Nº 19429 de março de 202351:07resposta a ouvintes
Os Descobrimentos são famosos fora de Portugal?
O episódio aborda três temas: o reconhecimento internacional dos Descobrimentos portugueses, a importância intelectual de António José Saraiva, e o impacto duradouro do filme Casablanca. Rui Ramos explica por que razão Colombo tem maior projeção que Vasco da Gama na imaginação histórica global, analisa a coragem intelectual de Saraiva no Portugal do século XX, e discute as razões da permanência de Casablanca como obra cinematográfica emblemática.
Ideias principais
- Os Descobrimentos portugueses são reconhecidos pelos especialistas, mas Colombo tem maior impacto na imaginação popular por ter descoberto um continente desconhecido, não apenas uma rota para um mundo já conhecido.
- A descoberta da América beneficiou de melhor promoção histórica, especialmente pelos Estados Unidos no século XX, enquanto Portugal teve menos capacidade de projeção internacional.
- António José Saraiva foi um dos espíritos mais livres do Portugal contemporâneo, rompendo com o marxismo após Maio de 1968 e defendendo o liberalismo durante o período revolucionário, mantendo independência intelectual face ao regime e à oposição.
- A obra 'Inquisição e Cristãos Novos' revolucionou os estudos históricos ao questionar a validade dos testemunhos obtidos sob tortura, aplicando dúvida metodológica semelhante à dos processos estalinistas.
- Casablanca tornou-se um filme icónico não por uma qualidade única mas pela acumulação de virtudes: grande realização, elenco excepcional, temas universais (amor versus dever), e a representação do sacrifício individual por uma causa maior.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares abordam três temas distintos, partindo de uma pergunta enviada por um ouvinte sobre o reconhecimento internacional dos Descobrimentos portugueses.
A questão de partida é directa: os feitos dos navegadores portugueses nos séculos XV e XVI são devidamente reconhecidos fora de Portugal? Rui Ramos começa por afastar qualquer teoria da conspiração - entre os especialistas em história das explorações marítimas, o papel de Portugal é reconhecido sem ambiguidade. Porém, na chamada história popular e no imaginário colectivo, os portugueses tendem a ficar na sombra. Os apresentadores identificam aquilo que descrevem como um duplo azar histórico. O primeiro é que os portugueses empenharam-se na descoberta de uma rota marítima para o Oriente, ligando mundos que já comunicavam por outras vias - uma proeza extraordinária, mas que não produziu o impacto imaginativo de descobrir um continente desconhecido. A chegada de Colombo às Américas, ao revelar um mundo ignorado pelos europeus, gerou uma sensação incomparavelmente maior, como ilustra o facto de Maquiavel, no início do século XVI, se ter comparado a Colombo - e não a Vasco da Gama - para transmitir a novidade radical do seu pensamento político. O segundo azar é de natureza documental e biográfica: Colombo era um empreendedor singular, uma espécie de aventureiro que vendeu a sua ideia a várias coroas europeias, deixando um rasto imenso de documentos, cartas e reflexões pessoais. Os navegadores portugueses, sendo na sua maioria fidalgos a cumprir missões ao serviço do rei, deixaram muito menos traço escrito, tornando-os personagens menos apetecíveis para filmes, documentários ou biografias. Magalhães poderia rivalizar com Colombo em termos de dramatismo, mas navegou ao serviço de Espanha - mais um azar para o cânone português.
O segundo tema do episódio é uma homenagem a António José Saraiva, intelectual português falecido há trinta anos. Coautor, com Oscar Lopes, da mais influente história da literatura portuguesa do século XX, Saraiva foi também um dos espíritos mais independentes do Portugal da segunda metade do século passado. Começou como intelectual comunista nos anos 50, mas rompeu com o Partido Comunista no início da década de 60, experiência que o Maio de 68 em Paris veio radicalizar. A partir daí, tornou-se um contestatário de todas as ideias feitas, fosse a ortodoxia do regime, fosse a da oposição. O seu livro *Inquisição e Cristãos-Novos* é um exemplo desta postura: Saraiva fez a pergunta que ninguém ousara formular - até que ponto são credíveis as confissões obtidas sob tortura pela Inquisição? Os apresentadores destacam a sua prosa de clareza excepcional, a sua coragem para desagradar a todos, e a sua capacidade de fazer perguntas elementares que outros consideravam respondidas. Em 1979, num artigo sobre o 25 de Abril, criticou simultaneamente a descolonização e a ausência de julgamento dos responsáveis salazaristas, irritando toda a gente - da esquerda à direita.
O terceiro tema é o aniversário dos oitenta anos da estreia de *Casablanca*. Os apresentadores explicam o sucesso imediato do filme pela sua coincidência com o desembarque americano no Norte de África em 1942, que tornava Marrocos assunto do momento. Mas o que justifica a sua permanência? Rui Ramos recupera a análise de Umberto Eco: o filme acumula uma quantidade incomum de ingredientes apelativos - grandes actores, realizador de primeiro plano, tensão entre amor e dever, contraste entre aparência e realidade dos personagens, ambiente exótico e uma violência constantemente diferida que mantém o espectador em suspense. Acrescenta ainda uma dimensão que ressoa nos dias de hoje: a ideia de que os protagonistas se sacrificam por uma causa maior do que a sua felicidade individual, um romantismo que contrasta com o individualismo contemporâneo e que confere ao filme uma nostalgia duradoura.
Personagens
- Vasco da Gama
- Cristóvão Colombo
- Bartolomeu Dias
- Diogo Cão
- Fernão de Magalhães
- Nicolau Maquiavel
- Tito Lívio
- Jacques Brel
- António José Saraiva
- José Hermano Saraiva
- Salazar
- Oscar Lopes
- Teófilo Braga
- Fidelino de Figueiredo
- Bernardino Ribeiro
- Gil Vicente
- Camões
- Fernando Mendes Pinto
- Padre António Vieira
- Garrett
- Alexandre Herculano
- Oliveira Martins
- Antero de Quental
- Eça de Queiroz
- Fernando Pessoa
- Teresa Rita Lopes
- Vítor Nemésio
- Stalin
- Humphrey Bogart
- Ingrid Bergman
- Michael Curtiz
- Peter Lorre
- Fritz Lang
- Marshal Pétain
- Umberto Eco
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- Índia
- China
- América
- Estados Unidos
- Inglaterra
- França
- Bélgica
- Itália
- Alemanha
- Marrocos
- Caraíbas
- Madeira
- Lisboa
- Oxford
- Paris
Épocas
- século XV
- século XVI
- século XIX
- século XX
- Estado Novo
- anos 50
- anos 60
- anos 70
- 25 de Abril
- Segunda Guerra Mundial
Temas
- descobrimentos
- expansão marítima
- historiografia
- literatura portuguesa
- intelectuais
- marxismo
- oposição política
- descolonização
- cinema
- Inquisição
- cristãos-novos
- judaísmo
- tortura
- liberdade
- socialismo
- liberalismo
- censura
Eventos
- descoberta da América
- chegada à Índia (1498)
- ultrapassagem do Cabo das Tormentas (1488)
- 25 de Abril de 1974
- descolonização portuguesa
- Maio de 1968
- desembarque americano no Norte de África (1942)
- Pearl Harbor
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
Livros citados
- História da Literatura Portuguesa (António José Saraiva e Oscar Lopes)
- Filhos de Saturno (António José Saraiva)
- O Príncipe (Maquiavel)
- Discurso sobre a primeira década de Tito Lívio (Maquiavel)
- Inquisição e Cristãos Novos (António José Saraiva)
- Crepúsculo da Idade Média em Portugal (António José Saraiva)