Nº 6109 de setembro de 202040:03resposta a ouvintes
Os grandes planos económicos para mudar o país
O episódio analisa a tradição portuguesa de planos económicos estratégicos, desde as visões liberais do século XIX até aos planos de fomento do Estado Novo e planos contemporâneos. Rui Ramos responde a uma pergunta de Nuno Palma sobre por que razão a revolução liberal não gerou crescimento económico sustentado, ao contrário da industrialização do Estado Novo. A segunda parte dedica-se à Guerra de Inverno finlandesa (1939-40) e ao papel da Finlândia na Segunda Guerra Mundial.
Ideias principais
- Os planos económicos portugueses remontam ao Estado Novo (1953), com planos de fomento que efectivamente industrializaram o país, ao contrário de meras 'visões' anteriores.
- A revolução liberal do século XIX transformou radicalmente as instituições políticas e jurídicas mas não gerou crescimento económico devido a desequilíbrios financeiros do Estado, dívida pública elevada e protecionismo fiscal.
- Os liberais do século XIX não pretendiam criar um país industrial mas sim um país de lavradores prósperos, sendo a industrialização portuguesa um fenómeno do Estado Novo pós-1950.
- A resistência finlandesa à invasão soviética em 1939-40 humilhou o Exército Vermelho e convenceu Hitler de que poderia derrotar a URSS rapidamente, motivando a Operação Barbarossa de 1941.
- A guerra finlandesa quase levou França e Inglaterra a declarar guerra à União Soviética em 1940, o que teria criado uma Segunda Guerra Mundial com as duas potências totalitárias aliadas contra as democracias ocidentais.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares exploram dois temas distintos: a história dos grandes planos económicos em Portugal e o papel da Finlândia na Segunda Guerra Mundial.
A conversa parte do plano económico apresentado por António Costa e Silva para o período 2020–2030, e da tradição portuguesa de produzir documentos estratégicos que raramente saem da gaveta - como o célebre relatório Porter, encomendado em 1994 ao professor de Harvard Michael Porter por meio milhão de euros e rapidamente esquecido. Rui Ramos propõe distinguir entre "visões" e "planos" propriamente ditos. As primeiras remontam à lei das sesmarias do rei D. Fernando, que obrigava os proprietários a cultivar terras incultas, passando pelas reformas liberais de Mouzinho da Silveira nos anos 1830, que desmantelaram as restrições do Antigo Regime, e pelas grandes obras públicas dos anos 1850 - caminhos de ferro, estradas, telégrafos e crédito. Os planos formais, com objetivos mensuráveis e prazos definidos, só surgem depois da Segunda Guerra Mundial, quando as contas nacionais passam a permitir avaliar resultados. Em Portugal, isso corresponde aos Planos de Fomento do Estado Novo, a partir de 1953, destinados a industrializar o país através de barragens, refinarias e indústrias de base, com o Estado a criar condições para o investimento privado. Ao contrário do mito de que Salazar queria um Portugal rural, estes planos visavam explicitamente a industrialização. Rui Ramos nota ainda que muitas das equipas técnicas que dirigiram a economia após o 25 de Abril tinham sido formadas nos quadros do Estado Novo, sublinhando uma continuidade institucional muitas vezes ignorada.
A segunda parte do episódio responde a uma pergunta do economista Nuno Palma: se a Revolução Liberal foi tão importante, porque é que o século XIX não gerou crescimento económico sustentado em Portugal? Rui Ramos argumenta que os liberais não pretendiam criar um país industrial - o seu ideal era uma agricultura próspera e aldeias educadas. O problema foi que os desequilíbrios financeiros do Estado liberal - dívida pública elevada, fiscalidade pesada, monopólios estabelecidos por necessidade fiscal e protecionismo alfandegário - tornaram o ambiente pouco propício ao empreendedorismo privado e à inovação. A Portugal faltava também carvão para alimentar máquinas a vapor, e os seus produtos de exportação, como o vinho e as conservas, tinham menos procura internacional do que os cereais ou os laticínios. A verdadeira transformação económica só ocorreu a partir dos anos 1950–60, com a integração na EFTA e o desenvolvimento de uma indústria têxtil exportadora no norte do país. O liberalismo foi, ainda assim, uma revolução cultural e institucional decisiva, que ensinou os portugueses a pensarem-se como indivíduos titulares de direitos perante um Estado limitado pela representação nacional.
O episódio encerra com um segmento dedicado à Finlândia, em homenagem a um radioamador finlandês que captou a Rádio Observador a mais de quatro mil quilómetros de distância. Os apresentadores descrevem a Guerra de Inverno de 1939–40, em que a União Soviética, desejosa de recuperar territórios do antigo Império Russo e de criar uma zona tampão em torno de Leningrado, atacou a Finlândia com um exército de um milhão de homens. O pequeno exército finlandês, comandado pelo marechal Mannerheim - general de origem alemã que servira o exército russo -, infligiu ao invasor perdas enormes, superiores a cem mil mortos, num dos invernos mais rigorosos de sempre. A humilhação soviética convenceu Hitler de que seria possível destruir o Exército Vermelho numa campanha de poucos meses, contribuindo assim para a decisão de lançar a Operação Barbarossa em junho de 1941. Em sentido inverso, o Japão, que havia derrotado pelos soviéticos na Mongólia em 1939, retirou conclusões opostas e evitou entrar em guerra com a URSS. A Finlândia aliou-se temporariamente à Alemanha em 1941 para recuperar os territórios perdidos, mas assinou um armistício com a União Soviética em 1944, escapando à ocupação soviética em troca da neutralidade e da cedência de parte do seu território.
Personagens
- António Costa e Silva
- Michael Porter
- D. Fernando I
- Mouzinho da Silveira
- Fontes Pereira de Melo
- Correio de Oliveira
- Nuno Palma
- Engels
- Marx
- Dickens
- Alexandre Herculano
- Carl Gustaf Emil Mannerheim
- Stalin
- Hitler
- Zhukov
Lugares/Países
- Portugal
- Inglaterra
- França
- Estados Unidos
- Finlândia
- União Soviética
- Alemanha
- Europa
- Rússia
- Suécia
- Noruega
- Polónia
- Roménia
- Países Bálticos
- Japão
- Mongólia
Épocas
- Século XIV
- Século XVIII
- Século XIX
- Século XX
- Anos 1820-1830
- Anos 1850
- Anos 1950-1960
- Estado Novo
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
Temas
- Economia
- Planeamento económico
- Industrialização
- Liberalismo
- Proteccionismo
- Finanças públicas
- Infraestruturas
- Integração europeia
- Guerra
- Neutralidade
Eventos
- Relatório Porter
- Revolução Liberal
- Lei das Sesmarias
- Planos de Fomento
- Adesão à EFTA
- Associação à CEE
- Queda do Muro de Berlim
- Operação Barbarossa
- Pacto Molotov-Ribbentrop
Guerras e conflitos
- Guerra Civil Liberal
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra de Inverno
- Guerra de Continuação
- Batalhas de Khalkhin Gol
Livros citados
- Visão estratégica para o plano de recuperação económica de Portugal 2020-2030