Nº 20117 de maio de 20231h01resposta a ouvintes
Os 75 anos de Israel e o esqueleto de Ricardo III
O episódio divide-se em dois temas principais: a fundação do Estado de Israel em 1948 e a descoberta do corpo de Ricardo III em 2012. Rui Ramos explica como a desintegração do Império Otomano, a Declaração Balfour de 1917, o Holocausto e os conflitos árabe-israelitas moldaram o Médio Oriente contemporâneo. Na segunda parte, narra a extraordinária história da descoberta do último rei Plantageneta sob um parque de estacionamento em Leicester, graças à teimosia de amadores empenhados.
Ideias principais
- A origem dos conflitos no Médio Oriente remonta à desintegração do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial, quando potências europeias fizeram promessas contraditórias a diferentes grupos étnicos e religiosos.
- A Declaração Balfour de 1917 usou deliberadamente a expressão vaga 'National Home for the Jewish People' em vez de 'Estado', deixando em aberto o que seria estabelecido na Palestina.
- O problema dos refugiados palestinianos perpetuou-se porque os Estados árabes os mantiveram em campos sem cidadania como arma de pressão contra Israel, ao contrário dos refugiados judeus que foram integrados em Israel.
- A descoberta do corpo de Ricardo III em 2012 sob um parque de estacionamento ilustra a cultura britânica de pluralismo intelectual, onde movimentos de amadores e 'contrarians' questionam narrativas históricas oficiais.
- A guerra colonial portuguesa intensificou-se após o 25 de Abril de 1974, com movimentos independentistas a aumentarem operações militares para obterem melhores posições negociais, resultando em mais mortos em combate nos meses seguintes à revolução.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* aborda dois temas distintos: a formação do Estado de Israel, por ocasião do seu 75.º aniversário, e a descoberta dos restos mortais do rei Ricardo III de Inglaterra, motivada pelo recente lançamento do filme *The Lost King*, de Stephen Frears. O episódio inclui ainda uma nota de rectificação sobre afirmações feitas num programa anterior relativo à guerra colonial portuguesa após o 25 de Abril.
Rui Ramos e João Miguel Tavares situam a origem do conflito israelo-árabe na desintegração do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial. O Império Otomano, que dominara o Médio Oriente, os Balcãs e o Norte de África durante séculos, foi sendo progressivamente enfraquecido a partir do século XVIII e entrou em colapso total com a sua derrota em 1918. Durante o conflito, britânicos e franceses tentaram minar o Império promovendo revoltas internas nas suas comunidades - árabes, cristãos e judias - prometendo-lhes independência. Ao mesmo tempo, em 1916, as duas potências dividiram secretamente entre si as esferas de influência na região, independentemente dessas promessas. É neste contexto que surge, em novembro de 1917, a Declaração de Balfour, pela qual o governo britânico se comprometia a favorecer o estabelecimento de um «lar nacional» para o povo judeu na Palestina - expressão deliberadamente vaga, que evitava comprometer-se com a criação de um Estado. Esta declaração correspondeu aos anseios do movimento sionista, surgido na Europa do século XIX sob influência dos nacionalismos e em reacção ao antissemitismo, e que propunha o retorno dos judeus à antiga terra de Israel.
