Nº 32607 de outubro de 202543:53resposta a ouvintes
Palestina: que terra é esta? – parte I
Este episódio traça a história da Palestina desde a Antiguidade até ao Mandato Britânico (1922-1948), explicando a evolução do território entre o Mediterrâneo e o Rio Jordão através de sucessivos impérios. Rui Ramos demonstra que a identidade palestiniana moderna surge em contraponto ao Estado de Israel, e que historicamente a região foi conhecida como Judeia até os romanos a rebaptizarem Palestina no século II para apagar a memória judaica, permanecendo depois integrada na Síria sob domínio árabe e otomano até à Primeira Guerra Mundial.
Ideias principais
- O nome Palestina foi imposto pelos romanos em 136 d.C. para erradicar a memória judaica após revoltas, substituindo o nome Judeia por uma referência aos antigos filisteus, povo desaparecido desde o século V a.C.
- Durante quase dois milénios sob domínio islâmico (séculos VII-XX), a região nunca teve identidade política autónoma, sendo sempre parte da província da Síria, conhecida como 'Síria do Sul'.
- O Reino de Jerusalém dos Cruzados (1099-1291) foi a primeira vez desde o século I que a região teve identidade política própria, durando quase 200 anos como reino cristão latino.
- No Mandato Britânico da Palestina (1922-1948), tanto judeus como muçulmanos e cristãos eram designados 'palestinianos', sendo o termo geográfico e não identitário; a imigração judaica aumentou a população de 94 mil para 553 mil judeus entre 1914 e 1939.
- A resistência árabe à imigração judaica nos anos 1920-30 era fragmentada em clãs e famílias, liderada pelo Mufti de Jerusalém numa base religiosa anti-judaica (que o levou a aliar-se a Hitler), sem projeto claro de Estado palestiniano autónomo mas antes de reintegração na Síria.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* parte de um pedido de ouvintes para explorar a história da Palestina e do povo palestiniano, desde a Antiguidade até ao período do Mandato Britânico. A pergunta de partida, lançada por João Miguel Tavares, é se é possível contar essa história sem falar de Israel e dos israelitas - ao que Rui Ramos responde que não, pois a identidade palestiniana foi em boa medida forjada em contraponto ao Estado de Israel, ainda que esta constatação não implique qualquer tomada de partido.
O episódio começa por situar geograficamente a região: o território entre o mar Mediterrâneo e o rio Jordão, zona de passagem entre os grandes impérios do Egito e da Mesopotâmia, habitada desde a Antiguidade por múltiplos povos. Rui Ramos recorda que, a partir do século VI antes de Cristo, esta terra foi sucessivamente dominada pelos impérios Babilónico e Persa, que a designaram por Judeia - terra dos judeus. Quando, no século I da era cristã, a região é incorporada no Império Romano, mantém esse nome. Porém, após sucessivas revoltas judaicas e uma repressão cada vez mais violenta, os romanos decidem, em 136 depois de Cristo, erradicar essa memória e baptizam a província de Síria-Palestina, recuperando um nome grego que aludia aos filisteus, povo costeiro provavelmente originário do mar Egeu, entretanto desaparecido há séculos. É assim que nasce o topónimo Palestina.
Os apresentadores acompanham depois a evolução da população local ao longo dos séculos: maioritariamente judaica no século I, torna-se predominantemente cristã no século V, e vai sendo progressivamente islamizada após a conquista árabe do século VII - conquista que não implicou conversão forçada imediata, já que as minorias cristã e judaica pagavam impostos e eram toleradas. O aramaico manteve-se como língua franca até ao século X, e é provável que a maioria da população ainda fosse cristã quando os cruzados chegaram, no final do século XI. O Reino de Jerusalém, que durou quase dois séculos, foi a primeira entidade política autónoma da região desde o reino da Judeia. Com a sua queda, o território integrou sucessivos impérios muçulmanos - primeiro os baseados no Egito, depois o Otomano - sem autonomia política própria, sendo tratado simplesmente como a Síria do Sul.
No século XIX, dois processos transformam profundamente a região. Por um lado, chegam colonos egípcios na sequência de uma conquista temporária do Cairo e, por outro, intensifica-se a presença europeia: potências como a França, a Rússia e a Alemanha patrocinam comunidades religiosas cristãs nos lugares santos, enquanto os britânicos estendem protecção às comunidades judaicas. É neste contexto que nasce o movimento sionista - um projecto laico e de pendor socialista que aspira a fundar uma nação judaica na antiga terra de Israel. A imigração judaica cresce de forma acelerada: em 1914, os cerca de 94 mil judeus representavam já 18% de uma população total de 530 mil habitantes.
A Primeira Guerra Mundial altera definitivamente o quadro. Derrotado o Império Otomano, os britânicos criam, sob mandato da Sociedade das Nações, o Mandato da Palestina - separando definitivamente esta região da Síria e do Líbano. O nome Palestina é recuperado como designação geográfica, e inicialmente abrange todos os habitantes, fossem judeus, cristãos ou muçulmanos. A população cresce a um ritmo extraordinário, de 700 mil em 1920 para 1,7 milhões em 1945, com a comunidade judaica a atingir meio milhão em 1939. Este crescimento, aliado ao desnível de riqueza e às suspeitas mútuas, gera tensões crescentes. A resistência árabe à imigração judaica é liderada sobretudo pelo Mufti de Jerusalém, que enquadra a questão em termos religiosos e chega a estabelecer contactos com a Alemanha nazi. Significativamente, essa resistência não se organizava em torno da aspiração a um Estado árabe da Palestina: o quadro de referência era a Síria, ou mesmo a nação árabe em sentido amplo, e o movimento estava profundamente fragmentado entre clãs e famílias rivais, unido apenas pela oposição à presença judaica.
Personagens
- Jesus Cristo
- Rei David
- Rei Salomão
- Rei Herodes
- Heródoto
- Mufti Hussein de Jerusalém
- Adolf Hitler
Lugares/Países
- Palestina
- Israel
- Judeia
- Síria
- Egito
- Mesopotâmia
- Iraque
- Império Romano
- Império Persa
- Império Babilónico
- Império Otomano
- Jerusalém
- Damasco
- Bagdad
- Constantinopla
- Acre
- Jaffa
- Transjordânia
- Jordânia
- Líbano
- Europa
- França
- Rússia
- Alemanha
- Grã-Bretanha
- Mar Mediterrâneo
- Rio Jordão
- Mar Morto
- Nilo
- Arábia
- Magrebe
- Kurdistão
Épocas
- Antiguidade
- século XI a.C.
- século X a.C.
- século VI a.C.
- século I d.C.
- século V d.C.
- século VII
- século X
- século XI
- século XII
- século XIII
- século XVI
- século XIX
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- anos 1920
- anos 1930
Temas
- religião
- islamismo
- cristianismo
- judaísmo
- identidade nacional
- colonialismo
- imigração
- sionismo
- nacionalismo árabe
- conflito religioso
- império
- mandato colonial
- agricultura
- urbanização
- perseguição religiosa
Eventos
- destruição do Templo de Jerusalém
- revolta judaica de 70 d.C.
- revolta judaica de 136 d.C.
- conquista árabe do século VII
- Cruzadas
- Declaração de Balfour
- criação do Mandato da Palestina
Guerras e conflitos
- Cruzadas
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- revoltas árabes
Livros citados
- Bíblia