← Arquivo

Nº 714 de agosto de 201943:04resposta a ouvintes

Passar férias no Algarve e passear pelos dois Algarves

O episódio explora duas questões distintas sobre Portugal: a transformação do Algarve em destino turístico de massas a partir dos anos 60 do século XX, impulsionada primeiro por turistas norte-europeus, e a origem do título régio "dos Algarves" (plural), que incluía territórios em Marrocos. Na segunda parte, discute-se o que se sabe (e não se sabe) sobre D. Afonso Henriques, abordando os desafios das fontes medievais e o mito fabricado das Cortes de Lamego.

Ideias principais

  1. O Algarve tornou-se destino de férias massivo só nos anos 60-70, impulsionado por turistas estrangeiros antes dos portugueses, graças à aviação barata e ao aeroporto de Faro (1960-65).
  2. O título "rei de Portugal e dos Algarves" referia-se a dois Algarves: o português e o marroquino (de Ceuta, Tânger, Mazagão), mantido até ao século XIX apesar da perda dos territórios africanos no século XVIII.
  3. Sobre D. Afonso Henriques quase nada se sabe com certeza: as fontes medievais são escassas, tardias, possivelmente falsas ou idealizadas segundo fórmulas de escriba, não havendo certeza se sabia ler ou escrever.
  4. As Cortes de Lamego (1139-1143) e o grito "Alma Cave" são muito provavelmente uma falsificação do século XVII, publicadas por Frei António Brandão na Monarquia Lusitana, mas tornaram-se mito político útil contra os Habsburgos e a monarquia absoluta.
  5. A historiografia medieval portuguesa enfrenta o problema da idealização das fontes: descrições de reis e propriedades seguiam fórmulas literárias e notariais, não pretendendo ser realistas mas corresponder a ideais de como reis e documentos deviam ser.

Resumo do episódio

Neste sétimo episódio de *E o Resto é História*, João Miguel Tavares e Rui Ramos partem de uma constatação aparentemente simples - o facto de agosto ser sinónimo de Algarve para a maioria dos portugueses - para explorar quando e como é que o sul de Portugal se tornou o principal destino turístico nacional. A resposta, desenvolvida por Rui Ramos, revela que esta associação é surpreendentemente recente: o Algarve só se afirma como destino de massas nos anos 60 e 70 do século XX, e foi primeiro descoberto pelos turistas do norte da Europa do que pelos próprios portugueses.

O historiador explica que este fenómeno se insere numa tendência europeia mais ampla do pós-guerra, quando o crescimento da aviação comercial e a generalização das férias pagas permitiram às agências de viagens do norte da Europa organizar pacotes baratos para o sul do continente. Portugal, através do Algarve, foi apanhado nessa vaga, com o investimento decisivo no aeroporto internacional de Faro no início dos anos 60 a funcionar como alavanca. Os números são elucidativos: de 30 mil dormidas de estrangeiros em 1963, passou-se para 500 mil em 1967 e para um milhão em 1970. Antes disso, o Algarve era uma região de agricultura - figos, passas, pesca e conservas - com apenas quatro unidades hoteleiras em 1951. O acesso era difícil: o caminho de ferro só chegou a Faro em 1889 e a primeira estrada em condições data de 1932. Os portugueses preferiam, antes, as praias do norte, mais frescas e agitadas, e as termas, numa época em que ir à praia significava estar vestido e não bronzear-se.