A imigração judaica para a Palestina foi crescendo ao longo das primeiras décadas do século XX, suscitando tensões com as populações árabes locais. A Segunda Guerra Mundial acelerou decisivamente este processo: os sobreviventes do Holocausto recusaram regressar aos países onde tinham sido perseguidos e convergiram para a Palestina, engrossando uma comunidade que passou de cerca de 400 mil para 700 mil pessoas até 1948. Em 1947, as Nações Unidas propuseram a partilha da Palestina em dois Estados - um judeu e um árabe -, ligados por uma união económica. Os países árabes vizinhos rejeitaram esta solução e, no dia em que o mandato britânico terminou, em maio de 1948, e o Estado de Israel foi proclamado, atacaram-no militarmente. Não conseguiram destruí-lo. Em vez de criarem o Estado árabe previsto, a Jordânia e o Egito anexaram os territórios que lhe estavam destinados. A guerra provocou ainda grandes movimentos populacionais: cerca de 900 mil judeus foram expulsos ou fugiram de países árabes, enquanto aproximadamente 700 mil árabes deixaram os territórios israelitas. Os primeiros foram integrados em Israel; os segundos foram mantidos em campos de refugiados pelos Estados árabes vizinhos, como instrumento de pressão política, uma situação que se prolonga até hoje. A guerra de 1967 complicou ainda mais o quadro, com Israel a ocupar os territórios que tinham sido anexados pela Jordânia e pelo Egito. Os apresentadores sublinham que este problema não é fundamentalmente diferente dos conflitos gerados pelo fim dos impérios multinacionais na Europa Central e Oriental, e que a sua intratabilidade resulta da mistura de populações em territórios muito pequenos e da dificuldade em estabelecer Estados viáveis após o colapso do Império Otomano.
O segundo tema do episódio é a história da descoberta, em 2012, do esqueleto do rei Ricardo III debaixo de um parque de estacionamento em Leicester. Os apresentadores contextualizam a figura histórica do monarca, o último rei da Casa de Iorque, morto na Batalha de Bosworth em 1485, e explicam como a versão negativa que dele ficou - o tirano assassino e corcunda imortalizado por Shakespeare - foi em grande medida construída pela dinastia Tudor, que ascendeu ao poder com a sua morte e precisava de legitimar esse poder. A partir do século XVIII, em Inglaterra, uma tradição de heterodoxia e gosto pela controvérsia levou alguns entusiastas a defender a reputação de Ricardo III, formando-se sociedades dedicadas à sua memória. Foi neste contexto que Philippa Langley, uma amadora determinada, convenceu a Universidade de Leicester a realizar escavações num parque de estacionamento que correspondia ao local do antigo convento franciscano onde o rei
Personagens
- David Ben-Gurion
- Arthur Balfour
- Theodor Herzl
- Ricardo III
- Eduardo IV
- Eduardo V
- Henrique VII (Henry Tudor)
- Henrique VIII
- Eduardo III
- John of Gaunt
- Filipa de Lencastre
- D. Duarte
- D. Afonso V
- D. João II
- Horace Walpole
- Philippa Langley
- Stephen Frears
- William Shakespeare
- David Martel
- Pedro Marquês de Sousa
Lugares/Países
- Israel
- Palestina
- Império Otomano
- Turquia
- Inglaterra
- Grã-Bretanha
- França
- Alemanha
- Áustria
- Rússia
- Egito
- Jordânia
- Iraque
- Síria
- Líbano
- Arábia Saudita
- Estados Unidos
- Grécia
- Sérvia
- Bulgária
- Roménia
- Hungria
- Polónia
- Portugal
- Angola
- Moçambique
- Guiné
Épocas
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra das Rosas
- Idade Média
- Guerra Colonial Portuguesa
Temas
- sionismo
- descolonização
- nacionalismo
- imperialismo
- religião
- guerra
- refugiados
- antissemitismo
- Holocausto
- arqueologia
- legitimidade política
- conflito árabe-israelita
- sucessão dinástica
Eventos
- fundação do Estado de Israel
- Declaração Balfour
- desintegração do Império Otomano
- Batalha de Bosworth
- 25 de Abril de 1974
- Acordos de Oslo
- descoberta do corpo de Ricardo III
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra da Crimeia
- Guerra das Rosas
- Guerra de 1948 (Israel)
- Guerra dos Seis Dias (1967)
- Guerra Colonial Portuguesa
Livros citados
- Dúvidas Históricas sobre a Vida e o Reinado de Ricardo III (Horace Walpole)
- 1974, Cessar Fogo em África (Coronel David Martel)