de Goa, Damão e Diu pela União Indiana em dezembro de 1961, pondo fim a 450 anos de presença portuguesa na Índia. Explora as razões da recusa de Salazar em negociar, a estratégia de resistência simbólica, e as consequências políticas do conflito tanto para Portugal como para a Índia. A derrota portuguesa e o tratamento dos militares criaram ressentimentos que viriam a influenciar o golpe de 25 de Abril.

Ideias principais

  1. Salazar recusou negociar a cedência de Goa não por viabilidade militar, mas para não criar precedente para Angola e Moçambique, e porque esperava que a Índia pacifista de Nehru hesitasse em usar a força.
  2. A invasão indiana resultou de pressões internas relacionadas com o conflito com a China na Caxemira e a necessidade eleitoral de uma vitória militar fácil, comprometendo definitivamente a imagem de potência pacifista da Índia.
  3. Portugal mantinha apenas 3.500 soldados em Goa (contra 45.000 indianos) com a estratégia de obrigar a Índia a combater realmente, não permitindo uma ocupação pacífica, para criar constrangimento internacional.
  4. A punição de Vassalo e Silva e dos militares que se renderam criou nas Forças Armadas o receio de serem usados como bodes expiatórios, sentimento que viria a influenciar o movimento do 25 de Abril treze anos depois.
  5. A Índia manteve até hoje a identidade distintiva de Goa, preservando leis portuguesas (incluindo o Código Civil de 1867), nomes de ruas e uma elite política com apelidos portugueses, sendo actualmente o estado mais rico da União Indiana.

Resumo do episódio

Este episódio do podcast *E o Resto é História* assinala os sessenta anos da invasão de Goa, Damão e Diu pela União Indiana, ocorrida a 17 de dezembro de 1961. João Miguel Tavares e Rui Ramos partem de três perguntas essenciais: por que razão a União Indiana invadiu o território português, por que razão Salazar ordenou resistência até ao último homem, e que consequências políticas resultaram da perda desses territórios para Portugal.

Rui Ramos começa por contextualizar a União Indiana, fundada em 1947 como sucessora do Império Britânico no subcontinente. O Partido do Congresso, liderado por Nehru, nunca aceitou plenamente a partilha da Índia e reivindicava para si a totalidade do subcontinente, incluindo as possessões portuguesas e francesas. A França acabou por negociar a cedência de Pondicherry em 1954, mas Portugal recusou. As razões portuguesas assentavam em três pilares: Goa era portuguesa há 450 anos, contava com uma elite católica de cultura lusófona, e a Constituição portuguesa não permitia a cedência de território nacional. Havia ainda um motivo estratégico fundamental: negociar Goa abriria um precedente perigoso para Angola, Moçambique e a Guiné, comprometendo a tese oficial de que Portugal não administrava "territórios não autónomos".

Os apresentadores descrevem Goa como um território singular dentro do império português: sem colonos europeus em número significativo, sem aplicação do Estatuto do Indígena, com níveis de alfabetização comparáveis aos de Portugal e com uma elite local de nomes e cultura portuguesas disseminada por todo o império. Era também a sede histórica do Padroado do Oriente, o que lhe conferia um prestígio simbólico incomparável - chamava-se-lhe a "Roma do Oriente". No entanto, mais de metade da população era hindu e não falava português, o que limitava a penetração real da cultura portuguesa.

Quanto à estratégia portuguesa de resistência, Ramos explica que Salazar nunca acreditou ser possível uma defesa militar eficaz contra um exército dez vezes superior. O objetivo era manter tropas suficientes para forçar a Índia a recorrer visivelmente à força, contando com que o governo de Nehru hesitasse em comprometer a sua reputação de potência pacifista e líder do movimento dos países não alinhados. Esta expectativa revelou-se fundada durante vários anos, mas em 1961 dois fatores mudaram o cálculo indiano: a pressão política interna decorrente da guerra colonial portuguesa em Angola, que tornava difícil para a Índia ignorar Goa sem parecer conivente com o colonialismo, e as tensões fronteiriças com a China no Norte, que terão motivado Nehru a desviar a atenção interna com uma vitória fácil a Sul.

A operação militar durou apenas três dias. Com cerca de 3 500 soldados portugueses contra 45 000 indianos apoiados por marinha e aviação, a resistência foi limitada, embora não inexistente - houve combates na fragata Afonso de Albuquerque e na fortaleza de Diu. O general Vassalo e Silva rendeu-se ao fim do segundo dia, poupando vidas mas contrariando as ordens de Lisboa. Foi posteriormente expulso das Forças Armadas, só sendo reabilitado após o 25 de Abril. Para Portugal, a derrota converteu-se numa narrativa de vitimização útil: o regime pôde apresentar-se como agredido, invertendo o papel que ocupava no debate internacional sobre Angola. Para a Índia, a conquista de Goa foi um desastre em termos de imagem: foi quase condenada no Conselho de Segurança da ONU, perdeu apoio americano e britânico, e um ano depois, em outubro de 1962, sofreu uma invasão chinesa nos Himalaias sem encontrar solidariedade internacional. A perda da região de Aksai Chin, com cerca de 38 000 quilómetros quadrados, foi o preço real da aventura goesa.

Personagens

  • Salazar
  • Jawaharlal Nehru
  • Afonso de Albuquerque
  • Vasco da Gama
  • Francisco de Almeida
  • São Francisco Xavier
  • Mahatma Gandhi
  • Orlando Ribeiro
  • Infante Dom Afonso
  • Infante Dom Augusto
  • Vassalo e Silva
  • Cunha Aragão
  • Oliveira e Carmo
  • Krishna Menon
  • Erlich Pinto
  • John F. Kennedy
  • Marcelo Caetano

Lugares/Países

  • Portugal
  • Índia
  • Goa
  • Damão
  • Diu
  • União Indiana
  • Paquistão
  • Birmânia
  • China
  • França
  • Grã-Bretanha
  • Angola
  • Moçambique
  • Guiné
  • Timor
  • Macau
  • Indonésia
  • Estados Unidos
  • União Soviética

Épocas

  • Estado Novo
  • século XVI
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • Guerra Fria
  • anos 40
  • anos 50
  • anos 60

Temas

  • colonialismo
  • descolonização
  • guerra
  • diplomacia
  • religião
  • império
  • pacifismo
  • resistência militar
  • direito internacional
  • identidade cultural

Eventos

  • invasão de Goa
  • independência da Índia
  • 25 de Abril
  • Batalha de Inglaterra
  • adesão de Portugal às Nações Unidas

Guerras e conflitos

  • invasão de Goa
  • guerra de Angola
  • conflito sino-indiano
  • Guerra Fria

Livros citados

  • relatório de Orlando Ribeiro sobre Goa (1956)