Nº 804 de setembro de 201941:55resposta a ouvintes
Papas, tiroteios e Portugal na Segunda Guerra Mundial
Episódio que responde a perguntas de ouvintes sobre três temas distintos: o único Papa português João XXI (Pedro Hispano) no século XIII, a Segunda Emenda americana e a cultura de armas nos EUA, e a neutralidade portuguesa na Segunda Guerra Mundial. Rui Ramos contextualiza historicamente cada questão, explorando identidades nacionais medievais, tradições democráticas de cidadãos armados e a complexa diplomacia salazarista entre aliados e eixo.
Ideias principais
- João XXI era um intelectual europeu do século XIII que não se identificaria como português no sentido moderno, mas como cristão da Península Ibérica, ilustrando como as identidades nacionais são projeções contemporâneas sobre o passado
- A Segunda Emenda americana não é apenas produto de lobby mas reflecte uma tradição cívica de cidadãos armados como garantia contra tiranias, herdada da resistência das milícias coloniais contra exércitos profissionais britânicos
- Portugal manteve a neutralidade na Segunda Guerra Mundial não por simpatia ideológica mas por pragmatismo geopolítico: exposto ao poder naval britânico e incapaz de ser defendido pela Alemanha, Salazar preferiu um equilíbrio europeu onde nenhum lado vencesse completamente
- A ocupação japonesa de Timor demonstra que Portugal não ficou totalmente fora da Segunda Guerra Mundial, com populações coloniais a sofrerem violência direta dos conflitos entre potências
- A bomba atómica não impediu a entrega da Europa de Leste a Stalin porque em 1944-45 os aliados ainda precisavam da URSS, os exércitos ocidentais queriam regressar a casa, e a União Soviética era popular no Ocidente após derrotar a Alemanha
Resumo do episódio
Neste oitavo episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre três temas distintos, partindo de acontecimentos recentes para mergulhar na história: a nomeação de Tolentino Mendonça como cardeal, uma vaga de tiroteios nos Estados Unidos e as comemorações dos oitenta anos do início da Segunda Guerra Mundial.
A propósito da promoção do padre Tolentino Mendonça na hierarquia da Igreja Católica, os apresentadores recordam João XXI, apresentado como o único Papa português, que governou a Igreja durante apenas oito meses no século XIII. Rui Ramos adverte, porém, que a identificação deste pontífice com Portugal é problemática: o nome pelo qual era conhecido, Pedro Hispano, designava qualquer natural da Península Ibérica, e não havia ainda, nessa época, uma distinção entre portugueses e espanhóis tal como a entendemos hoje. A palavra "Hispania" era herdada da tradição romana e abarcava todos os reinos peninsulares, incluindo Portugal. Esta figura encarna o tipo do clérigo europeu medieval - provavelmente nascido em Lisboa, estudado em Paris, médico de papas, professor de lógica e filosofia -, mais identificado com a cristandade latina do que com qualquer nação. Os apresentadores sublinham que a apropriação destas figuras como "nacionais" é uma construção do século XIX, quando os Estados modernos passaram a reclamar para si toda a glória histórica produzida nos seus territórios.
O segundo tema é despoletado por um tiroteio mortal ocorrido no fim de semana anterior nos Estados Unidos. Partindo de uma pergunta de um ouvinte, os apresentadores procuram explicar historicamente o arraigado apego dos americanos às armas, consagrado na Segunda Emenda à Constituição de 1791. Rui Ramos argumenta que esta tradição não se resume ao lobbismo da NRA, mas radica numa concepção política mais profunda: a de que o cidadão armado é a última garantia contra a tirania. A própria revolução americana foi feita por milícias de cidadãos contra exércitos profissionais e mercenários ao serviço da Coroa britânica, o que associou indissociavelmente a posse de armas à ideia de liberdade e igualdade cívica. Este modelo contrasta com as monarquias europeias, que reservavam o porte de armas à nobreza. A título de curiosidade, os apresentadores mencionam que a Suíça, com uma tradição de milícia semelhante, mantém elevados índices de armamento sem taxas comparáveis de violência, e que Portugal ocupa uma posição surpreendentemente alta no ranking mundial de países com mais armas por habitante.
A segunda parte do episódio centra-se na Segunda Guerra Mundial, em resposta a perguntas enviadas por ouvintes. A primeira questiona se o governo de Salazar alguma vez considerou seriamente entrar na guerra ao lado do Eixo. A resposta de Rui Ramos é clara: não. Portugal manteve a neutralidade por razões estruturais que transcendiam qualquer simpatia ideológica. A dependência histórica face ao poder naval britânico tornava suicida qualquer alinhamento com a Alemanha, pois os territórios ultramarinos portugueses - as ilhas atlânticas, as colónias africanas - ficariam imediatamente expostos a represálias aliadas. Ao contrário da Espanha, que enviou a Divisão Azul para combater na frente soviética, Portugal nunca teve um movimento interno com força suficiente para pressionar pela beligerância. Salazar, segundo os apresentadores, preferia que ninguém ganhasse a guerra de forma decisiva, pois tanto uma vitória alemã - que poderia radicalizar a política interna - como uma vitória americana - que ameaçaria o império colonial - lhe seriam prejudiciais. Com o tempo, o regime foi cedendo progressivamente aos Aliados, concedendo bases nos Açores e fazendo das concessões uma forma negociada de cooperação. Os apresentadores lembram ainda que Portugal não esteve completamente à margem do conflito: Timor foi palco de combates intensos, com ocupação australiana seguida de ocupação japonesa, e graves sofrimentos para a população local.
O episódio encerra com uma resposta sumária a uma terceira pergunta - por que razão os Aliados, detendo a bomba atómica, aceitaram que metade da Europa caísse sob domínio soviético -, ficando a resposta mais desenvolvida reservada para o episódio seguinte.
Personagens
- José Tolentino Mendonça
- Papa Francisco
- João XXI
- Pedro Hispano
- Pedro Julião
- Santo António de Lisboa
- Afonso III
- Papa Gregório X
- Viriato
- Franklin D. Roosevelt
- Harry S. Truman
- Winston Churchill
- Joseph Stalin
- Benito Mussolini
- António de Oliveira Salazar
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- Itália
- Alemanha
- França
- Inglaterra
- Estados Unidos
- Suíça
- Brasil
- Polónia
- União Soviética
- Japão
- Áustria
- Hungria
- Checoslováquia
- Finlândia
- Península Ibérica
- Macau
- Timor
- Ilhas Atlânticas
- Açores
- Madeira
Épocas
- século XIII
- Idade Média
- século XIX
- Estado Novo
- Primeira República
- Segunda Guerra Mundial
- guerras napoleónicas
Temas
- religião
- papado
- violência armada
- direitos constitucionais
- guerra
- neutralidade
- diplomacia
- fascismo
- colonialismo
- democracia
- militarismo
Eventos
- nomeação de cardeal de Tolentino Mendonça
- invasão da Polónia
- massacre de Sandy Hook
- invasão francesa de Portugal
- Revolução Americana
- queda da França (1940)
- invasão da União Soviética
- ocupação de Timor
- bomba atómica de Hiroshima e Nagasaki
- tomada de poder na Checoslováquia (1948)
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Primeira Guerra Mundial
- Revolução Americana
- guerras napoleónicas
- invasões francesas