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Nº 19322 de março de 202349:45efeméride

Óscar Carmona, presidente durante 25 anos

O episódio analisa duas efemérides de 25 de março: a eleição de Óscar Carmona como Presidente da República em 1928 (há 95 anos) e a morte de D. Afonso II em 1223 (há 800 anos). Sobre Carmona, discute-se o seu papel fundamental na consolidação da ditadura militar e do Estado Novo, argumentando que sem ele não teria havido Salazar. Sobre D. Afonso II, o Gordo, destaca-se o seu pioneirismo na centralização régia e organização burocrática do reino de Portugal medieval.

Ideias principais

  1. Óscar Carmona foi presidente durante 25 anos (1926-1951), o chefe de Estado português com mais tempo em funções desde D. José I, e foi eleito quatro vezes com 100% dos votos.
  2. Carmona não foi um mero adereço de Salazar: a sua eleição em 1928 garantiu a estabilidade necessária para Salazar aceitar ser ministro das Finanças, e em 1932 foi Carmona quem o nomeou chefe de governo.
  3. A relação entre Carmona e Salazar era formal e distante, baseada em interesses mútuos: Carmona representava as Forças Armadas e garantia legitimidade, enquanto Salazar dependia totalmente da confiança presidencial.
  4. D. Afonso II, apesar de não ter feito grandes conquistas territoriais e ter reinado apenas 12 anos (1211-1223), foi pioneiro na centralização régia europeia, criando os primeiros livros da chancelaria e legislando para todo o reino.
  5. O primeiro documento oficial régio em português foi o testamento de D. Afonso II (1214), demonstrando o carácter inovador deste rei que enfrentou irmãs, nobres e o Papa para afirmar a integridade e autoridade do reino.

Resumo do episódio

O episódio 193 de *E o Resto é História* divide-se em dois temas distintos: a figura de Óscar Carmona, o Presidente da República português com maior longevidade no cargo, e o reinado de D. Afonso II, por ocasião dos 800 anos da sua morte. Rui Ramos e João Miguel Tavares começam pelo pretexto imediato para falar de Carmona: em março de 1928, há precisamente 95 anos, o general foi eleito Presidente da República por sufrágio direto, com a totalidade dos votos, uma vez que era o único candidato. Deteria ainda outros recordes: foi o chefe de Estado português que mais tempo permaneceu em funções desde D. José I, o mais velho à data da morte, e o único Presidente da República a falecer em exercício de funções, em abril de 1951.

Os apresentadores exploram o percurso de Carmona até à presidência, situando-o no contexto turbulento que se seguiu ao golpe militar de maio de 1926. Entre os generais que derrubaram a Primeira República havia rivalidades intensas: Mendes Cabeçadas, ligado ao republicanismo histórico, e Gomes da Costa, herói militar de campanha, acabaram por se eliminar mutuamente. Carmona emergiu precisamente porque não era nenhuma dessas coisas: não era um oficial partidarizado nem um militarão de trincheira, mas antes um estudioso de assuntos militares, de modos elegantes e temperamento moderado, capaz de funcionar como árbitro entre as fações em conflito. Era, em suma, uma figura respeitável e apresentável, que não suscitava nem entusiasmos excessivos nem repugnâncias, ideal para incarnar a estabilidade que a ditadura militar necessitava de projetar.

A relação entre Carmona e Salazar é o núcleo central da discussão. Rui Ramos argumenta que, sem Carmona, não teria havido Salazar: foi a eleição presidencial de 1928 que criou as condições de estabilidade que levaram Salazar a aceitar a pasta das Finanças, e foi Carmona quem, em 1932, o nomeou chefe do governo. A Constituição de 1933 manteve a dependência formal de Salazar face ao Presidente, que o podia demitir a qualquer momento. Longe de ser um fantoche, Carmona cumpria funções estruturais no regime: representava a legitimidade das Forças Armadas, poupava Salazar de negociar diretamente com os vários comandantes militares e conferia ao Estado Novo uma base distinta da dos regimes de partido únicos europeus. A relação entre os dois era, porém, distante e formal, como ilustra uma confidência de Salazar ao diplomata Franco Nogueira, segundo a qual nunca teve a certeza de que Carmona estivesse verdadeiramente do seu lado. Um episódio de 1945, em que Carmona recebeu uma delegação da oposição antissalazarista e lhes perguntou se tinham quem substituísse o governo e se contavam com o apoio do Exército, revela que o critério do Presidente era essencialmente pragmático: apoiava quem tivesse força para governar com estabilidade e com o consenso militar.

