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Nº 1523 de outubro de 201942:27análise histórica

Os influencers do século XIX e o nascimento da polícia

O episódio explora quem eram os "influenciadores" do passado em Portugal - padres, aristocratas, jornalistas e artistas - e como moldavam a opinião pública numa sociedade maioritariamente analfabeta. Analisa também a constante tentativa de modernização do Estado português desde o século XIX, as práticas matrimoniais e sexuais surpreendentemente diferentes do estereótipo vitoriano, e a história da polícia em Portugal, que só se tornou verdadeiramente nacional no século XX com a Guarda Nacional Republicana.

Ideias principais

  1. Os "influentes" do século XIX eram padres, grandes proprietários e caciques que mobilizavam eleitores através de dependência económica e enquadramento social, funcionando como intermediários entre o poder político e uma população maioritariamente analfabeta.
  2. A reforma e modernização do Estado português é uma preocupação constante desde os anos 1970, mas tem raízes no século XIX liberal, oscilando ciclicamente entre centralização e descentralização administrativa.
  3. Ao contrário do estereótipo vitoriano, a sociedade portuguesa do século XIX tinha casamentos tardios, elevadas taxas de ilegitimidade, mulheres a trabalhar no campo (especialmente no Minho) e grande vulnerabilidade das mulheres pobres ao abuso sexual.
  4. Portugal não teve polícia nacional até ao século XX: fora de Lisboa e Porto, a segurança pública era assegurada pelo exército e por cidadãos recrutados compulsoriamente, com a GNR a generalizar-se apenas após 1912.
  5. A influência social no século XIX dependia da hierarquia: a corte e a família real ditavam modas e consumos através de uma "cascata" de imitação social, sendo os aristocratas os principais influenciadores por poderem inovar sem sanção social.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de um acontecimento contemporâneo - a receção de influenciadores digitais pelo Presidente Marcelo no Palácio de Belém - para explorar quem desempenhava funções análogas de mediação e influência social em Portugal no século XIX. A conversa desenvolve-se em três grandes blocos temáticos: os «influentes» do passado, a questão da reforma do Estado e as estruturas familiares e sexuais da sociedade portuguesa oitocentista, terminando com a origem da polícia em Portugal.

Quanto aos influenciadores do passado, os apresentadores distinguem dois tipos. O primeiro era de natureza política e eleitoral: os chamados «influentes», grandes proprietários rurais, rendeiros e sobretudo o clero paroquial, que mobilizavam populações para votar num determinado sentido. Os padres ocupavam um lugar central nesta rede, funcionando como funcionários do Estado através do Ministério da Justiça e Cultos, mas mantendo simultaneamente uma lealdade ao Vaticano que tornava a sua relação com os políticos liberais ambígua e por vezes tensa. O segundo tipo de influência era de cariz cultural e de costumes: a família real e a aristocracia ditavam modas e comportamentos que as classes médias emergentes aspiravam imitar. Os anúncios de jornal da época invocavam o patrocínio da corte como sinal de qualidade, e figuras como o Príncipe de Gales impunham tendências de vestuário por toda a Europa. A este grupo somavam-se jornalistas, escritores e artistas de ópera, cujo prestígio, associado à vida boémia, os tornava modelos culturais com alcance limitado mas real, tal como Eça de Queirós ilustrou no retrato da sociedade lisboeta de Os Maias.

O segundo tema é a reforma do Estado, introduzida a propósito da criação de um novo ministério da modernização administrativa pelo governo português. Rui Ramos recua ao período liberal para mostrar que a tensão entre um Estado eficiente e uma sociedade livre é estrutural desde o século XIX. As reformas de Mouzinho da Silveira nos anos 1830 separaram poderes judiciais e administrativos, mas a questão do peso, do custo e da centralização do Estado nunca saiu da agenda política. O historiador conta uma anedota ilustrativa do ministério do Reino, onde um funcionário guardava na gaveta dois projetos de código administrativo - um centralizador e outro descentralizador - prontos a oferecer ao ministro de turno que quisesse ficar associado a uma grande reforma. Em Portugal, um ministério da reforma administrativa surge pela primeira vez apenas em 1978, mas o impulso de reorganizar o Estado é contínuo e raramente conclusivo.

A terceira parte aborda os usos e costumes matrimoniais e sexuais dos portugueses no passado, em resposta a uma pergunta de um ouvinte. Os apresentadores desmontam três ideias preconcebidas: a da «moralidade vitoriana» generalizada, a da repressão total da sexualidade e a de uma sociedade homogénea. Na realidade, os casamentos eram tardios - por volta dos 28 ou 29 anos - porque casar exigia recursos económicos para constituir uma unidade familiar autónoma. Quando esses recursos faltavam, as pessoas simplesmente não casavam, mas nem por isso se abstinham de relações sexuais, daí a elevada proporção de nascimentos «ilegítimos», estatuto legal que só desapareceu nos anos 1970. As mulheres pobres e as criadas eram especialmente vulneráveis ao abuso sexual por parte de empregadores e superiores hierárquicos, o que ajuda a compreender, segundo Rui Ramos, por que razão a retirada da mulher do mercado de trabalho após o casamento era também uma forma de proteção social. O episódio termina com a história da polícia em Portugal: dos quadrilheiros medievais, habitantes de Lisboa recrutados compulsoriamente para rondas urbanas sem remuneração, à Intendência Geral da Polícia criada pelo Marquês de Pombal em 1760 e à Guarda Real de Polícia de 1801. Para a maior parte do país, contudo, foi só com a criação da Guarda Nacional Republicana, a partir de 1912, que a experiência de uma polícia nacional se tornou uma realidade quotidiana.

Personagens

  • Marcelo Rebelo de Sousa
  • Mouzinho da Silveira
  • Alexis de Tocqueville
  • Eduardo VII
  • Rainha Vitória
  • Marquês de Fronteira e Alorna
  • Carlos da Maia
  • Eça de Queiroz
  • Mário Soares
  • Rui Pena
  • Júlio de Vilhena
  • Marquês de Pombal
  • D. Fernando

Lugares/Países

  • Portugal
  • França
  • Inglaterra
  • Arábia Saudita
  • Vaticano
  • Brasil

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • século XIV
  • século XVIII
  • anos 60
  • anos 70
  • Estado Novo

Temas

  • influência política
  • administração pública
  • modernização do Estado
  • Igreja e Estado
  • caciquismo
  • comportamento sexual
  • casamento
  • família
  • ilegitimidade
  • analfabetismo
  • imprensa
  • moda
  • aristocracia
  • trabalho feminino
  • abuso sexual
  • propriedade
  • migração
  • segurança pública
  • polícia

Eventos

  • Revolução Liberal
  • Guerra Civil (1832-1834)
  • Segunda Guerra Mundial
  • Revolução de 1910

Guerras e conflitos

  • Guerra Civil entre miguelistas e liberais

Livros citados

  • Os Maias
  • Memórias do Marquês de Fronteira e Alorna