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Nº 13005 de janeiro de 202241:55efeméride

Os 60 anos da revolta de Beja

O episódio analisa a Revolta de Beja de 31 de dezembro de 1961, tentativa de golpe liderada pelo capitão Varela Gomes com apoio de Humberto Delgado, num contexto de crise do Estado Novo após o início da guerra colonial. A revolta fracassou devido à falta de coordenação entre oficiais superiores e jovens conspiradores, à resistência do regime e à desconfiança da oposição tradicional face ao aventureirismo militar. Este foi o último confronto armado contra o salazarismo até 1974.

Ideias principais

  1. A Revolta de Beja foi a única revolta contra o Estado Novo entre 1936 e 1974 onde houve troca de tiros, com três mortos e mais de uma centena de presos, marcando o fim de uma época de conspiração militar.
  2. O golpe inspirava-se na teoria do foco revolucionário de Fidel Castro e Che Guevara, julgando que uma zona libertada poderia provocar o colapso do regime, mas esta leitura mostrou-se irrealista.
  3. Existiam dois movimentos paralelos de descontentamento militar que nunca se coordenaram: o dos generais e oficiais superiores (como Botelho Moniz) e o dos jovens capitães e tenentes dispostos à ação direta.
  4. A PIDE estava informada da conspiração desde junho de 1961 através de um informador junto de Humberto Delgado no Brasil, e o regime demonstrou capacidade de resistência que não teria em 1974.
  5. O envolvimento de Humberto Delgado na Revolta de Beja justificou, do ponto de vista do regime, o seu assassinato pela PIDE em 1965, pois representava um foco constante de perturbação e aventureirismo que a ditadura não conseguia controlar.

Resumo do episódio

O episódio 130 de *E o Resto é História* é dedicado à Revolta de Beja, ocorrida na passagem de 1961 para 1962, num momento em que o Estado Novo atravessava aquilo que Rui Ramos descreve como o seu ano mais conturbado: o início da guerra em África, a perda de Goa, o assalto ao paquete Santa Maria e a tentativa de golpe do ministro da Defesa, general Botelho Muniz. O episódio procura perceber as motivações dos revoltosos, o papel central do general Humberto Delgado e as razões pelas quais a revolta falhou - e em que medida esse fracasso acabou por consolidar o regime por mais doze anos.

Para contextualizar o golpe, Rui Ramos recua aos anos 50, quando a oposição ao salazarismo vivia um período de declínio após as esperanças frustradas do pós-guerra. O regime conseguira integrar-se na NATO, na OCDE e nas Nações Unidas, a Guerra Fria dividira a oposição entre democratas e comunistas, e as tensões mais perigosas para Salazar provinham não da oposição, mas do interior do próprio regime. A disputa entre o Presidente da República Craveiro Lopes e o ministro da Defesa Santos Costa, as cisões entre oficiais superiores e a pressão internacional crescente sobre as colónias portuguesas criaram um ambiente de instabilidade interna. É neste contexto que emerge a candidatura presidencial de Humberto Delgado em 1958 e, pouco depois, uma nova vaga de oposição que inclui católicos, monárquicos e setores até então próximos do regime.

A Revolta de Beja insere-se numa sequência de iniciativas que envolvem sempre os mesmos protagonistas: a chamada Revolta da Sé, em março de 1959, já reunira jovens oficiais, católicos e monárquicos numa tentativa fracassada de golpe em Lisboa. O plano de Beja, baptizado de Operação Ícaro por Humberto Delgado, inspirava-se na teoria do foco revolucionário associada a Fidel Castro: criar um ponto de resistência a partir do qual a revolta se alastraria ao país. A ideia era tomar o Regimento de Infantaria n.º 3, proclamar um governo provisório e aguardar que as divisões no interior do regime levassem os militares a aderir. O capitão João Varela Gomes liderou a ação no terreno, enquanto Humberto Delgado, presente em Beja mas sem papel operacional directo, esperava que o golpe desencadeasse uma reacção em cadeia.

A revolta falhou por várias razões que os apresentadores analisam com detalhe. Em primeiro lugar, apenas seis jovens oficiais estavam envolvidos, a maioria sem comando efectivo de tropas, e a acção dependia da colaboração de civis que entraram no quartel disfarçados com uniformes militares, sem qualquer autoridade reconhecida pelos soldados. Em segundo lugar, o major Calapês Martins, o oficial de serviço, resistiu sozinho com determinação, feriu gravemente Varela Gomes e desmoralizou os revoltosos. Em terceiro lugar, a PIDE sabia da conspiração desde junho de 1961, graças a um informador no círculo próximo de Delgado, e os quartéis estavam em estado de alerta. Por fim, os dois movimentos de descontentamento militar - o dos generais e o dos capitães - nunca se coordenaram: enquanto os oficiais superiores queriam um pronunciamento palacianos, os jovens capitães apostavam numa sublevação de quartel, e os primeiros recusaram envolver-se, como ilustra o caso do coronel Costa Gomes, então estacionado em Beja mas completamente alheio ao golpe.

Rui Ramos sublinha ainda que o Partido Comunista manteve uma distância crítica em relação ao que considerava aventureirismo, embora alguns militantes tenham participado individualmente. A oposição tradicional, tanto democrática como comunista, desconfiava deste núcleo de activistas dispostos à acção directa, que incluía figuras como Manuel Serra e o próprio Varela Gomes - ambos viriam a tornar-se referências do esquerdismo revolucionário em 1975.

Personagens

  • Oliveira Salazar
  • João Varela Gomes
  • Humberto Delgado
  • Henrique Calapês Martins
  • Manuel Serra
  • Francisco Craveiro Lopes
  • Santos Costa
  • Botelho Moniz
  • Costa Gomes
  • António Ferreira Gomes
  • Duarte Nuno de Bragança
  • Almeida Santos
  • Francisco Sousa Tavares
  • Sofia de Mello Breyner
  • Henrique Galvão
  • Hermínio da Palma Inácio
  • Álvaro Cunhal
  • Fidel Castro
  • Che Guevara
  • Jaime Filipe da Fonseca
  • José Cardoso Pires
  • Salgueiro Maia
  • Cândido dos Reis

Lugares/Países

  • Portugal
  • Angola
  • Moçambique
  • Goa
  • Damão
  • Diu
  • Brasil
  • Cuba
  • Marrocos
  • União Soviética
  • Estados Unidos
  • Hungria
  • Polónia
  • Checoslováquia
  • Índia
  • Indochina

Épocas

  • Estado Novo
  • Primeira República
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • anos 50
  • anos 60
  • década de 1940

Temas

  • golpe militar
  • ditadura
  • oposição política
  • colonialismo
  • guerra colonial
  • conspiração
  • repressão política
  • descolonização
  • movimentos revolucionários
  • violência política

Eventos

  • Revolta de Beja
  • 25 de Abril de 1974
  • 5 de Outubro de 1910
  • Golpe Botelho Moniz
  • Revolta da Sé
  • Sequestro do Paquete Santa Maria
  • Operação Ícaro
  • Eleições Presidenciais de 1958
  • Revolta da Marinha de 1936
  • Abrilada de 1961
  • Golpe das Caldas

Guerras e conflitos

  • Guerra Colonial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria

Livros citados

  • A Balada da Praia dos Cães