A segunda parte do episódio recua ao século XIII para reabilitar D. Afonso II, rei de Portugal entre 1211 e 1223, que morreu em Coimbra aos 37 anos, provavelmente vítima de lepra. Rui Ramos sublinha que, ao contrário do que a memória histórica sugere, D. Afonso II não foi um rei menor. Recebeu um reino ainda frágil, com a fronteira sul mal definida após a grande ofensiva almóada de 1191, e sem conquistar territórios de relevo, ocupou-se a consolidar o poder régio internamente. Travou conflitos com as irmãs, a quem o pai dera terras que elas tratavam como domínios independentes, e impôs-lhes a sua autoridade enquanto rei soberano. Em 1211, reuniu as primeiras cortes onde terão sido promulgadas leis gerais para todo o reino. Iniciou as inquirições régias, enviando delegados a verificar os tributos devidos ao rei, e organizou os livros da chancelaria, tornando-se um dos primeiros monarcas europeus a registar sistematicamente a documentação régia. O seu testamento de 1214 é ainda um dos primeiros documentos escritos em língua portuguesa. Apoiado por clérigos juristas formados em Bolonha, D. Afonso II afirmou-se como um dos grandes pioneiros da centralização régia na Europa medieval, comparável

Personagens

  • Óscar Carmona
  • António de Oliveira Salazar
  • Afonso Costa
  • António Maria da Silva
  • Gomes da Costa
  • Mendes Cabeçadas
  • Bernardo Machado
  • Norton de Matos
  • Franco Nogueira
  • José Magalhães Godinho
  • D. José I
  • D. Afonso Henriques
  • D. Sancho I
  • D. Afonso II
  • D. Sancho II
  • D. Afonso III
  • D. Urraca
  • D. Leonor
  • D. Teresa
  • D. Sancha
  • D. Mafalda
  • Abu Yusuf Yaqub (Almançor)
  • Julião Paes
  • Silvestre Godinho
  • Mestre Vicente
  • José Mattoso
  • Frederico II
  • D. Dinis
  • Napoleão

Lugares/Países

  • Portugal
  • Espanha
  • Castela
  • Leão
  • Aragão
  • Navarra
  • Marrocos
  • Dinamarca
  • França
  • Itália
  • Inglaterra
  • Sicília
  • Alemanha
  • União Soviética

Épocas

  • Estado Novo
  • Ditadura Militar (1926-1933)
  • Primeira República
  • século XIII
  • Idade Média
  • Segunda Guerra Mundial
  • fim do século XIX
  • princípio do século XX

Temas

  • ditadura
  • política
  • presidência
  • golpe militar
  • religião
  • maçonaria
  • finanças públicas
  • reconquista cristã
  • centralização régia
  • burocracia
  • legislação
  • doença (lepra)
  • guerra
  • genealogia real

Eventos

  • 28 de Maio de 1926
  • eleição presidencial de 1928
  • eleição presidencial de 1935
  • eleição presidencial de 1942
  • eleição presidencial de 1949
  • 5 de Outubro de 1910
  • Batalha de Navas de Tolosa (1212)
  • conquista de Alcácer do Sal (1158)
  • reconquista de Alcácer do Sal (1217)
  • Cortes de Coimbra (1211)

Guerras e conflitos

  • Ditadura Militar
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • campanhas da Flandres
  • campanhas de África
  • Reconquista cristã
  • ofensiva almóada (1190-1191)

Livros citados

  • diários de Franco Nogueira