← Arquivo

Nº 11201 de setembro de 202156:03resposta a ouvintes

Os três maiores reis da História de Portugal

Rui Ramos e João Miguel Tavares elegem os três maiores reis da História de Portugal (excluindo D. Afonso Henriques): D. Afonso III (1248-1279), pela organização administrativa do reino e introdução de uma cultura escrita associada ao poder; D. João II (1481-1495), pela centralização absoluta do poder e ambições imperiais peninsulares; e D. José I (1750-1777), pela criação através de Pombal de um poder reformista que governa de cima para baixo. O episódio inclui também uma análise sobre os imperadores romanos Marco António e Marco Aurélio.

Ideias principais

  1. D. Afonso III marca a transição do rei conquistador para o rei organizador, criando as primeiras inquirições gerais, o arquivo da chancelaria régia e convocando as primeiras cortes com representantes dos concelhos em 1254.
  2. D. João II representa o absolutismo régio ao eliminar as grandes casas senhoriais (Bragança, Viseu) e tornar-se o único poder sem rival no reino, beneficiando dos rendimentos da expansão marítima que o libertam da dependência das cortes.
  3. D. José I é fundamental não como figura autónoma mas como rei que torna possível Pombal: sem o rei não haveria Pombal, pois todo o poder do ministro dependia da vontade régia, como prova a sua queda imediata após a morte de D. José.
  4. O critério de escolha não foi os reis mais admiráveis ou simpáticos, mas aqueles em que se documenta uma nova ideia do poder real e uma nova visão do país, marcando viragens históricas na organização política portuguesa.
  5. Os imperadores romanos deixaram um legado fundamental na Europa por três razões: fontes excepcionais (literárias e iconográficas), criação do modelo de poder executivo imitado pelos Estados modernos, e o mito político do dirigente supremo que unifica o mundo.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem a dois desafios enviados por um ouvinte: identificar os três maiores reis de Portugal (excluindo Afonso Henriques) e falar sobre Marco António e Marco Aurélio no contexto do Império Romano. O episódio divide-se, portanto, em dois grandes blocos temáticos.

Para escolher os três reis, Rui Ramos propõe um critério deliberado: não se trata de eleger os reis mais simpáticos ou admiráveis, mas aqueles em cujos reinados se pode documentar uma mudança clara na forma como o poder real era concebido e exercido. O primeiro escolhido é Afonso III, que reinou entre 1248 e 1279. Criado na corte francesa junto da tia, a rainha de França, Afonso III chegou ao poder através de uma revolução palaciana contra o irmão Sancho II, deposto pelo Papa. Uma vez no trono, completou a conquista do Algarve e, mais importante, transformou a natureza da monarquia portuguesa: convocou as primeiras cortes com representantes dos concelhos, ordenou as primeiras inquirições gerais do reino - uma espécie de cadastro fiscal e fundiário -, organizou o arquivo da chancelaria régia e emitiu os primeiros decretos de aplicação geral a todo o reino. Com Afonso III, o rei deixou de ser sobretudo um guerreiro conquistador para se tornar um administrador e organizador do território.

O segundo rei escolhido é D. João II, que reinou entre 1481 e 1495. Ramos sublinha que este monarca, conhecido pelo punho de ferro com que eliminou rivais - mandou executar o Duque de Bragança e matou pessoalmente o Duque de Viseu -, protagonizou uma transformação decisiva: a afirmação do rei como poder supremo e sem rivais dentro do reino. No reinado do seu pai e avô tinham surgido grandes casas senhoriais - Bragança, Viseu, Beja - que funcionavam como estados dentro do Estado. D. João II desmantelou esse poder. Reduziu também a frequência das cortes e consolidou uma monarquia mais autónoma, favorecida pelos rendimentos da expansão marítima africana, que tornavam o rei menos dependente dos tributos internos. Além disso, D. João II concebeu Portugal como trampolim para uma hegemonia peninsular, casando o filho com a herdeira de Castela e Aragão - projeto que falhou com a morte prematura do infante, mas que D. Manuel I retomaria.

O terceiro rei, o mais inesperado da lista, é D. José, que reinou entre 1750 e 1777. Ramos argumenta que o poder do Marquês de Pombal era inteiramente dependente da vontade régia - a prová-lo, Pombal caiu imediatamente após a morte do rei. D. José foi, portanto, o verdadeiro motor das reformas pombalinas. Com ele surgiu em Portugal um governo de secretários de Estado com supremacia sobre os conselhos tradicionais, substituindo o modelo de governação partilhada com a alta nobreza que vinha da Restauração de 1640. D. José introduziu também uma ideia nova: a de que o poder devia reformar a sociedade de cima para baixo, rompendo com os direitos adquiridos dos vários grupos sociais - uma novidade de horizonte político, mesmo que executada com repressão violenta.