A conversa passa então para a história do nome e do título "Algarves", no plural, que aparecia na titulação dos reis de Portugal. Rui Ramos explica que "Algarve" deriva do árabe e significa "ocidente" - era o ocidente do Ândalus, ou seja, da Península Ibérica. A conquista cristã do território envolveu não só o confronto com os muçulmanos locais, cujo emir de Niebla se declarara vassalo de Castela, mas também uma disputa com o reino castelhano sobre quem tinha direito ao título de rei do Algarve. O segundo Algarve surge com D. Afonso V, que em 1471 passou a intitular-se rei "dos Algarves d'aquém e d'além-mar em África", referindo-se às praças conquistadas no norte de África como prolongamento da Reconquista peninsular. Esse segundo Algarve desapareceu fisicamente com o abandono de Mazagão em 1769, mas a população foi transferida para o Brasil, onde ainda existe uma localidade com esse nome. O título régio, contudo, manteve-se até ao fim da monarquia.

Na segunda parte do episódio, os apresentadores respondem a uma pergunta do ouvinte Francisco Martins: sabia D. Afonso Henriques ler e escrever, e que língua falava? A resposta de Rui Ramos serve de pretexto para uma reflexão mais ampla sobre as dificuldades das fontes medievais. Os documentos da época são escassos, frequentemente conhecidos apenas por cópias tardias de autenticidade duvidosa, e redigidos num latim já muito afastado do original, que deixava transparecer a língua vernácula falada - provavelmente o galego-português, embora D. Afonso Henriques pudesse também comunicar em leonês ou castelhano, línguas da nobreza. As descrições do rei que chegaram até nós seguem fórmulas literárias idealizadas, mais próximas do retrato de um rei-modelo do que de um testemunho realista.

O episódio termina com a discussão sobre as Cortes de Lamego, supostamente reunidas entre 1139 e 1143, onde o povo teria aclamado D. Afonso Henriques e proclamado o célebre "grito de Alma Cave". Rui Ramos situa a origem desta narrativa no Mosteiro de Alcobaça, através dos cronistas Frei Bernardo de Brito e Frei António Brandão, autores da *Monarquia Lusitana*. Enquanto o primeiro foi um historiador de pendor fantasioso que chegou a recuar às origens troianas e ao fundador Ulisses, o segundo foi um investigador rigoroso que incluiu as atas das Cortes de Lamego com reservas explícitas. O documento tornou-se politicamente útil em 1640, ao excluir reis

Personagens

  • D. Afonso Henriques
  • Ramalho Ortigão
  • Gomes Teixeira Gomes
  • Kim Barragos
  • Oscar Wilde
  • D. João I
  • D. Afonso V
  • D. Manuel II
  • Filipe IV
  • António José Saraiva
  • Alexandre Herculano
  • Frei Bernardo de Brito
  • Frei António Brandão
  • Fernão Lopes
  • D. Sancho I
  • Duque de Bragança
  • Filipe II
  • Filipe III
  • Ulisses

Lugares/Países

  • Portugal
  • Algarve
  • Espanha
  • Castela
  • Leão
  • Inglaterra
  • França
  • Alemanha
  • Itália
  • Grécia
  • Marrocos
  • África
  • Brasil
  • Europa
  • Norte de África
  • Andaluz
  • Balcãs
  • Península Ibérica

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • século XIII
  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XII
  • Idade Média
  • pós-guerra
  • anos 50
  • anos 60
  • anos 70
  • anos 80
  • anos 90

Temas

  • turismo
  • descobrimentos
  • conquista territorial
  • monarquia
  • historiografia
  • fontes históricas
  • falsificação documental
  • legitimidade política
  • colonialismo
  • cultura de praia
  • desenvolvimento regional
  • aviação
  • infraestruturas
  • hotelaria
  • migração
  • identidade nacional
  • mitos fundadores

Eventos

  • Batalha de Ourique
  • Cortes de Lamego
  • Restauração de 1640
  • Revolução do 25 de Abril
  • conquista de Ceuta
  • conquista do Algarve

Guerras e conflitos

  • Reconquista cristã
  • Segunda Guerra Mundial

Livros citados

  • As Praias de Portugal (Ramalho Ortigão)
  • Monarquia Lusitana
  • Crónica de D. João I (Fernão Lopes)
  • Livros de Linhagens
  • Crónica dos Godos