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Nº 29426 de fevereiro de 202540:20resposta a ouvintes

Os três maiores chefes militares da nossa História

Rui Ramos e João Miguel Tavares elegem os três maiores chefes militares da história de Portugal, excluindo reis: Nuno Álvares Pereira, o herói da independência de 1383-1385 e figura mítica de santidade; Afonso de Albuquerque, o grande conquistador da expansão ultramarina no Oriente; e o Marechal Saldanha, o caudilho liberal do século XIX que sustentou militarmente o regime constitucional através de sucessivas guerras civis e golpes de Estado.

Ideias principais

  1. Nuno Álvares Pereira é considerado unanimemente o maior líder militar português, distinguindo-se não só pela competência militar mas também pela dimensão mística e de santidade que adquiriu, sendo beatificado em 1918 e canonizado em 2008.
  2. Afonso de Albuquerque foi o grande conquistador português no Oriente, tomando Ormuz, Goa e Malaca, tornando-se a figura que permitiu aos portugueses do século XVI terem um herói comparável aos grandes conquistadores da Antiguidade Clássica como Alexandre e César.
  3. O Marechal Saldanha representa a figura única do caudilho militar na história portuguesa, tendo sido o sustentáculo do exército do liberalismo durante as guerras civis do século XIX e mantido ascendente político-militar até dar o último golpe de Estado aos 80 anos em 1870.
  4. A selecção privilegia não apenas a competência militar mas sobretudo a importância histórica decisiva em três processos fundamentais: a formação e defesa da independência medieval, a expansão ultramarina, e a modernização liberal do Estado no século XIX.
  5. Todos os três líderes escolhidos combinam eficácia militar no campo de batalha com uma dimensão simbólica e carismática que os transformou em figuras míticas da cultura portuguesa, representando diferentes modelos de heroísmo militar ao longo dos séculos.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem ao desafio lançado por um ouvinte, Augusto de Sousa, que pediu uma lista dos três maiores líderes militares da história de Portugal. Antes de avançarem para os nomes, os apresentadores estabelecem os critérios de selecção: não se trata de eleger os reis mais guerreiros - esses já tiveram o seu próprio episódio -, mas sim soldados profissionais cuja acção foi decisiva em processos históricos que definiram o destino do país. A competência individual numa batalha isolada não chega; o que conta é a importância estrutural para a história portuguesa.

O primeiro escolhido é Nuno Álvares Pereira, figura que Rui Ramos considera praticamente indisputável no topo deste pódio. A sua acção centra-se na crise de 1383-1385, quando o rei de Castela reclamou a coroa portuguesa e uma parte significativa da nobreza o apoiou. Nuno Álvares tinha apenas 23 anos quando tomou o partido do Mestre de Avis, Dom João, e rapidamente se tornou o principal comandante militar da causa portuguesa. O cronista Fernão Lopes retrata-o como um chefe capaz de tomar decisões rápidas, de impor disciplina e de galvanizar as tropas, preferindo a batalha decisiva aos cercos prolongados que eram o modo de guerra habitual da época. As vitórias nas Batalhas de Atoleiros e de Aljubarrota consolidaram a independência portuguesa e fizeram dele uma figura lendária ainda em vida. Depois de se tornar religioso carmelita em 1423, a sua reputação de santidade cresceu ao longo dos séculos, culminando na beatificação em 1918 e na canonização em 2008. Fernando Pessoa chegaria a chamá-lo "São Portugal em ser", síntese perfeita da fusão entre o guerreiro e o místico que a memória colectiva forjou à sua volta.

O segundo nome é Afonso de Albuquerque, segundo governador da Índia entre 1508 e 1515, que os apresentadores enquadram no processo da expansão ultramarina. Camões chamou-lhe "o grande capitão", e é sobretudo como comandante militar que Rui Ramos o apresenta, apesar das funções políticas que também desempenhou. Foi Albuquerque quem conquistou Ormuz, Goa e Malaca, lançando as bases do domínio marítimo português no Oriente. A sua importância cultural residia também em satisfazer uma necessidade da época: a cultura portuguesa do século XVI, obcecada com a Antiguidade Clássica, precisava de um conquistador comparável a Alexandre da Macedónia ou a Júlio César. A par da fama militar, Albuquerque ficou associado ao tema da ingratidão da pátria, expresso na frase que lhe é atribuída - "mal com el-rei por amor dos homens, mal com os homens por amor de el-rei" -, tornando-se um arquétipo do servidor de Portugal não recompensado.