Na segunda parte do episódio, os apresentadores abordam o tema dos imperadores romanos, contextualizando a figura do imperador no quadro institucional da República romana. Ramos explica que o título de imperator era originalmente um título militar atribuído pelos soldados aos generais vitoriosos, e que Augusto o monopolizou para si e para os seus sucessores. O imperador não era um rex - os romanos repudiavam a monarquia - mas acumulava magistraturas republicanas para legitimar o seu poder. Na prática, o imperador funcionava como árbitro supremo do Império, ouvindo petições e resolvendo conflitos, enquanto liderava militarmente as legiões. Ramos sublinha que a herança imperial romana moldou profundamente a imaginação política europeia: o Sacro Império Romano-Germânico, os títulos de Czar e Kaiser, a trajetória de Napoleão e até o modelo do poder executivo moderno bebem todos dessa tradição. O episódio termina com a recomendação de duas obras de referência: a *Roman Revolution* de Ronald Syme e *The Emperor and the Roman World* de Fergus Millar.

Personagens

  • D. Afonso Henriques
  • D. Afonso III
  • D. Sancho II
  • D. Afonso II
  • Dona Branca de Castela
  • Luís IX (São Luís)
  • D. Dinis
  • D. João II
  • D. Afonso V
  • D. Duarte
  • D. João I
  • Duque de Viseu
  • Duque de Bragança
  • Rui de Pina
  • Garcia de Rezende
  • Bartolomeu Dias
  • Vasco da Gama
  • Infante D. Henrique
  • D. Manuel I
  • D. Manuel II
  • D. Isabel de Castela
  • Príncipe D. Afonso (filho de D. João II)
  • Príncipe D. Miguel da Paz
  • D. José I
  • D. João V
  • D. Maria I
  • Marquês de Pombal
  • Família Távora
  • D. Afonso VI
  • D. Pedro (regente)
  • Henrique IV de Castela
  • Dona Joana de Castela
  • Condessa de Bolonha
  • Augusto (imperador)
  • Júlio César
  • Marco Aurélio
  • Marco António
  • Suetónio
  • Tácito
  • Rómulo Augusto
  • Carlos Magno
  • Carlos V
  • Filipe II
  • Napoleão Bonaparte
  • Leontina Ventura
  • Luís Adão da Fonseca
  • Nuno Gonçalo Monteiro
  • Nuno Palma
  • Ronald Syme
  • Fergus Millar

Lugares/Países

  • Portugal
  • França
  • Castela
  • Aragão
  • Algarve
  • Península Ibérica
  • Espanha
  • Golfo da Guiné
  • Índia
  • Roma
  • Constantinopla
  • Istambul
  • Império Otomano
  • Rússia
  • Alemanha
  • Egito
  • Palestina
  • Síria
  • Balcãs
  • Itália
  • Ilhas Britânicas
  • África
  • Bolonha
  • Leiria
  • Guimarães
  • Minho
  • Trás-os-Montes
  • Beiras
  • Faro
  • Albufeira
  • Silves
  • Lisboa

Épocas

  • século XIII
  • século XV
  • século XVIII
  • Idade Média
  • século I a.C.
  • século I d.C.
  • século II d.C.
  • século V d.C.
  • século IX
  • século XVI
  • século XVII
  • século XIX
  • século XX
  • Antiguidade Clássica

Temas

  • monarquia
  • poder real
  • organização do reino
  • expansão marítima
  • conquista territorial
  • Reconquista
  • absolutismo
  • reforma política
  • centralização do poder
  • nobreza
  • guerra civil
  • diplomacia
  • casamentos dinásticos
  • império
  • despotismo iluminado
  • tirania
  • Império Romano
  • poder executivo
  • sucessão dinástica

Eventos

  • Conquista do Algarve (1249)
  • Cortes de Leiria (1254)
  • Cortes de Guimarães (1250)
  • Inquirições gerais (1258)
  • Processo dos Távora (1758-1759)
  • Tratado de Tordesilhas (1494)
  • Viagem de Bartolomeu Dias (1487-1488)
  • Expedição de Vasco da Gama (1497)
  • Terremoto de Lisboa (1755)
  • Restauração de 1640
  • Depósito de D. Sancho II (1245-1246)
  • Revolução de 1668

Guerras e conflitos

  • Reconquista Cristã
  • Guerra civil entre D. Afonso III e D. Sancho II

Livros recomendados

  • D. Afonso III (Leontina Ventura, 2006)
  • D. João II (Luís Adão da Fonseca, 2005)
  • D. José na sombra de Pombal (Nuno Gonçalo Monteiro)
  • The Roman Revolution (Ronald Syme)
  • The Emperor and the Roman World (Fergus Millar, 1975)

Livros citados

  • A Vida dos Doze Césares (Suetónio)
  • Anais (Tácito)
  • Histórias (Tácito)
  • Crónica de D. João II (Rui de Pina)
  • Memórias (Garcia de Rezende)