Nº 10223 de junho de 20211h10efeméride
Os 80 anos da invasão alemã da União Soviética
Análise dos 80 anos da Operação Barbarossa, a invasão alemã da União Soviética em 22 de junho de 1941. Rui Ramos explica as razões estratégicas e ideológicas de Hitler, os planos de colonização racial do território soviético, os erros de cálculo alemães sobre a capacidade militar e demográfica soviética, e como o fracasso da guerra-relâmpago condenou a Alemanha a uma guerra de desgaste que não podia vencer, marcada por violência genocida sem precedentes.
Ideias principais
- Hitler atacou a União Soviética para assegurar recursos necessários a uma guerra mundial com os EUA, considerada inevitável, e porque desconfiava de Stalin apesar da aliança de 1939-1941.
- A inteligência militar alemã subestimou catastroficamente o exército soviético: esperava 150-200 divisões (2,5 milhões), mas enfrentou mais de 360 divisões (5 milhões), com capacidade de mobilizar 14 milhões de homens.
- A guerra racial nazi transformou potenciais aliados (ucranianos, bielorrussos) em inimigos: populações que inicialmente receberam alemães como libertadores do comunismo foram brutalizadas por políticas de extermínio e escravização.
- Hitler evitou em dezembro de 1941 o destino de Napoleão ao proibir a retirada do exército alemão perante Moscovo, mantendo-o organizado apesar das perdas, num dos seus melhores golpes militares.
- A Operação Barbarossa marca a transição de guerras convencionais entre Estados para guerra total apocalíptica: entre junho e dezembro de 1941, um milhão de judeus foram assassinados e as 'terras de sangue' da Europa Oriental sofreram devastação sem paralelo.
Resumo do episódio
O episódio 102 do podcast *E o Resto é História* é dedicado ao 80.º aniversário da Operação Barbarossa, a invasão alemã da União Soviética iniciada a 22 de junho de 1941. Rui Ramos e João Miguel Tavares abordam três grandes questões: os planos nazis para os territórios ocupados, a viabilidade da operação face aos recursos disponíveis, e as razões do seu fracasso.
Rui Ramos começa por contextualizar a decisão de Hitler no quadro estratégico de 1941. A Alemanha dominava a Europa Ocidental mas não conseguia submeter o Reino Unido, enquanto os Estados Unidos se aproximavam cada vez mais do conflito. O pacto nazi-soviético de 1939 tornara Stalin um aliado comercial fundamental, fornecedor de petróleo e matérias-primas, mas Hitler desconfiava profundamente dele. A União Soviética expandira-se agressivamente - ocupara metade da Polónia, atacara a Finlândia, anexara os países bálticos e territórios romenos - e o seu exército estava concentrado nas fronteiras, ameaçando os campos de petróleo da Roménia, essenciais para a máquina de guerra alemã. Hitler concluiu que, perante a inevitabilidade de uma guerra mundial alargada, era necessário controlar diretamente os recursos soviéticos. A isto somava-se a convicção de que a União Soviética era vulnerável: as purgas de Estaline tinham dizimado o comando militar soviético, e o fraco desempenho do Exército Vermelho contra a Finlândia confirmara essa impressão. Além disso, 85% dos alemães em idade militar já estavam mobilizados, conferindo à Alemanha uma vantagem de prontidão considerável. O plano era uma guerra relâmpago de dois a três meses, destruindo o exército soviético na fronteira e provocando o colapso do poder soviético - Hitler chegou a prever estar em Moscovo a 15 de agosto.
As primeiras semanas pareceram confirmar o otimismo alemão: centenas de milhar de prisioneiros, milhares de tanques e aviões soviéticos destruídos, e um avanço veloz em direção a Moscovo. Porém, os alemães descobriram rapidamente que tinham subestimado de forma dramática o tamanho do Exército Vermelho - calculavam enfrentar cerca de 150 a 200 divisões, mas os soviéticos dispunham de mais de 360. As perdas soviéticas eram colossais, mas Estaline conseguia substituí-las continuamente: o exército que em junho contava 5,3 milhões de homens chegou a dezembro com 8 milhões. Em contraste, a Alemanha tinha lançado quase tudo o que possuía e dificilmente repunha as suas baixas. A produção industrial soviética de tanques superou também a alemã já em 1941. A guerra relâmpago havia falhado, e a Alemanha estava agora condenada a uma guerra de desgaste para a qual não estava preparada.
Os apresentadores sublinham ainda dois erros políticos e militares decisivos. Por um lado, o tratamento brutal das populações civis - fruto da conceção racial nazi, que via os eslavos como povos inferiores a exterminar ou explorar - alienou populações que inicialmente receberam os alemães como libertadores do jugo soviético. Por outro lado, Estaline soube responder abandonando a retórica comunista e apelando ao patriotismo russo, mobilizando a população em torno dos grandes heróis medievais da Rússia e suspendendo a perseguição à Igreja Ortodoxa. A guerra a leste assumiu também uma dimensão de extermínio sem precedentes: nos seis meses finais de 1941, cerca de um milhão de judeus foram assassinados nos territórios ocupados, marcando a transição da política nazi para o genocídio sistemático.
O episódio termina com uma reflexão mais ampla sobre a natureza da guerra moderna. Em resposta a uma pergunta de um ouvinte sobre as atrocidades cometidas em tempo de guerra, Rui Ramos argumenta que a violência em grande escala não é apenas expressão de instintos primitivos, mas resulta de transformações políticas e conceptuais que, entre os séculos XIX e XX, converteram a guerra numa empresa total, visando a destruição de Estados e sociedades inteiras. O exemplo da marcha do general Sherman pela Georgia, em 1864, ilustra como esta lógica de "mão dura da guerra" sobre toda a população foi progressivamente incorporada na condução dos conflitos modernos - da qual a guerra entre a Alemanha nazi e a União Soviética representa o exemplo mais extremo e devastador.
Personagens
- Adolf Hitler
- Joseph Stalin
- Joachim von Ribbentrop
- Franz Halder
- Wilhelm Keitel
- William Sherman
- Alexandre Nevsky
- Sergei Eisenstein
- Timothy Snyder
- Stephen Kotkin
- Napoleão
Lugares/Países
- Alemanha
- União Soviética
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- Estados Unidos
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- Roménia
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- Bielorrússia
- Países Bálticos
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- Georgia
- China
Épocas
- Segunda Guerra Mundial
- Primeira Guerra Mundial
- século XX
- século XVIII
- século XIX
- anos 30
- anos 40
Temas
- guerra
- genocídio
- racismo
- imperialismo
- totalitarismo
- estratégia militar
- guerra total
- colonialismo
- limpeza étnica
- violência de guerra
- prisioneiros de guerra
- crimes contra a humanidade
- mobilização militar
- produção bélica
Eventos
- Operação Barbarossa
- Operação Tufão
- Batalha de Stalingrado
- Pacto Molotov-Ribbentrop
- Purgas de Stalin
- Grande Fome da Ucrânia
- Holocausto
- Guerra Civil Russa
- Marcha de Sherman
- Coletivização soviética
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Primeira Guerra Mundial
- Guerra Civil Americana
- Guerra Germano-Soviética
- Guerra Russo-Finlandesa
- Guerra Civil Russa
- Guerra Sino-Japonesa
Livros citados
- Bloodlands (Timothy Snyder)