O terceiro escolhido é João Carlos de Saldanha, nascido em 1790, neto do Marquês de Pombal e figura central das guerras civis liberais do século XIX. Rui Ramos enquadra-o num processo histórico diferente dos anteriores: a modernização e transformação do Estado português, que gerou divisões profundas e conflitos armados nas décadas de 1820, 1830 e 1840. Saldanha forjou-se nas guerras peninsulares contra os franceses e depois nas campanhas militares no Uruguai, chegando a general aos 27 anos. Mas foi nas guerras liberais que se tornou indispensável: foi ele que rompeu o cerco do Porto em julho de 1833 e o cerco de Lisboa em outubro do mesmo ano, liderando pessoalmente cargas de cavalaria numa temeridade que lhe granjeou uma devoção quase irracional por parte das tropas. Oliveira Martins chamou-lhe o "Cid Liberal". Com uma vida política longa e turbulenta, cheia de mudanças de campo e de golpes de Estado, Saldanha deu o último golpe aos 80 anos, em 1870, porque sabia que o exército o seguiria sempre. O rei Dom Pedro V resumiu-o bem: era uma pessoa que não se parecia com ninguém.

Personagens

  • Nuno Álvares Pereira
  • D. Afonso Henriques
  • D. Fernando I
  • D. João I
  • Fernão Lopes
  • Matias de Albuquerque
  • André Vidal de Negreiros
  • Henrique Dias
  • Felipe Camarão
  • D. Sancho Manuel de Vilhena
  • Duque de Wellington
  • Marechal Beresford
  • Afonso de Albuquerque
  • D. Manuel I
  • Vasco da Gama
  • D. Duarte de Menezes
  • D. Francisco de Almeida
  • Luís de Camões
  • Paio Peres Correia
  • Padre António Vieira
  • Mousinho de Albuquerque
  • Henrique de Paiva Couceiro
  • João Carlos de Saldanha
  • D. João VI
  • Rainha D. Carlota Joaquina
  • Marquês de Pombal
  • Conde de Rio Maior
  • D. Pedro IV
  • D. Miguel I
  • D. Pedro V
  • Fernando Pessoa
  • Oliveira Martins
  • Alexandre da Macedónia
  • Júlio César
  • Napoleão Bonaparte
  • Simón Bolívar

Lugares/Países

  • Portugal
  • Castela
  • Espanha
  • França
  • Brasil
  • Uruguai
  • Índia
  • Pérsia
  • Moçambique
  • Angola
  • África
  • Ásia
  • América do Sul
  • Algarve
  • Alentejo
  • Goa
  • Malaca
  • Ormuz
  • Mar Vermelho
  • Jerusalém
  • Montevideu

Épocas

  • Idade Média
  • século XIV
  • século XV
  • século XVI
  • século XIX
  • século XX
  • 1383-1385
  • 1640-1668
  • 1807-1813

Temas

  • guerra
  • liderança militar
  • independência
  • expansão ultramarina
  • colonialismo
  • guerras civis
  • liberalismo
  • constitucionalismo
  • modernização do Estado
  • religião
  • santidade
  • cavalaria
  • cruzadas
  • diplomacia

Eventos

  • Batalha de Aljubarrota
  • Batalha dos Atoleiros
  • Conquista de Goa
  • Conquista de Malaca
  • Conquista de Ormuz
  • Batalha de Montijo
  • Batalha dos Guararapes
  • Batalha das Linhas de Elvas
  • Batalha de Ameixial
  • Revolução Francesa
  • Independência do Brasil
  • Regeneração de 1851

Guerras e conflitos

  • Reconquista
  • Crise de 1383-1385
  • Guerra da Restauração
  • Invasões Francesas
  • Guerras Peninsulares
  • Guerra da Patuleia
  • Guerra Civil portuguesa (1832-1834)
  • Conquista do Uruguai

Livros citados

  • Crónica de D. João I
  • Os Lusíadas
  • Mensagem
  • Portugal Contemporâneo